Sonkyo – Respeito ao adversário

O Kendo possui um movimento formal bastante curioso aos olhos dos ocidentais. Após cumprimentar-se se curvando um ao outro, os praticantes se dirigem ao centro da área de luta e realizam um movimento simbólico de desembanhamento das espadas. Imediatamente após isso, ambos os lutadores se abaixam apoiando o corpo quase nos calcanhares, mantendo o tempo todo as costas eretas e com as espadas apontadas para o tsukidare (ponto de estocada na garganta) do adversário. Essa “postura” e “movimentação ritualizada” é conhecida como sonkyo.

Realizando o sonkyo

Sonkyo

Segundo o que é ensinado, esse movimento formal tem como principal significado o respeito ao oponente, eventuais colegas de treinos e instrutores. Porém, sob o ponto de vista ocidental, qual é a real necessidade desta formalidade, sendo que ao entrar e sair da área de luta já se cumprimenta abaixando a cabeça?

Não sou nenhum especialista na área e possuo pouco conhecimento no que diz respeito ao Kendo. Mas tenho grande satisfação em buscar informações e me inserir neste universo rico que é uma arte marcial. Dessa forma, busquei algumas fontes, informais aviso desde já, sobre o assunto.

O sonkyo não é visto somente no Kendo. Ele também é realizado no Sumo, uma luta japonesa muito tradicional e segundo consta, milenar. Já li em alguns lugares que se trata da “luta dos deuses”. Algumas fontes o citam meramente como um esporte, outras de fato como luta com status de arte, altamente ritualizada.

sonkyo no Sumo

Realização do sonkyo no Sumo

A origem do sonkyo seria religiosa e teria ligações aparentemente profundas com o xintoísmo. Mas me absterei de comentar sobre essa parte, já que não tenho conhecimento sobre esta religião. O que posso afirmar é que, do ponto de vista do artista marcial um pouco mais experiente, é que se trata inicialmente do espírito de fair-play, sob a essência da cordialidade.

Pois pense bem: os japoneses dão uma ênfase muito forte ao conceito de honra. Sua cultura é influenciada pelo “código do samurai”, onde não existe a idéia de malandragem propriamente dita, e que o vencedor de um embate é aquele que subjugou o adversário sem o uso de artimanhas ditas como “sujas”, usando o máximo de sua força e habilidades. E no iniciar de uma luta, nada mais justo que ambos lutadores estarem em iguais condições de armas e terreno para que comecem a contenda. Realizando o sonkyo, os lutadores se apresentam formalmente dispostos a batalha e em iguais condições, sem artimanhas e surpresas que poderiam ser interpretadas como “desonrosas”. Isto é um dos princípios básicos da honra no aspecto marcial e do Budo. Um desafio de cavalheiros.

Atualmente, deve ser difícil imaginar um combate até a morte com espadas. A ficção nos oferece uma visualização desse tipo de situação muito limitada e baseada na plástica cinematográfica. Será que o samurai, após vencer um embate de vida ou morte, limpava sua espada e realizava alguma reverência em homenagem ao adversário morto que o combateu?

Para nossa realidade, o melhor simulacro marcial encontra-se no esporte. Salvo considerações que muito limitam a ação marcial no plano de técnicas e segurança do competidor, temos no embate esportivo uma oportunidade de aplicar as técnicas treinadas. Karate, taekwondo, judô, jiu-jitsu, esgrima. Em todas essas lutas, que realizam combates ditos esportivos, a essência das artes marciais é explorada através da técnica e do treinamento. Assim sendo, um dos aspectos que mais deveriam ser considerados na formação do lutador é justamente a tal “honra” cuja bandeira é levantada toda vez que se fala de sua luta. Será mesmo?

Esta cena é realmente necessária?

Um artigo que deveria falar de sonkyo acaba se misturando às demais artes. Por que? Bem, nestas artes que citei existe um forte treinamento voltado à competição, que muitas vezes ofusca certos detalhes técnicos e filosóficos. E quem nunca viu um competidor sair pulando comemorando um ponto ganho ou um nocaute? Os comerciais de TV as vezes exaltam justamente esse momento, numa linda mensagem de “superação” do indivíduo.

Mas falta algo a se considerar. Se houve um “vencedor”, também temos um “perdedor”. O que acontece com o espírito da pessoa que foi derrotada? Glória ao vitorioso e… miséria ao derrotado? É aqui o ponto que queria chegar. Treina-se tanto fisicamente que as vezes o lado espiritual e filosófico ficam bastante de lado. E a tal bandeira da honra que a todo o momento era exaltada parece que só ganha cores no pódio junto de medalhas e troféus.

Eu acredito firmemente que não há honra sem dignidade. E que não existe dignidade em comemorar uma “vitória marcial” às custas quase de chacota do derrotado. E que uma vitória conseguida dessa forma é vazia. Claro que tudo isso é besteira no ponto de vista real da guerra. Inimigo bom é inimigo morto, não importa os meios. Mas dentro do contexto do Budo, onde o aprimoramento do potencial humano é uma das principais metas, isso faz uma enorme diferença. Digo isso porque, tanto no Kendo quanto no Sumo, o vencedor não comemora. O ponto obtido não é comemorado. E tudo apenas pelo respeito à dignidade do adversário. Acredito que a vitória fala por si. Não existe necessidade de comemoração, pelo menos da forma como é feita dando pulinhos, erguendo os braços e fazendo caretinhas com kiai forte. Pois a dignidade que reside no ato de não se vangloriar às custas da derrota do oponente reflete o perfil e o caráter daquele que venceu.

Assim sendo, vencedor e perdedor realizam o sonkyo ao final da luta, com a mesma motivação do começo, para depois agradecerem um ao outro no lado de fora da quadra. Agradecendo a oportunidade pelo aprendizado, a oportunidade de testar suas habilidades. E aqui eu acredito que começa a ficar um pouco claro os motivos “religiosos” da coisa. Vencer e perder são meras facetas do aprendizado.

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…..O que achou da matéria? Sua opinião é importante para o crescimento deste trabalho. Caso tenha dúvidas ou queira conversar sobre o assunto, envie um e-mail para blog.espiritomarcial@gmail.com ou deixe seu comentário!

9 comentários sobre “Sonkyo – Respeito ao adversário

  1. Olá!
    Sou praticante de Kendô e gostei muito de seu texto! Fenomenal! Concordo completamente!
    Queria complementar com duas coisas. Acho fundamental o respeito do vencedor ao perdedor justamente por este ser perdedor. No shiai, só há vitória para um lado se há a derrota para o outro. Então, o meu adversário derrotado foi fundamental para a minha vitória. Por respeito à boa luta e à vitória que ele me proporcionou, eu o reverencio completamente. Como ele, ao perder, me fez vencer, não deve ser menosprezado e ridicularizado (como na foto da Esgrima).
    Outra coisa: o sonkyo do Kendô é uma versão simplificada do sonkyo de estilos antigos.
    Os lutadores agachavam, colocavam as espadas no chão, faziam uma reverência, pegavam suas espadas e levantavam. Essa informação me foi passada por Roberto Kishikawa sensei, atualmente técnico da seleção de Kendô de Hong Kong, e que tem conhecimento de koryû.
    Assim, o sonkyo do Kendô moderno é uma versão simplificada, mais rápida e prática do que o original.
    Mais uma vez, parabéns pelo texto, com boa elegância literária!

  2. Olá Fábio.

    Sim, a informação do Roberto Sensei procede, porém não sei dizer se a forma como você mencionou era “oficial” para a maioria dos estilos antigos, embora tenha visto assim em alguns estilos.

    Só não posso concordar com o fato de você ter colocado a forma atual do sonkyo como “simplificada”. Que ela foi alterada, ou adaptada ou reformulada, seja para atender certas necessidades, eu concordo em dizer. Mas meramente “simplificada” não. Espero que tenha entendido meu ponto de vista.

    Muito obrigado pela sua participação no nosso blog.

    Ps.: obrigado pela explicação do gyaku-do em s.Carlos. Abraço! :)

  3. Aqui um vídeo do youtube que mostra “um tipo de” sonkyo antigo logo no início.

    Vídeo do Jigen-Ryu.

    Até!

  4. Por isso, que procurei o caminho do Kendo (mesmo não praticando mais), pois igual foi colocado no texto, a vitória fala por si só.
    Lembro de uma vez no campeonato interno, o sensei separava o pessoal em dois grupos e os novatos como eu, ficavamos torcendo feitos loucos (gritando pega ele, vai pra cima e essas coisas, enquanto o pessoal mais graduado somente fazia sinais com a cabeça mostrando aprovação a cada golpe bem executado, lembro do ***** fazendo isso, da ******, tanto que a ****** veio e disse que não era daquela forma que tinhamos que torcer…bons tempos), mas então voltando ao assunto, por isso que não sou a favor do kendo ser levado para as olimpiadas, pois acho que vai se perder muito desse “respeito” entre os adversários, igual ao que acontece com o Judo, assisti o fim de semana passado o gran prix nacional de judo, meu e que coisa horrível, a cada luta o vencedor saia gritando e pulando e o que era ainda mais feio, você via nitidamente o cara gritando por……, caral……., numa total falta de respeito a arte e ao adversário.

  5. Pingback: Artigo antigo sobre o reiho | Budoka da Cuesta

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