Bushido – Alma de Samurai

BushidoO livro Bushido – Soul of Japan tem sido considerado a obra definitiva do comportamento samurai por uma grande parcela de entusiastas, figurando como citação obrigatória de toda discussão sobre o assunto. Esta obra iniciou a imagética ocidental do pensamento japonês no início do século XX, e hoje se discute a reverberação de suas ideias, cuja pretensão buscava delinear bases da cultura japonesa para estrangeiros.

 

 

A tradução analisada é a da editora Tahyu de 2005 e consiste do seguinte sumário (sic):

– BUSHIDO COMO UM SISTEMA ÉTICO

– AS FONTES DO BUSHIDO

– RETIDÃO OU JUSTIÇA

– CORAGEM, O ESPÍRITO DA OUSADIA E DA ORIENTAÇÃO

– BENEVOLÊNCIA, O SENTIMENTO DA DOR

– CORTESIA

– VERACIDADE E SINCERIDADE

– HONRA

– O DEVER DA LEALDADE

– A EDUCAÇÃO E O TREINAMENTO DO SAMURAI

– AUTOCONTROLE

– AS INSTITUIÇÕES DO SUICÍDIO E REPARAÇÃO

– A ESPADA, A ALMA DO SAMURAI

– O TREINAMENTO E A POSIÇÃO DA MULHER

– A INFLUÊNCIA DO BUSHIDO

– O BUSHIDO AINDA ESTÁ VIVO?

– O FUTURO DO BUSHIDO

nitobe

Nitobe (1862-1933).

Inicialmente, é preciso contextualizar a obra em seu período. Consta no livro de Inazo Nitobe uma escrita intelectualizada, carregado de referências de pensadores europeus e pequenas críticas comparativas dos modos de vida japonês e ocidental, equiparando, e quando em algumas passagens, tentando argumentar a superioridade orgulhosa do pensamento nipônico. Assim, também demonstra que o país, que estava se inserindo entre as potências econômicas e militares do planeta, também possuía pensadores letrados e versados na cultura ocidental, e portanto, “civilizados”. Talvez fosse objetivo de Nitobe demonstrar isso, ao mesmo tempo que funciona como didática para com seu público leitor, se familiarizando com exemplos próximos de seu repertório.

Esta tradução peca em muitos sentidos para aqueles que possuem um domínio mínimo de japonês, tornando a ordem das famosas sete virtudes um pouco confusa, sendo que mesmo na tradução em inglês observada isto acontece. O próprio autor em muitos momentos é vago no sentido de explicar exemplos de lealdade, dever, honra, fidelidade ou retidão, cujos significados podem interagir entre si em uma zona cinza que sem um cuidado maior na explicação, soa tudo parte de um mesmo processo. E não que não seja.

A ausência de ideogramas que identifiquem cada um também atrapalha na compressão das virtudes em separado, além de alguns termos inseridos sem as devidas notas de tradução ou contextualização.

O ponto interessante de discussão é como o livro influencia na percepção das artes marciais da espada japonesa. Existe um claro impacto que considero negativo, mistificando demais conceitos que seriam simples no modo de vida do samurai como se fossem grandes revelações ou iluminações espirituais. Talvez este seja um problema dos leitores, apesar da clara tentativa de Nitobe em elevar modo de vida nipônico, mas ainda assim esse tipo de imagem está presente nas mídias televisivas e cinematográficas, usando sempre as referências de modo romantizado.

A própria noção de superioridade do coração do japonês, colocado pelo autor, evoca um sentimento pseudo-adoração a eles e a torna uma espécie de meta idealizada de comportamento, o que pode nos gerar uma influência de inferioridade, também chamada de “complexo de vira-latas”. Assim, palavras que deveriam ter uma conotação simples como retidão, honra ou benevolência ganham contornos e nuances especiais bem desnecessárias, quando deveriam ser mera parte dos pensamentos de uma pessoa minimamente bem orientada.

As virtudes tem um lado bom...

As virtudes tem um lado bom…

Assim, cresce o falatório sobre os valores do samurai e como nós deveríamos nos aproximar deles em termos morais, sendo que beira ao irreal a noção de pessoas de qualquer época com tais qualidades de “bom mocismo”. Pensando de forma mais justa e equilibrada, tais virtudes deveriam agir em um plano mais profundo, como filtros para decisões dúbias e conflituosas. Nesse sentido, é um bom sentimento buscar aplicar os conceitos para edificar nosso comportamento. Entretanto, é claramente observado que, às vezes, e em alguns perfis de pessoas, existe uma busca artificial pela aparência, pelas frases de efeito e a necessidade de se mostrar como alguém preocupado demais com tais questionamentos.

...um lado ruim...

…um lado ruim…

Finalizando, a crítica maior, como em muitas formas de mídia, não tem a ver com a obra em si, que é reflexo do seu tempo, mas em como diferentes leitores podem interpretar: carregados de fantasia samuraica na mente ou com mais ceticismo e ponderação. Para o leitor mais maduro, com olhar crítico, é uma interessante leitura de época, pois tenta esboçar um cenário de uns quarenta anos antes de sua publicação (embora não sabia das qualificações de Nitobe para tanto). Ao jovem ingressante nas artes marciais, é necessário o cuidado de não se pegar respirando autoajuda mística orientalóide.

...e um lado PÉSSIMO. Não se deixe enganar.

…e um lado PÉSSIMO. Não se deixe enganar.

 

Bushido – Alma de Samurai

Autor: Inzo Nitobe

Editora: Tahyu (2005)

Original de 1900.

ISBN 85-99150-03-0

Título original: Bushido – The Soul of Japan. An exposition of the japanese thought.

128 páginas.

Valor sugerido: R$ ??

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Postado em 07 de Fevereiro de 2017.

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