Budo – Uma visão

…..O misticismo adquirido pelas artes marciais japonesas no ocidente é originado, possivelmente, de estereótipos criados pela falta de modelos nativos e pela discrepância cultural que modos distintos de pensamento sofreram e estranharam-se.

…..Com o passar do tempo, um amálgama de conceitos orientalóides se instalou naturalmente no imaginário popular, delimitando contornos irreais dos treinamentos e pensamentos marciais. Posturas pseudofilosóficas caricatas acabaram por se tornar a regra, comumente usadas por charlatães e pessoas com experiência mínima, para emular toscamente a presença de um artista marcial talhado.

O conhecimento se revela no treino austero.

O conhecimento se revela no treino austero.

…..Neste cenário, tanto ensino quanto interpretações dúbias e errôneas sobre o pensamento marcial japonês se diluem em ausência de instrução qualificada e falta de familiaridade cultural. O que pode ser considerado adequado em termos de postura, pensamento, ideologia e treinamento? Como trilhar um caminho marcial considerado correto?

…..Ao se observar a história da espada japonesa, percebe-se mudanças desde o formato da lâmina, formas de treinamento, técnicas específicas, uso de proteções e um culto quase religioso à escola de formação no último milênio. Houve um tempo em que nem eram considerados métodos formais de treinamento, bastando astúcia, coragem e uma boa dose de força física para sobrepujar o inimigo. Estratégias de como vencer o adversário foi o pensamento predominante durante muitas décadas.

…..Um dos grandes transformadores da mentalidade marcial japonesa foi a unificação do país por Tokugawa Ieasu, que através do regime de xogunato, estabilizou os conflitos regionais e trouxe relativa paz após quase 200 anos de guerra civil e caos. Os samurai, antes soldados em batalhas, se viram em um cenário onde suas estratégias de combate não seriam mais aproveitadas, tornando-se gradualmente burocratas e administradores.

O xogum Tokugawa Ieyasu. Estátua em Shizuoka.

O xogum Tokugawa Ieyasu. Estátua em Shizuoka.

…..Sem a necessidade do aprimoramento para a guerra, a espada pouco seria desembainhada em um mundo pacificado. Naturalmente, as tradições guerreiras não seriam abandonadas: filosofias mais sofisticadas e refinamentos de métodos de treinamento foram moldados para a nova era, mas a falta de oportunidades para testar sua perícia de forma real direcionou muitos dos aspectos filosóficos ao cultivo de mentalidades mais serenas e introspectivas que evitavam o combate imediato revelando a espada que “oferece a vida” – o katsujinken.

…..Porém, o grande catalisador da mudança do espírito marcial do samurai foi sem dúvida o fim do regime Tokugawa e a rápida modernização do Japão no fim do século XIX, onde o papel do samurai enquanto soldado de prontidão termina.

…..Com as constantes mudanças culturais e militares, o uso de instrumentos primitivos de combate foi sendo posto de lado, tornando a espada um ornamento cerimonial, e não mais o espírito e ferramenta da luta. Então, um complexo processo de transformação e revitalização da cultura militar japonesa, baseada em tradição e ultranacionalismo institui as artes marciais como prática obrigatória nos currículos escolares no início do século XX, amparado por instituições especializadas (como o Dai Nippon Butokukai) e comissões técnicas formadas por expoentes das artes.

Sede o Butokukai em Kyoto - 1932.

Sede do Butokukai em Kyoto – 1932.

…..Mesmo que artes de combate antigas não tivessem a mesma eficácia que equipamentos bélicos modernos, não foi difícil concluir que uma pessoa espiritualmente fraca e mentalmente despreparada não poderia ser um soldado capaz. A visão essencialmente militarista da aplicação das artes marciais logo se provou um forte catalisador da força de vontade, moldando o espírito dos japoneses ao exemplo dos já extintos samurai.

…..Assim sendo, mesmo que em um primeiro momento as artes de luta tradicionais não fossem aplicáveis ao combate (pense em arco e flecha, alabarda e uso de espadas em campos de batalha modernos), seu praticante possuía a tenacidade e força espiritual para cumprir seus deveres de forma competente.

Jukendo, o treinamento de baioneta acomplado aos rilfes.

Jukendo, o treinamento de baioneta acomplada aos rilfes.

…..Todas estas transformações maturaram o então conceito do Budo – o Caminho Marcial – que envolve ideologias mescladas de influência religiosa e cultural, adaptadas para tempos em que a eficácia e marcialidade não sejam o foco mais essencial, em um primeiro momento. O foco é entender a força, mas jamais usá-la de forma leviana. Adquirir a força, pelo treinamento austero e compromissado, mas evitar situações de conflito.

…..Como então, manter seu treinamento e postura dentro dos conceitos mais relevantes do Budo? Ser “apenas” um praticante de artes marciais é o objetivo? Saber lutar? Conseguir se defender? Ou se concentrar em ser um “teórico” marcial?

…..Primeiramente, o modelo é bastante importante. Em diversos momentos, em inúmeros textos apresenta-se a figura do Sensei como guia na jornada do Caminho. E cabe a ele a responsabilidade de orientação de forma muito próxima. Em textos antigos, a presença do mestre é afirmada de maneira folclórica e pouco aplicável aos modelos de academia de hoje (principalmente quando se imagina a relação mestre-discípulo como um tutor presente).

…..Sobre o ensino que um Sensei pode providenciar, penso, em termos de opinião absolutamente pessoal, que existem dois caminhos distintos que levarão o estudante à descoberta de habilidades: a inspiração e a obrigação.

…..A mentalidade militar, aliada a autoafirmação da masculinidade do praticante de artes marciais, direciona, ou melhor dizendo, o força a treinamentos árduos e ignorar limites físicos de maneira perigosa e desmedida. Punição pelos erros é uma constante e castigos corporais são a regra. É um caminho padrão seguido por muitos ainda hoje, derivado do tradicionalismo marcial japonês da época da 2ª Guerra (não que fosse muito diferente antes, aproximando-se do ideal espartano de treinamento), e considerado essencialmente correto na formação de um guerreiro resistente e agressivo.

Será um bom caminho?

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…..Uma alternativa menos conservadora reside no processo de esclarecimento do estudante de seus pontos fortes e suas deficiências. O Sensei se mantém mais neutro em relação à conduta de treino do estudante, porém, sem deixar de apontar os erros técnicos. Neutro no sentido de permitir ao aluno a autocorreção, já que é interesse único e exclusivamente dele a evolução técnica, mas caracterizando a ausência de punições mais severas. Dessa maneira, a diminuição da pressão pelo resultado e receio da punição pelo erro relaxaria corpo e mente de modo a trabalhar de forma mais leve e flexível, buscando a excelência técnica. O aluno naturalmente percebe que, enquanto estiver apanhando (em um combate simulado), algo ainda está errado.

…..Desses dois caminhos apresentados, o primeiro provavelmente apresenta os resultados mais rápidos, já que condiciona e obriga o estudante a rotinas pesadas de superação. No segundo modelo, somente os alunos mais compromissados desenvolverão suas habilidades de forma equivalente, quando adotam uma postura autocrítica mais severa que direciona seu espírito.

Ainda que caricato, muito verdadeiro.

Ainda que fictício, muito verdadeiro.

…..E existe um caminho correto? Essa dicotomia é mesmo real? Uma mescla dessas atitudes pode criar o praticante ideal? São questionamentos básicos do estudante mais maduro.

Pensemos em exemplos para ilustrar a conduta.

…..Imagine que em sua academia de Kendo exista uma pessoa com um golpe men excepcional, suponhamos que seja o melhor praticante da casa e que este seja seu tokui-waza (sua melhor técnica). De uma forma quase democrática, mesmo que ele possua um golpe que o coloque em grande vantagem em relação a pessoas mais lentas, de menor estatura, fisicamente menos aptas ou muito mais velhas, sempre será possível atacar seu kote ou seu do. Existem técnicas que permitem vencer um adversário poderoso em determinado ataque e que tornam a disputa mais balanceada.

Ataques simultâneos: ai-men.

Ataques simultâneos: ai-men.

…..Aqui reside o momento de decisão: se ele é muito bom no men, para vencê-lo devo atacar seu kote (debana-kote) em antecipação ou seu do (kaeshi-do) defendendo e contra-atacando. Sim, é possível “vencer” através desta conduta. Em uma situação competitiva, provavelmente é a decisão lógica e indiscutível.

…..Mas pense que Budo, em minha opinião, não se trata só de vencer: aprendemos a detectar oportunidades de realizar feitos que superam nossas fraquezas, deficiências, principalmente, nos tirando da zona de conforto. Se o men de meu adversário é tão bom, não terei ali uma oportunidade de estudá-lo e aprimorar o meu próprio?

…..É muito comum, ao treinar ai-men (quando ambos praticantes atacam simultaneamente a cabeça um do outro, mas somente um consegue atingir corretamente), perceber que seu golpe não está bom, principalmente quando está levando na cabeça mais do que está acertando. Imagine treinar com este colega que possui um ótimo men. É provável que perca dele todas as vezes neste exercício, não? É justamente aí que reside a oportunidade de analisar, aprimorar cada vez mais até começar a acertar seu colega. É possível e isso realmente acontece, com uma boa dose de esforço.

…..Retornando então ao cenário da decisão: debana-kote ou kaeshi-do contra um excelente men?

…..Nenhum dos dois. Fazer aquilo que te mantém na esfera mais segura e garantida é a resposta para o comodismo e a estagnação da técnica. Conformismo. O verdadeiro espírito do Kendo exige que seu praticante avance e ataque destemidamente. Com tudo. Receba-o de frente! Então ao invés de optar por um contra-ataque conveniente, ao adotar o mesmo golpe do adversário com o espírito de ai-uchi (quando ambos se golpeiam simultaneamente e “morrem”), o verdadeiro sentido do Budo se manifesta.

Uma opção estratégica, mas não necessariamente corajosa.

Uma opção estratégica, mas não necessariamente audaciosa.

…..Nada garante que vá vencer. Mas neste momento, não é isso que importa. A força e presença de espírito necessárias para assumir uma postura corajosa e audaciosa, que focou a manutenção de uma fraqueza é o grande prêmio. O desapego com a “vitória” trabalha na eliminação do ego, talvez o principal inimigo do estudante de artes marciais. Se tivesse optado por debana-kote ou kaeshi-do, poderia ter vencido, e talvez não por mal, estaria se vangloriando do feito. Mas a incerteza e a aposta tiraram a mente de um estado passivo, perseguindo o progresso.

…..Esse é o centro e o segredo do treinamento, e é muito mais psicológico do que físico em si.

O 1º ippon é um ai-men.

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…..Budo não pode ser meticulosamente sinônimo de “artes marciais”. Ele ali está inserido. Tampouco é o resultado de ações. É todo o processo que permite o treinamento físico intenso, a percepção aprimorada e a decisão. A relação com o Sensei e os colegas de treino. Materializa-se no sentimento do aperfeiçoamento vindo de uma autocrítica e uma análise interior própria que visa um momento de descoberta e iluminação, nunca pela obrigação ou punição de um instrutor, pois ali não há rei. E finaliza com um “muito obrigado” ao colega do bom men, que foi o parceiro desta conquista. Uma vez compreendido, tais conceitos nunca vão deixar o coração do praticante, principalmente, do lado de fora da academia.

…..O próprio conceito de “caminho” favorece uma semântica que indica um percurso, não fixando exatamente o ponto de início ou de destino. E muitas vezes, diversos caminhos levam ao mesmo fim, e alguns mostram mais, outros menos, uns são mais rápidos, outros muito lentos. E ainda há “desvios” e “atalhos”. Tudo depende do que se deseja vivenciar em sua jornada.

A escolha de um bom caminho leva a belas paisagens.

A escolha de um bom caminho leva a belas paisagens.

 

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…..O que achou da matéria? Sua opinião é importante para o crescimento deste trabalho. Caso tenha dúvidas ou queira conversar sobre o assunto, envie um e-mail para: blog.espiritomarcial@gmail.com

10 comentários sobre “Budo – Uma visão

  1. Excelente, **** san. Parabéns.
    Muito bacana a explicação do conceito de budo no começo. Tenho pensado muito sobre isso ultimamente. É notório como o budo é mal compreendido no ocidente. Perguntas como “mas isso é mesmo eficiente em uma luta de verdade?” são tão comuns… Até mesmo quem é do meio das artes marciais pensa que arte-marcial = defesa pessoal. Temos a sorte de praticar um budo que chegou quase intacto no ocidente e que usa a espada (uma arma arcaica que ninguém nunca tem a disposição) como instrumento, o que torna essa confusão do conceito de budo mais fácil de sanar.

    • Obrigado, Mário!

      Fiquei bastane preocupado em escrever este texto justamente por soar bastante prepotente em alguns momentos, mas acho que ficou claro que é apenas uma opinião bem pessoal, uma interpretação de infinitas que podemos extrair do tema e de nossa vivência no treinamento…

  2. Parabéns , **** san pelo texto.
    É muito bom para quem lê, resgatar as idéias de desapego pela vitória e a busca pelo aprimoramento pessoal, tendo em cada parceiro e em cada treino uma oportunidade, uma lição. Noções hoje já um pouco esquecidas.
    Muito obrigado por inspirar quem segue o caminho.

    • Sou eu quem agradece, Godinho!

      Obrigado pela visita! Estamos todos juntos no caminho do aprimoramento, acho que o que conta é a vontade sincera que vem do coração para se aperfeiçoar sempre, mesmo que tenhamos nossas limitações particulares (e olha que eu tenho muitas…haha)

  3. Excelente *****! Enviei o link do artigo para os amigos da Colombia. Obrigado!

  4. Excelente!!! O que é a aprendizagem se não as vivências pessoais, nesse sentido o caminho se revela em função das escolhas, muito bem colocadas por “você”. Parabéns!!! De minha parte, divido (em agradecimento) parte dos frutos de minhas experiências, nesses mais de trinta anos de Budo, “As escolhas são as mais importantes, pois podemos muitas vezes, estar saindo pela porta que deveríamos é de entrar”.

    • Olá Sandro,

      Assim como o “carma”, o “caminho” que tomamos nos trará uma série de retornos, que nos influenciarão para novas decisões e possibilidades, boas ou ruins. Só depende de nossa “visão” para focarmos naquilo que agrega para o bem…

      Agradeço seu comentário e sua visita!

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