O Mito do Kendo Esporte

Observando vídeos, textos e comentários na internet é possível fazer um diagnóstico básico da imagem da prática da espada japonesa no Brasil. E infelizmente é algo bastante deturpado para aqueles que procuram por instrução tradicional e real.

A prática do Kendo remota há mais de mil anos no Japão, não no formato refinado como se conhece hoje, mas evoluindo organicamente e se adaptando às necessidades dos guerreiros de acordo com cada época. Desde uma manipulação mais crua até posturas e teorias mentais sofisticadas, o uso da espada persiste ainda hoje, em forma de legado, para todos que desejarem seguir uma parte do caminho marcial japonês.

bogu antigoSomente em meados do século XVIII é que o equipamento de proteção (bogu) foi inventado, permitindo maior interação nos combates da academia, que deixaram de ser simulados em coreografias para instituir um novo patamar de aprendizado, com resultados mais amplos e substanciais. Embora diversas escolas não aderissem seu uso, ficou claro que a nova forma de treinar permitia testar muitas habilidades em um contexto de combate corpo-a-corpo seguro, tanto que persiste até hoje na forma já mundialmente conhecida do Kendo.

Ainda assim, fica um gosto amargo quando se vê supostos “especialistas” em espada japonesa no Brasil discursando sobre como o Kendo é esporte e suas técnicas são limitadas comparadas ao “kenjutsu”, este sim a vertente militar. Muito provavelmente, isto se dá pela eficiente divulgação de entidades paralelas, cujos objetivos pelo visto envolvem atrair seguidores, e para isso, tentam diminuir a realidade do Kendo, numa simples estratégia de minar a concorrência.

De forma muito triste, parece que o dano já foi feito e está alastrado pela internet e imaginário popular: o Kendo se apresenta como uma parte “menor” e esportiva das artes dos samurai. Por causa de ego e ganância, pessoas de má índole estão maculando os esforços de grupos que lutaram muito para que tal tradição não se extinguisse frente à tecnologia militar moderna na virada do século XX e suas transformações nos últimos 120 anos.

O Kendo é uma forma de Budo. Um conjunto de práticas tradicionais físicas e psicológicas que, através de uma atividade laboral de combate, busca iniciar o lutador em uma jornada de aperfeiçoamento técnico e pessoal, tornando-o uma pessoa mais madura, segura e esclarecida. Dado este cenário, é um equívoco deselegante simplesmente esportizar as artes marciais.

E afinal, existe mesmo um componente esportivo no Kendo?

Claro que sim. Uma vez que existem campeonatos e regras para a condução das disputas, isto é certo. E mesmo este texto dando impressão, é igualmente tolice querer afirmar que o esporte está abaixo do Budo. Existe um tênue limite de percepção entre as atividades que pode ser explorado, no mau sentido, de acordo com os interesses de cada parte. Não há a menor necessidade de querer promover um acima do outro.

A linguagem da luta em Kendo é uma simulação. Não é possível abordar lutas com espadas de forma real, por isso, ter consciência dessa limitação faz parte da maturidade do praticante. No entanto, as técnicas realizadas e a mentalidade de combate estão de acordo com os princípios fundamentais da espada japonesa. Isto é difícil explicar de uma maneira que não seja rasa para que não pratica. A essência do treinamento conduz os adversários a lançar um único e mortal ataque. É evidente que é muito complexo detectar as condições ideais para o feito, e conjurar suas capacidades corporais simultaneamente. Por isso, o ponto e Kendo é tão exigente. Mesmo atingindo o adversário várias vezes, só será considerada aquela que se mostrar letalmente incontestável – e é este golpe que deverá ser a referência.

Campeonato Kendo Todofuken

Para aqueles que acham o Kendo é apenas um esporte de combate, deveriam assistir presencialmente algumas lutas do Campeonato Brasileiro nas categorias mais altas e perceber a intensidade do impacto e espírito combativo dos competidores. Sem dúvida, o modelo de combate atende bem a muitos quesitos no desenvolvimento de um espadachim ao estilo japonês, principalmente pela formação teórico-filosófica dos praticantes. No entanto, existem varáveis mais complexas e questionadoras do quanto o Kendo se aproxima do esporte quando o ataque é desmedido e pensado apenas em técnicas que mentalizam o shinai (espada de bambu) e não a katana.

O uso do termo “ponto” também nubla o entendimento da arte. Não de disputa pontos em Kendo, mas sim habilidades. O termo shiai (試合), superficialmente traduzido como “luta” significa literalmente “teste simultâneo”, onde os lutadores desejam medir as capacidades um do outro. Este “jogo de sincronização” na luta é um dos maiores segredos da espada, que é percebido naturalmente com o aprendizado. E sem a morte do combatente, o elemento de rivalidade impulsiona a melhoria da técnica, sempre tentando surpreender em um novo shiai, sem ficar estagnado, e cada vez mais forte.

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N.P.P.

O tom de vitimização ao se referir ao Kendo não é gratuito. Existem dezenas de pseudoescolas de “kenjutsu” cujo irritante discurso é idêntico no sentido de se autopromover à custa das artes reais. Uma vez que o Kendo é organizado de forma amadora no Brasil, sua entidade oficial aparentemente prefere não se envolver em uma política de fiscalização, que poderia demandar custosos processos em um sistema judiciário que não saberia considerar o que é real e o que é invenção. Uma pena. Desejo sorte para quem busca aprender a verdadeira arte da espada japonesa no Brasil: está ficando difícil encontrar as referências certas.

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Postado em 9 de Setembro de 2015.

6 comentários sobre “O Mito do Kendo Esporte

  1. Fica muito dificil, quando alguém totalmente de fora do mundo de kendo, tem o interesse de procura-lo, facilmente cai na teia muito bem preparada a dizer que o kendo é um mero “esporte” que o “kenjutsu” é muito superior e etc. A vaidade conta no primeiro momento, pensando que está aprendendo de linhagens de mestres do japão e etc (cai no encanto, mas sai) . O marketing do lado de lá é forte, o ego é forte… não acredito que tenha alguma solução.
    No breve tempo “pratiquei” o “kenjutsu” ouvi dizer no kendo só era ponto válido men e kote… tsuki e Do não existia… e ouvi isto de uma pessoa que estava a no minimo 7 anos lá… nem um pesquisinha no youtube? um livro? um blog? (este me ajudou muito com o post kenjutsu no brasil). O conteúdo do “kenjutsu” é raso, mas o marketing/psicologico muito profundo e bem pensado.

    • Olá Diogo,

      Obrigado pelo depoimento! De fato, impressões gerais e ego fortalecem a má percepção da realidade. De qualquer modo, fico contente em saber que buscou a “luz”.

      A única solução é divulgar informação verdadeira: insistir em fazer os interessados e ludibriados a pensar COM QUEM eles estão treinando, e fazer, principalmente, um comparativo financeiro de quanto estão gastando. Afinal, sabe-se o que os picareta$ querem.

      Também penso que é dever de quem treina o verdadeiro Kendo/Iaido se apresentar com humildade e tentar esclarecer equívocos, sem depreciar ou ofender. O Kendo existe há pelo menos 100 anos, e pessoas sérias estão lutando pela sua divulgação e preservação. Podemos também fazer a nossa parte! :)

      • Concordo… a preservação da arte é o ponto chave. Fico me perguntando se o marketing do kendo no brasil não seja tão atrativo como das outras “academias”, mas ao mesmo tempo preserva a integridade de uma arte que não almeja “criar samurais imbatíveis”… É uma duvida, não cheguei em alguma conclusão.

        A “fita” destes lugares é tão bem feita que me pego achando que não tem solução, mas você tem razão… Aos poucos divulgando, aos poucos caminhando.

        Faito!, Abraço

      • Olá Anônimo,

        Não vejo o ponto como meramente divulgação. O próprio Kendo possui uma linguagem de treinamento que não tem nada a ver com filmes e desenhos animados, que invariavelmente afetam a percepção dos interessados. Quando percebem o quanto é repetitivo, se perguntam se é realmente interessante continuar.

        Creio que nesses locais “samuraicos” tratam de passar exatamente a expectativa que um leigo tem, com uma atmosfera “mística”, cheia de “disciplina” e “orientalismos”, discursos e “filosofia samurai”. Assim, fica fácil direcionar o seu produto ao emocional de quem “compra”… não é mesmo?

        Por isso penso que o Kendo deve ser ensinado de forma honesta para não conflitar com essas expectativas alienadas. O ingressante precisa ser amplamente esclarecido da importância da base, do kihon, da repetição… perceber naturalmente como isso faz parte da luta, como se aplica ao combate, no esporte, e de que forma pode impactar na sua vida.

        Obrigado pela visita e comentário! :)

  2. Comecei a me interessar por Kendo assim que mergulhei nos mangás de Vagabond, obra de Takehiro Inoue que me fez ir em busca dos livros onde o mangaka se inspira. Logo me vi indo atrás de algum lugar para aprender. E vi uma tal academia que ensinava o Kenjutsu.
    Visitei e conheci, porém achei um absurdo o preço de matrícula, equipamento etc… Realmente fiquei triste.
    Um tempo depois senti vontade de novo e pesquisei e achei alguns dojos em São Paulo, visitei o Dojo do Bunkyo e sinceramente curti muito. Vi como foi diferente. Valor da mensalidade para apenas ser pago o aluguel do espaço, a shinai na época comprei no SE BOGU, lá fui muito bem atendido. Treinei pelo menos uns 6 meses parei por conta da faculdade mas retornarei ainda esse semestre.
    Fui graças à blogs como o seu e gente que procura a não deixar que muitos sejam enganados e assim aprender o espírito do caminho da espada.

    • Olá Felipe,

      Obrigado pelo depoimento. Fico feliz em ajudar. Você escolheu uma ótima academia, grandes mestres, grandes kenshi. O treinamento deles é árduo e forte! São muito admirados por isso! Desejo boa sorte em sua jornada, muitos calos e suor, mas com toda certeza da satisfação de estar envolvido com a verdadeira arte da espada japonesa! :)

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