Bushi no Me

Dentro das práticas e dinâmicas das artes marciais, o caminho do auto aperfeiçoamento é insistentemente exaltado pela mídia e entusiastas. Novamente, excluindo-se o imediatismo da defesa pessoal, é sempre interessante observar os métodos e pensamentos que sugerem reflexão.

Mas afinal, as artes marciais realmente promovem alguma mudança no comportamento? E se sim, como se dá este processo?

Apesar de não acreditar em ‘mudanças de personalidade’ radicais em virtude de uma nova ‘aceitação espiritual’ (salvo talvez lavagem cerebral), é inegável que caminhos de vida que envolvem princípios elevados de disciplina e condicionamento causem algum impacto no modo de ser de algumas pessoas. Mais do que um ‘ajuste’ de comportamento, abre-se uma percepção para os eventos do cotidiano, permitindo lidar melhor com situações diversas, principalmente através de uma observação mais cuidadosa do todo.

De certo modo.

De certo modo.

O conceito de ‘visão’ para os ocidentais está pragmaticamente associado à capacidade orgânica do globo ocular em captar a luz ambiente e enviar impulsos eletroquímicos para o cérebro, embora a palavra também tangencie outros significados (como percepção, sabedoria, premonição e até sonhar). Para os orientais, em especial os japoneses, o conceito de ‘ver’ com os olhos também é atrelado, porém muito mais intimamente, a diversas conotações interpretativas conscientes e inconscientes, abordando principalmente relações de sinergia do que é visto, além de noções de causa e consequência, conflito, detectando oportunidades para agir conforme seus interesses.

No livro Flashing Steel: Mastering Eishin-Ryu Swordmanship (2ª edição), de Masayuki Shimabukuro Sensei, 8º dan Hanshi, antes mesmo de abordar técnicas ou história dos samurai, é apresentado ao leitor um capítulo inteiro dedicado à percepção do guerreiro japonês, didaticamente colocado como introdução básica ao treinamento em Iaido. Tais aspectos psicológicos envolvem como os samurai viam situações por diversos prismas, qual o conceito de ‘visão’ abordado e as diferenças culturais e semânticas entre ‘ver’ e simplesmente ‘olhar’.

Masayuki Shimabukuro, 8º dan Hanshi

Masayuki Shimabukuro, 8º dan Hanshi.

Shimabukuro Sensei começa por apresentar quatro tipos diferentes de visão:

Nikugen, ‘olhos nus’

Seria equivalente ao mero reconhecimento de uma imagem retinal, de modo a apenas perceber superficialmente o que está a sua frente. Também é associado a pessoas que veem apenas seu próprio ponto de vista, de maneira bastante bidimensional, com a inocência perceptiva de uma criança. O nikugen é o tipo de visão que pode ser facilmente obstruída: em termos interiores, é muito similar aos desafios lógicos onde a pessoa é enganada apenas pelos fatos superficiais, e se deixa levar por eles como uma verdade absoluta, sem conseguir entender a essência do desafio. Também pode ser citado como exemplo a incapacidade de ver a ilusão de ótica daquelas figuras duplas (por exemplo, a clássica jovem e velha). A pessoa é facilmente ‘cegada’ ou mentalmente ‘engessada’, sem perceber as possibilidades para a solução.

 

Tengen, ‘perspectiva neutra’

O ideograma ten (天) é comumente associado ao conceito de ‘céu’ ou ‘paraíso’, mas não é possível fazer essa leitura tendo como base o cristianismo. De maneira genérica, seria o alto da atmosfera, ou algo que está acima do homens em termos filosóficos. Por isso, tengen é uma espécie de visão neutra, onde é possível enxergar o panorama total, ao contrário do nikugen, que é preso numa perspectiva própria e limitada.

Metaforicamente, é como ver a floresta completa, não apenas a árvore, o que elimina possíveis distorções de interpretação pessoal, e não pode ser facilmente obliterado, uma vez que a pessoa se posiciona como um jogador de xadrez que vê todo o tabuleiro de cima. Porém, muito do seu julgamento ainda pode ser influenciado pelas emoções, preconceitos ou circunstâncias de sua vida.

 

Egen, ‘visão interpretativa’

Trata-se de um estado de visão mais avançado, onde a percepção do que é visto é analisado primariamente pelo subconsciente, mas não é resultado de uma mente analítica sobre o panorama. Shimabukuro Sensei usa o exemplo de dois carros que estão indo em direção de colisão iminente em um cruzamento, mas eles ainda não podem se ver. A relação de causa-e-consequência aqui é revelada no momento em que a trajetória de ambas é percebida por um observador externo de modo mais inconsciente e imediato. Ao contrário do nikugen, onde apenas um elemento seria destacado (um dos carros ou a paisagem) ou do tengen (todo o cenário mas sem uma possível previsão dos resultados), não se vê apenas a forma física do evento, mas no contexto das forças que estão em ação no momento, demonstrando a maturidade adulta da percepção.

 

Shingen (também conhecido por Hogen), ‘olhar compassivo’

Mesmo com todas suas características, egen ainda é incompleto. Este último estágio é importante pelo fato de que os anteriores são desprovidos do componente emocional essencial: compaixão.

A compaixão é o que leva a tomar a atitude correta. O samurai, segundo Shimabukuro Sensei, não via as coisas simplesmente como ‘certo’ ou ‘errado’, colocando-se a parte de julgamentos pessoais. Apenas aquilo que era de valor elevado deveria ser sua preocupação. Hogen pode ser também entendido como ‘ponto de vista da leis’, mas não daquelas escritas que regem o homem, mas uma perspectiva universal, onde existe igualdade de compaixão para cada pessoa, já que ela também faz parte do todo (a natureza). Seria este o ponto de vista do samurai, através de uma benevolência única para tomar atitudes, pois assim como no Iai, são necessárias decisões de vida ou morte em um instante: é preciso uma visão profunda dos fatos para o desembainhar definitivo da espada.

Um piscar de olhos para decidir.

Um piscar de olhos para decidir.

No exemplo do livro, Shimabukuro Sensei fala sobre uma situação específica: você está atrasado para uma reunião de negócios e ao adentrar a rodovia, percebe um congestionamento gigantesco. Pelo nikugen, você estaria focado na preocupação de causar uma má impressão com os clientes ao se atrasar. Como resultado, possivelmente você fará manobras arriscadas, ziguezaguear e andar no acostamento para ganhar tempo.

Já através do tengen, a pessoa tomaria certos cuidados, como reduzir a velocidade em alguns pontos ou se preocupar em olhar para o retrovisor para saber se a polícia foi acionada, ainda tentando ganhar algum tempo.

A pessoa portadora do egen não permitiria que o simples atraso para a reunião nuble seu julgamento. Percebe que dirigir perigosamente poderia não só resultar em uma multa mas também poderia causar um sério acidente, se preocupando com as pessoas ao redor, que precisam tanto chegar ao seu destino assim como ele. Talvez perceba que seus clientes também estão presos em um trânsito equivalente.

O ‘samurai’  já estaria na tal reunião. Ele perceberia, através do hogen, que as estradas poderiam estar cheias e sairia mais cedo para o compromisso, além de procurar vias alternativas para chegar a tempo. Sempre estar um passo à frente dos problemas é simplesmente ponderar sobre as situações e eliminar um inconveniente antes mesmo que ele possa acontecer.

Esse tipo de percepção, adquirida com a experiência de treino, é amplamente compatível com as necessidades cotidianas e diga-se de passagem, é extremamente integrada ao próprio conceito de Iai, onde estar preparado de antemão, através de uma ‘visão apurada’ é a chave para o sucesso. Essa imersão no modo de ver e pensar dos samurai é um passo não apenas para autoconhecimento, mas para polir as próprias atitudes que geram ações no mundo exterior, que podem retornar de forma positiva ou negativa para nós mesmos.

_____________

…..O que achou da matéria? Sua opinião é importante para o crescimento deste trabalho. Caso tenha dúvidas ou queira conversar sobre o assunto, envie um e-mail para: blog.espiritomarcial@gmail.com ou deixe seu comentário!

4 comentários sobre “Bushi no Me

  1. Sempre gosto de ler suas publicações. Recebo as atualizações por e-mail. Vejo que todas as reflexões podem ser aplicadas de forma mais ampla. seja em outras modalidades marciais, seja no próprio cotidiano.

    • Olá Carla,

      Obrigado pela preferência. Acho que todas as artes marciais tem isso em comum, são mais que esporte ou aprendizado de técnica, muito além de violência ou competição. Nos fazem pensar no nosso relacionamento com o mundo, trabalho e ao fim, nós mesmos. É uma jornada de descoberta através de tradição e disciplina. Novamente, obrigado pela visita e pelo comentário!

  2. Ótimo texto. Breve, porém com profundidade suficiente para entender o Metsuke.

    • Olá Paulo,

      Obrigado! Mas mesmo um texto não consegue exprimir o que sentimos quando experimentamos a vivência… o treino diário e constante nos faz perceber as coisas naturalmente, não é mesmo? :)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s