Conexão

…..O treinamento no Kendo normalmente exige, além de um enorme esforço físico, um trabalho mental e espiritual de grande resistência para suportar as adversidades desta atividade. Essencialmente, um dos propósitos do treino pesado é testar os limites de esforço e perseverança do praticante, para que ele “não peça para sair”.

…..Em muitos momentos, o estudante pensa sinceramente se não deveria parar um pouco para descansar, tomar água ou simplesmente recobrar a força de vontade. E é aí que o treinamento precisa dar resultado: sem forçar um pouco seus limites, parte do treinamento é perdida. Há houve casos de tonturas, desmaios e até mesmo vômito dentro do capacete! Então, quem sabe não seja melhor ficar mais um pouco, fazer mais uma série de golpes? Só mais uma? E quando ela terminar, que tal fazer somente mais uma série? Falar sempre é tão fácil…

Kirikaeshi: mais amplo, mais kiai, de novo e de novo. Cortesia BKA.

…..Essa força mental que é treinada constantemente através do esgotamento físico é essencial na formação de indivíduos disciplinados que possuem grande poder de concentração e obstinação para cumprir seus objetivos, sejam profissionais ou pessoais. É uma forma bastante básica de perceber um grande benefício das artes marciais.

…..É evidente que esse treinamento melhora a condição física e técnica de um lutador. Mas dependendo da modalidade que se treina, muitas vezes a atuação prática e real da arte é inviabilizada pelo seu modelo. Explico: Kendo é baseado em espadas. E caso precise se defender usando esta arte marcial, é um tanto exagerado utilizar tal instrumento – quem anda armado com uma?  Além dos problemas legais que podem se desdobrar, como agressão, lesão corporal, reação desproporcional e o agravante de ser praticante de artes marciais, de quem é exigida responsabilidade.

…..Então, o que se extrai de tanto esforço e tanto treino?

…..Existem muitos críticos de pessoas que são imersas, até demais, nos princípios e valores do Budo. Por vezes, o discurso é bonito, as palavras são como as de um mestre e evocam um patamar superior de comportamento, repleto de diretrizes idealizadas e nariz empinado. Entretanto, nem sempre é possível associar o ganho teórico e espiritual a uma real carga de treinamento sofrido. Então, assume-se que aquele que fala demais, treina de menos.

…..Mas independente dessas vozes, a mudança de comportamento é positiva, mesmo que de forma artificial (veja a matéria Conversão, publicada em 19 de Dezembro de 2009). É como um primeiro passo para se aprofundar no “estudo do eu”.

…..Kendo pode ser encarado como esporte, como hobby ou como complemento de valores e comportamentos se esse for o desejo do praticante. É uma oportunidade de exercitar princípios de educação, polidez e perseverança que tanto são exigidos e treinados na academia. Aquele golpe perfeito que é buscado muitas vezes fica somente no momento do treino, onde aspectos esportivos e até lúdicos direcionam o aperfeiçoamento técnico.

…..Esse golpe perfeito na luta é uma metáfora de motivação, onde planejamento estratégico, execução otimizada de um método e uma dose de audácia podem levar a vitória em inúmeras situações. Não é de se estranhar que executivos e administradores tem como bibliografia na faculdade livros como A Arte da Guerra ou o Livro dos Cinco Anéis, pois os modelos de negócios possuem muitos paralelos com a natureza do conflito.

…..Mas e na vida pessoal?

…..Veja a situação: o Sensei é reverenciado pelo aluno, é tratado com as mais polidas expressões. Aprende-se a respeitá-lo e ter grande admiração. Muito natural. Na academia existe todo esse cuidado no trato com as pessoas. E fora dela?

Rei não é apenas se curvar ou  reverenciar.

…..Por incrível que pareça, já vi pessoas que se incomodam em tratar bem um prestador de serviço. Se a pessoa lhe serve, nada mais justo que seja agraciada com sua cortesia. Afinal, “obrigado” deveria ser a primeira palavra que uma criança aprende. Qual a diferença entre o Sensei e o garçom, o lixeiro, o porteiro, que são  profissões consideras sem grandes destaques socialmente, ao contrário de médicos e advogados?

…..O campeão mundial se ajoelhou para dar um autógrafo a um fã desconhecido, na falta de uma postura confortável. Um gesto pequeno que mostra como educação, cortesia e humildade estão interligados.

Teramoto no Brasil: autógrafo para um fã.

…..Na academia, quando um colega lhe acerta um ippon, é o ideal acenar com uma reverência, parabenizando-o pela realização. E nem por isso você deixou de aprender alguma coisa. A espada do adversário cortez é aquela que te ataca honestamente onde existe uma fraqueza, uma brecha, mostrando onde você deve investir esforço e treinamento para se corrigir. Em uma próxima oportunidade, essa falha pode deixar de existir, graças a ele.

…..Existe forte preocupação em melhorar o “eu interior” para que isso, de alguma forma, se espelhe nas virtudes técnicas do kenshi. Para os que são graduados e experientes, é possível perceber que as características das pessoas se manifestam na forma como lutam. Insegurança, agressividade, impaciência. Raiva, medo, desapego. Tensão, ansiedade. Tranquilidade, certeza, objetividade. São conceitos intangíveis que precisam ser trabalhados psicologicamente e nem sempre o Sensei poderá orientar de forma prática perceptível, servindo principalmente de exemplo vivo. Dessa forma, o Kendo se manifesta como atividade de profunda reflexão, na esperança de vencer essas barreiras negativas que “travam” nosso desempenho e habilidades.  E essa reflexão é o segredo de como você se “conecta” com o treinamento: buscando paralelos entre ações do combate e suas aplicações em modelos da vida cotidiana.

…..Kendo não se trata de matar pessoas. Nem é sobre bater em pessoas. É uma oportunidade de melhorar seu “eu” interior. De como você faz algo. Como você faz tudo, desde o mais banal até o sofisticado. Como você trata e se relaciona com as pessoas. Kendo pode estar presente em tudo. Tudo é Budo. Esse é o Caminho, ou pelo menos, o começo.

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Notas Pós Publicação:

…..Eu aprecio bastante os temas que induzem a reflexão e certamente escrever textos como esse são uma oportunidade para pensar na forma como encaro o treino e como isso pode ser benéfico – ou não.

…..Concordo que é incômodo que uma pessoa se posicione acima dos demais, ditando normas de comportamento idealizadas como se fossem grandes exemplos para a humanidade e se autoproclamando mestres da virtude. São inconvenientes, e para não dizer mais, até mesmo hipócritas, pois a falta de perfeição da condição humana nos carrega a situações onde nem sempre é possível atuar com tal orgulho.

…..O que não pode ser considerado como desculpa para nivelar nossas atitudes e decisões pela conveniência da situação. O espírito inflexível deve se manifestar quando nossos princípios são testados e isso é um ponto crítico em nossa sociedade. É só observar como são as denúncias de corrupção política e moral nos jornais: estamos repletos de maus exemplos ao nosso redor.

…..Tenho receio de que textos desta natureza criem um falso sentimento de que o autor é tão “correto”, uma pessoa “ideal”, um “mestre de si”. Longe disso, muitas vezes nossos (meus) princípios fraquejam, tentações nos (me) abalam e nem sempre acertamos em nossas decisões e comportamentos. De novo, o que não quer dizer que existam desculpas para um espírito fraco e sugestionável. Seguir seus princípios de forma plena é um ótimo exemplo de como trilhar o Caminho. Se você é Senpai, é sua obrigação ser exemplo para os Kouhai. Se você é pai, é naturalmente o exemplo para seu filho. Ou pelo menos, pode inspirar alguém a fazer o bem e ser correto. Acho que nos entendemos agora. Obrigado e me desculpem!

…..Veja aqui as palavras de Mochida Moriji Sensei (1885-1974), 10º dan Hanshi em Kendo:

“Eu acredito que o kendô não é para cortar pessoas
É para cortar os pensamentos negativos que surgem dentro de si
Para desenvolver um espírito que jamais se abala em qualquer situação
Para burilar o corpo, a mente e o espírito
Para nascer a sabedoria luminosa,
A força de vontade resoluta e firme
e um temperamento gentil e pacífico
Para sempre guardar o mútuo respeito entre mestre e discípulo
Para treinar, buscando um espírito e uma técnica mais elevadas
Para conhecer o propósito de existência do ser humano e
trilhar o grande caminho que um ser humano deve trilhar
e com isso beneficiar o mundo.”

…..Este fragmento de texto foi retirado do blog Kendorrhea, de Luiz Kobayashi, autor de Peregrinos do Sol – A Arte da Espada Samurai.

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…..O que achou da matéria? Sua opinião é importante para o crescimento deste trabalho. Caso tenha dúvidas ou queira conversar sobre o assunto, envie um e-mail para: blog.espiritomarcial@gmail.com

4 comentários sobre “Conexão

  1. Yagi, excelente post, com certeza leva à muitas reflexões. Você sintetizou alguns os principais dilemas do treinamento, a questão do treino pesado e do rei, importantíssimos na minha opinião.

    grande abraço e feliz 2011

  2. Grande texto Shiro. Gostei muito.
    Nos meus treinos sempre me espelhei e me inspirei em você, no Renato e no Sensei.
    Enão Shiro você para mim sempre foi fonte de inspiração e admiração. Uma pena que eu tenha desistido quando você começou a mostrar Iado para nós.

    Abraços e um abençoado e feliz 2011.

  3. Caro Antônio, caro Sidharta, obrigado pelos cumprimentos e tenham um excelente 2011.

    Nunca é tarde para retormar, repensar, resistir e reatar. O Rei existe dentro de nós, a primeira pessoa que deve ser convencida destes proprósitos somos nós mesmos. É como quando o Shonuff pergunta para o Leeroy: “Quem é o Mestre?” e ele responde: “EU.” :)

  4. Shiro, valeu pela resposta.
    Me deu muita vontada de voltar aos treinos. (e de assistir ao Ultimo Dragão de novo).
    Abraços.

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