SHU – HA – RI na Prática

Certa vez estava comentando sobre um kata do Muso Jikiden Eishin Ryu chamado Yaegaki e disse algo que aparentemente causou espanto a quem estava ouvindo. Nosso grupo, que pratica esse estilo de Koryu (estilo antigo) de Iaido, tem como modelo Oshita Sensei (Oshita Masakazu, 8º Dan) e seguimos a orientação dos seus alunos mais graduados nos esforçando em fazer as formas desse estilo exatamente como demonstradas. Pelo menos é isso que tentamos fazer.

Haruna Sensei.

Mas o que foi que causou o espanto? Ao comentar a forma Yaegaki eu mencionei que Haruna Sensei (Haruna Matsuo, 8º Dan, 1926-2002), que foi o professor de Oshita Sensei, fazia esse kata de uma forma um pouco diferente. Pude ver os vários pares de olhos ao meu redor se arregalando e senti como se pudesse ler a mente de todos, “Como assim? Oshita Sensei não faz o kata como Haruna Sensei fazia?” Bem…  não exatamente.

Para entendermos como por um lado tentamos emular o que Oshita Sensei e seus alunos mais graduados fazem e por outro lado Oshita Sensei não faz as formas exatamente como seu próprio sensei fazia temos que entender o conceito de Shu-Ha-Ri, que é o processo de aprendizagem no Budo, o caminho marcial.

De acordo com a filosofia do Budo, a primeira etapa do aprendizado, Shu 守, significa obediência, seguir à risca. O caractere chinês (kanji) dessa palavra é composto por duas partes, “casa” e “lei”. Portanto representa a morada da lei, das normas. Também é traduzido como “proteção” ou “defesa”. Neste caso deve-se proteger o que se acaba de receber para que não sofra alterações indevidas. Nessa fase, é pela imitação e repetição exaustiva que o aluno tenta absorver o que o professor está transmitindo e grande atenção é dada ao aspecto físico das formas.

Oshita Sensei.

A segunda etapa é Ha 破. O seu kanji é composto por “pedra” e “quebrar”. A palavra dá a ideia de rompimento. Seria errado pensar que agora o praticante quebra as regras e, por assim dizer, faz as formas como quiser. Nesta fase, o aprendiz já tem o domínio formal do que foi transmitido e passa a se perguntar por que as formas são executadas daquela maneira, buscando o significado profundo delas. As formas deixam de ser executadas de uma certa maneira simplesmente porque é assim que elas são, mas ganham sentido. O “rompimento” na verdade se dá porque o praticante deixa de simplesmente executar um ritual, fazer por fazer, e passa a ver os princípios nas técnicas, tomando noção de todos os fragmentos que compõe a forma.

A última fase é Ri 離. O seu kanji é composto por uma parte que representa um pássaro e outra que representa a ação de sair ou de se separar. Ri pode ser visto não só como separar mas também como superar, ir além. Ao chegar a esse nível, o praticante pode-se dizer mestre da forma, de modo que ela, a própria forma, progride e evolui. A técnica é apropriada pelo praticante e ela passa a ser sua. Sua compreesão da forma faz com que ela possa ter nuances próprias sem comprometer o sentido profundo do kata.

Isso pode parecer confuso para muita gente. O kata que é feito agora não é o mesmo que era feito há séculos? Sim e não. Na essência sim, é a mesma técnica nos seus princípios mas a forma evolui na cadeia de transmissão. Isso ocorre como fruto de um longo processo no qual o professor ajuda o aluno a incorporar a forma e fazê-la desabrochar em si.

A palavra que é usada para estilo, Ryu 流 (como em Muso Jikiden Eishin Ryu), também significa fluxo, assim como um riacho. Não é algo estático mas sim dinâmico. Assim como você reconhece um riacho como sendo o mesmo riacho que você viu no passado, mesmo sabendo que todos os elementos que o compõe não são mais os mesmos (a água, as margens, a vegetação, etc.) que você viu antes. Assim também acontece com  o estilo antigo (Koryu), que reconhecemos como sendo um estilo específico que foi passando de geração em geração mantendo a sua essência.

Oshita Sensei é o segundo da esquerda para direita (Seminário de Verão BKA 2015)

Sendo assim o kata que vemos Oshita Sensei executar não é o mesmo kata que Haruna Sensei executava. Esse kata, pelo processo de Shu-Ha-Ri, agora é um kata próprio de Oshita Sensei. No entanto, os dois são o mesmo kata, da mesma linhagem, de Muso Jikiden Eishin Ryu pois os dois têm a mesma essência. Mas, como diria Saint-Exupéry, o essencial é invisível aos olhos.

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O colunista convidado é Gustavo Gouveia, que detém o 5º dan em Iaido (estilo Muso Jikiden Eishin-Ryu) e 4º dan em Kendo. Leciona em Recife e iniciou seus treinos na Inglaterra em 1996. Hoje atua como instrutor dessas artes através da Confederação Brasileira de Kendo.

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6 comentários sobre “SHU – HA – RI na Prática

  1. Muito bom. Parabéns pelo texto, Gouveia sensei. Parabéns Yagi san pela iniciativa de convidar colunistas. Acrescenta bastante ao blog.

  2. Entendo que os praticantes de Iaido são pessoas, que muito mais do que a forma e a parte física, buscam sua essência. É natural, pois me parece que esta arte não tem como objetivo exercícios físicos ou defesa pessoal.
    Ainda no início desta prática, procuro entender de que forma ela se reflete no cotidiano, em nossos pensamentos, comportamentos e posturas e vejo que não é perceptível esta relação, ela se aprimora tão gradativamente, que não notamos, a não ser que comparemos com o início, veremos que estamos mais serenos, holísticos (visão do todo), sensatos e disciplinados, é certo que tenho um longo caminho a trilhar, mas como a Escada de Jacó, é longa e laboriosa, porém gratificante.
    Relacionando com o título “Shu-Ha-Ri”, não somente no dojô, aplicaremos em nossas vidas estes conceitos, bem textualizado e resumido pelo Sensei Eduardo Golveia.
    Parabéns.

    • Olá Paulo,

      Sim, sintetizou bem o caminho a percorrer, e o treinamento é o agente modificador de nossas frágeis verdades, que são contestadas por novas observações constantemente reveladas pela arte marcial. Isso é bastante edificante e gera um fascínio motivador.

      Só me permita uma pequena correção por favor, o Sensei autor do texto se chama Gustavo, e não Eduardo, ok?

      Obrigado pela visita!

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