Samurai X

O mundo da fantasia dos filmes e quadrinhos é um forte influenciador para os jovens na hora de buscar práticas marciais de seu perfil.

Os filmes de artes marciais dos anos 70 e 80 influenciaram toda uma geração de lutadores de Karate, Kung-fu, Kickboxing e Ninjutsu, em sua maioria. E o contato que os jovens fizeram com essas mídias desenvolveu uma predileção especial por cada modalidade, de acordo com sua época e idade.

Em meados do ano de 2001, foi publicado no Brasil o manga Samurai X – Crônicas de um espadachim na Era Meiji (Rurouni Kenshin – Meiji Kenkaku Romantan, るろうに剣心明治剣客浪漫譚), de autoria de Nobuhiro Watsuki. O manga foi lançado no Japão em 1994 e durou até 1999, obtendo estrondoso sucesso, acompanhado por um desenho animado de 95 capítulos, dois longas metragens dramáticos (um dividido em 4 partes e outro em 2) e um especial para TV.

O manga em si é bastante divertido: trata-se de uma aventura infanto-juvenil, contada de forma bastante competente pelo autor. Narra-se a história do samurai revolucionário Kenshin Himura, que após o sangrento conflito conhecido como Bakumatsu (queda do governo do Xogum Tokugawa, para a implantação do modelo democrático parlamentarista no Japão e centralização do poder nas mãos do imperador) toma uma decisão marcante em sua vida: jamais matar novamente, uma vez que foi durante muito tempo um assassino cruel da mais alta competência, encarregado de eliminar figuras políticas importantes do processo de revolução nacional.

Kenshin Himura, no traço do anime

Por causa desta difícil decisão, e de seu passado conturbado, Himura é constantemente perseguido por inimigos ou requisitado para resolver situações de conflito. E, por sua própria natureza e força de caráter, ele faz o que pode para ajudar e proteger as pessoas ao seu redor, sem jamais se poupar, tamanho é o peso das vidas que tirou quando matador. Curiosamente, ele usa uma espada com o fio cortante em seu verso, como símbolo de seu voto, o que evita maiores danos nos inimigos durante suas lutas.

O ponto de destaque do manga se encontra na personalidade do protagonista e sua decisão de jamais matar novamente. Himura é um homem pacato e gentil no trato com todos, demonstrando grande humildade e atenção para com o próximo. Porém, no seu interior, reside o espírito combativo de Hitokiri Battousai (人斬り抜刀斎, ou Battousai, o retalhador), que em breves e provocados acessos de fúria, toma conta de seu ser, revelando-se de fato, um homem absurdamente frio, mortal e implacável. E aparentemente, imbatível.

Battousai, o retalhador

Outro ponto muito interessante é o caráter histórico da obra. Himura está inserido num contexto histórico tal, ligado a protagonistas historicamente reais da revolução. Dessa forma, participa ativamente de batalhas históricas que ocorreram, como o famoso incidente da hospedaria Ikeda, batalha de Toba-Fushimi e até um arco fictício que determinou a política expansionista e militarista do Japão no início do século XX. Isso sem falar na participação do Shinsengumi como arquiinimigos, em especial o famoso samurai Hajime Saito.

Hajime Saito e o Shinsengumi, no traço do desenhista

É difícil descrever as qualidades da obra, uma vez que sou um fã incondicional. Pela minha experiência com a prática do Kendo, percebo pequenos detalhes quase subliminares que envolvem os aspectos históricos e morais do caminho da espada. Caminho esse determinado pela vivência através de princípios inabaláveis, onde a concessão não é, e jamais será, uma opção.

Na obra de Watsuki, um personagem secundário se destaca. O jovem Yahiko Miyoujin, órfão de uma família samurai, é resgatado de uma vida ao lado de mafiosos por Himura. Então, ele é encaminhado para o Dojo Kamiya, para aprender o Kamiya Kasshin Ryu, um estilo peculiar onde a morte do oponente é algo indesejável. O próprio autor confessa que o personagem Yahiko é um pequeno reflexo caricato seu. No colegial, foi praticante de Kendo e nunca obteve destaque, convocado somente uma vez para um campeonato, e ainda assim na condição de reserva. Portanto, desejava ser forte para mostrar aos outros e para sua auto-afirmação.

Com o passar do tempo, Yahiko treina Kenjutsu – que observo bem, é representado quase que exclusivamente como os treinos de Kendo. Muito suburi e golpes com bougu. Ele se torna cada vez mais forte e tem um inexorável desejo de também proteger as pessoas, influenciado pelo seu novo mentor (e às vezes, figura paternal) Himura.

O Kamiya Kasshin Ryu é representado durante todo o manga como sendo “a espada para a vida” (adaptação do termo Katsu Jin Ken), um estilo de fortes valores morais, onde o objetivo é conter o agressor, e não matá-lo. Em alguns momentos, é perceptível a transição do modelo de treino das técnicas com a espada como algo letal, para um forma que dê mais ênfase ao Do. E o conceito filosófico do estilo é decisivo neste raciocínio.

Kaoru Kamiya, mestra do Kamiya Kasshin Ryu. Demonstrando técnica com o tsuka para dominar o adversário, sem matar.

O estilo de luta de Kenshin Himura é o também fictício Hiten Mitsurugi Ryu, tido como antigo (criado durante o Sengoku Jidai) e lendário por narrativas que afirmam ser possível abater três inimigos com um só golpe! No decorrer de suas lutas, Kenshin demonstra várias de suas curiosas técnicas. E o nome Battousai é uma referência ao domínio do battou, o desembainhar da espada. Tais técnicas estão presentes a todo o momento na lutas.

Amakakeru Ryu no Hirameki – o Ougi do Hiten Mitsurugi

Aqui é interessante algumas observações: apesar do dinamismo da narrativa do manga, as técnicas de luta são de modo geral bastante fantasiosas e inaplicáveis. Pulos sobre-humanos, velocidades absurdas e os exageros típicos estão presentes nos diversos personagens que apresentam, na melhor das hipóteses, “poderes” e não “habilidades”. Para qualquer leitor mais maduro, fica difícil alguma identificação marcial com o que se mostra nos quadrinhos.

2 formas do Ryu Kan Sen e o Ryu Shou Sen

Mas então, porque tantos jovens se inspiram nesta obra e buscam academias de Kendo? Justamente o Kendo, que exige treinamento metódico e repetitivo, o que pode ser considerado maçante, cansativo e tedioso por pessoas que tinham outra expectativa? Talvez até algo mais. Existiria a busca das técnicas com a espada?

É difícil responder apropriadamente esse tipo de questionamento, sem generalizar negativamente as motivações da juventude. Por um lado, é importante considerar o próprio fascínio da espada japonesa enquanto arma, enquanto objeto de arte e instrumento de poder. O que por si só já justificaria bastante do apelo das artes dos samurais que a grande maioria dos praticantes busca. Por outro lado, o manga é construído ao redor das motivações morais de seu protagonista e da retidão de caráter que ele dispõe para seguir por esse caminho que se mostra tão árduo.

Em outra ocasião, numa discussão sobre motivações marciais e o que leva a pessoa a buscar a prática marcial, argumentei que a busca pela arte é a busca por valores morais que estão de certa forma, minguando em nosso dia-a-dia. Existe o apelo plástico das artes, existe o apelo pelo exótico em si. Mas o desenvolvimento do praticante se dá no plano mental e na construção ou manutenção de valores que são absolutamente desejáveis, porém, difíceis de serem praticados a sem determinação adequada. E essa determinação pode, e geralmente é desenvolvida através do treino correto e ostensivo das artes marciais – desde que é claro, o praticante esteja envolvido e comprometido com tal meta. Foco. Caráter.

Como no manga fica muito claro a disposição do personagem em viver sobre um voto de grande dificuldade moral para sua realidade – e ele paga o preço por sua escolha em muitas ocasiões – cristaliza-se a aura de nobreza ao redor do personagem e cria-se uma espécie de mitologia. Sem dúvida, acredito que este, e não o manuseio da espada em si, seja a real motivação para um jovem se interessar pelo caminho da espada, ao ler o manga de Samurai X. Inspiração.

Outros exemplos da ficção nos quadrinhos podem ser constatados, atraindo até mesmo o público adulto para o universo da espada japonesa: Vagabond (biografia fictícia de Musashi Miyamoto), Samurai Executor (a história de Asaemon Yamada III, exímio testador de espadas do Xogum Tokugawa) e o magnífico (e imbatível em minha opinião) Lobo Solitário (a dramática saga de Itto Ogami e seu filho Daigoro em busca de vingança contra o clã Yagyu).

É inegável que o mangá também serve como fonte de informações, principalmente no que diz respeito a terminologias. Nomes de técnicas, estilos famosos e jargões do meio da espada. Infelizmente, a falta de contato com a língua japonesa e a estereotipização do conhecimento leva as pessoas a um entendimento muito literal sobre o que significam os termos. Mas é um passo para algum nível de aprendizado, certamente.

Peço desculpas por usar basicamente imagens do anime. Não encontrei scans adequados do manga para ilustrar meus pontos de vista e observações.

E você, já leu ou assistiu Samurai X?

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…..O que achou da matéria? Sua opinião é importante para o crescimento deste trabalho. Caso tenha dúvidas ou queira conversar sobre o assunto, envie um e-mail para blog.espiritomarcial@gmail.com ou deixe seu comentário!

7 comentários sobre “Samurai X

  1. Já assisti e, de fato, é uma obra bastante inspiradora. Excelente artigo…

    Abs

  2. Gostei muito da matéria e ao meu ver vocês deveriam assistir o live action é um filme muito bonito, e bem produzido…

    • Olá Inanhan,

      Já assisti sim, gostei muito do visual do filme mas achei que foi “pouco”. Agora é a expectativa em torno dos próximos 2 que estão sendo produzidos, com a Saga de Kyoto e Makoto Shishio.

      Obrigado pelo comentário e pela visita!

  3. SIM *-*
    O filme “na minha opinião” ficou muito fiel ao manga, salvo em pequenos momentos para adaptação para o cinema, mal posso esperar pelos outros 2.
    Adoro seu blog, continue com postagens o/

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