Jutsu para Do

No intuito de discutir e questionar os aspectos estereotipados entre Técnica e Caminho, este texto procura redimensionar a proporção e a influência de cada parte na experiência da arte marcial japonesa.

Colocado no imaginário popular devido as diferenças entre o Judo e Jiu-Jitsu, ambos sofrem com rótulos irreais, e pela percepção tendenciosa dos praticantes de cada vertente em promover seu estilo como algo além do que ele possa ser.

As artes da espada, pelo menos ao que me consta, sofrem de alguma confusão neste sentido. Ao invés de classificar tais instâncias por período de tempo – o moderno e o clássico – seria mais produtivo apontar as características que as fazem reverberar em uma experiência unificada, não dicotomizada.

Koryu Kenjutsu

“A espada é uma arma. Seu uso é para matar pessoas”. Óbvia e sincera, esta frase resume a prática da espada durante centenas de anos, mesmo após o fim da guerra civil japonesa (século XVII) e a unificação do país. É sabido que durante a Era Tokugawa (1603-1868), o término de conflitos locais criou um cenário de paz onde o samurai não era mais o soldado, mas o burocrata. Na ausência de batalhas, a mentalidade mudou gradualmente. Textos consagrados da espada, como o Yagyu Heiho Kadensho (em torno de 1630) já mencionavam o conceito de Katsujinken, o uso das habilidades do kenjutsu como forma de tentar preservar a vida, de modo bastante aberto.

O próprio termo ken-jutsu é bem genérico, representando o manuseio e movimentos com espadas: estratégias e técnicas especiais secretas sempre enfeitaram o folclore das escolas, e muitas delas ainda existem no Japão. Dentro das artes da espada, tudo o que refere ao manuseio direto do instrumento pode ser entendido como jutsu.

Em uma interpretação mais livre, é possível dizer que o jutsu está envolvido com a estratégia de vencer. Qual o procedimento que levará a solução do conflito. Seria como se, ao atacar um castelo, tentar invadi-lo derrubando o portão de madeira. Agir de forma lógica, visando as primariamente fraquezas do inimigo e maximizando nossos pontos fortes.

O famoso Noma Dojo, demolido em 2007.

O famoso Noma Dojo, demolido em 2007.

O Do começa a se manifestar ao inverter o conceito: atacar somente os pontos fortes do adversário, se negando ao caminho mais fácil, justamente para melhorar aquilo em que se é fraco e deficiente. Tentar invadir um castelo atacando as paredes de pedra, fortalecendo seu ataque insistentemente até derrubá-las. E isso parece contraproducente em um momento tão decisivo como uma batalha. Mas é só uma analogia ao trabalho árduo necessário para se construir o conceito de Do, através da repetição do jutsu.

E é exatamente isso que reconfigurou as artes japonesas para seu formato que conhecemos hoje. Como não se aplicava mais o uso de armamento arcaico em combate moderno (fim do século XIX), seu estudo estava atrelado mais à tradições e logo serviu como ferramenta de doutrinação nacional. Mas mesmo com esse uso político, as artes marciais ofereciam certos benefícios internos aos seus praticantes, como disciplina, formalidade e até certa retidão de caráter. Com o término da Segunda Guerra, houve uma reinvenção de certos conceitos, e a prática do Budo se estabeleceu como sinônimo de artes marciais japonesas.

Durante um treino de Kendo, talvez não seja exagero afirmar que quase todas as rotinas práticas dentro do dojo são Jutsu. No caso dos exercícios, movimentos e técnicas. A estratégia por trás do golpe, a visualização da falha adversária. O ataque definitivo, insistentemente treinado.

Kata em Dojo

O Do transparece quando percebemos para que serve tudo isso. Em parte, pelo sentimento de agradecimento a um mestre que nos ensina certo tipo de conhecimento, e pela força com que nos agarramos a isso; a perseverança de refinar suas habilidades de modo austero, e tentar alcançar a habilidade dos colegas mais avançados. Dar valor ao esforço sincero que vai trazer essa força. Não aceitar atalhos em seu caminho e atacar até o último fôlego. Todo um discurso motivacional que, sem o suor no rosto se torna apenas palavras bonitas. Tratar o semelhante como um parceiro na busca de algo maior, nunca como incômodo, seja ele senpai ou kohai. E ao final, avaliar o impacto disso tudo fora do ambiente de treino.

Por isso é comum entender que, sem “praticar” o jutsu, não vai encontrar o Do. E não existe trilhar o Do sem insistir o jutsu, algo impensável nos discursos bairristas daqueles que querem exaltar somente um dos lados. Somente o amálgama dos conceitos leva a visão completa da experiência marcial moderna, de fato trabalhando corpo e mente do praticante. Esse conjunto é o que pode ser chamado de KenDO.

Portanto, ao iniciar o treinamento, não é interessante nos apegarmos a discursos filosóficos prontos. Deixe-os apenas interiorizados para treinar com voracidade. Absorver, aprender e se cansar, até a última gota de suor. Sentir a missão cumprida após o treino e orgulhar-se de mais um treino em que valeu a pena superar pequenos limites.

Em seguida, tentar não deixar essa experiência apenas na academia. Melhorar a educação, a percepção e colaboração, tudo reavaliado pela necessidade de se harmonizar com colegas de treino e eventuais adversários: percebe-se com mais profundidade e empatia o papel do instrutor, do veterano, do rival, do novato e, com o mesmo entusiasmo, refletir sobre pais, filhos, amigos, colegas de trabalho e mesmo desconhecidos.

E é espantoso ver que tudo isso transcendeu a partir da necessidade de guerrear e matar, hoje porque não dizer “esportificada” de certa forma em uma prática lúdica motivacional. Nesse sentido, é absurdamente inútil discutir Kendo ou “kenjutsu”. Nenhum dos dois é usado para guerrear. Mas podem ser usados para lutar contra um adversário mesquinho e egocêntrico que pode existir dentro de cada um de nós.

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N.P.P.:

O documentário da Empty Minds mostra diversas cenas que NÃO são do treinamento de Kendo atual, em especial as técnicas de projeção e imobilização similares a Jiu-Jitsu. Ainda assim, se mostra interessante e diverso tanto na parte técnica quando na ‘espiritual’.

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Postado em 12 de Agosto de 2015.

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