Kendo Kata: conceitos #03

É difícil encontrar um argumento convincente que delimite com precisão a diferença entre esporte e Budo. Mesmo nas artes marciais, se o praticante tiver por objetivos vencer uma luta, podemos dizer que não há diferença significativa para o esporte.

Ainda que existam correntes de pensamento que direcionem o Budo como ênfase ‘interna’ do aperfeiçoamento pessoal, e o esporte como ‘externo’ (que vise aprimoramento de habilidades), ambos permitem vislumbrar visões de mundo construtivas na maturidade de suas carreiras. E o que mais se faz nas artes marciais é cultivar habilidades físicas que serão aplicadas, mesmo em simulação, em um contexto que objetiva a vitória.

Tendo isto em mente, o estudo os três primeiros kata do Kendo permitem uma aproximação do conceito idealizado do Budo. Em ippon-me e nihon-me, temos uma exibição mortal da perícia do espadachim, e segundo Nakayama Hakudo (mestre expoente que participou da elaboração do Dai Nippon Teikoku Kendo Kata), há três grandes componentes espirituais no Kendo Kata: Gi (retidão), Jin (compaixão/simpatia) e Yu (coragem/valor).

Treinar, testar, vencer. Sobreviver.

Treinar, testar, vencer. Sobreviver.

No 1º kata, existe a retidão de que ambos lutadores convictos assumem jodan, promovendo o teimoso embate de ‘correto contra correto’ e se sagrará vencedor aquele que demonstrar o desapego (sutemi-no-itto) e entendimento do shin-ki-ryoku-ichi (união da mente, espírito, força e técnica). Ao fim do embate, o zanshin do shidachi é penitente, mas impecável, por tomar a vida de uma pessoa que deverá, segundo crenças orientais, retornar em uma próxima encarnação com uma nova mentalidade. Essa sensação de pesar é a base da técnica usada em nihon-me.

Para o 2º kata, que se inicia em chuudan-no-kamae, é interessante saber que houve intenso debate sobre tal postura, antes de adotá-la oficialmente. O conceito de chuudan refere-se mais a um alinhamento por uma área central (como jodan sendo cima, e gedan sendo baixo) e ficou nebuloso quanto a seus detalhes, se apontava diretamente para o rosto, nariz, centro das sobrancelhas, garganta ou plexo solar. Atualmente a postura é percebida como sinônima de seigan, mas este apresenta detalhes complexos, em virtude do ideograma gan referir-se ao ‘olho’, mas também a ‘visão’ e seus componentes filosóficos de origem budista.

É justamente essa ‘visão’ que está atuando no nihon-me, pois se no primeiro houve um embate vigoroso que culminou na morte de uma pessoa, no segundo, a preferência pelo kote (antebraço) adversário denota a compaixão (jin) de não matar, mas eliminar a capacidade ofensiva do agressor, através de uma cármica resposta. É onde podemos perceber a transição do conceito de ‘jutsu’ para ‘do’.

Em termos técnicos, a golpe estudado no sanbon-me é o tsuki (estocada) mas de acordo com a movimentação do kata, ninguém é machucado. Ao assumirem a postura gedan, ambos se confrontam de maneira a testar as intenções, e ao reassumir a postura chuudan, uchidachi percebe a possibilidade de golpear e efetua uma estocada direcionada ao pulmão direito do shidachi.

Sanbon-me: gedan-no-kamae.

Sanbon-me: gedan-no-kamae.

Através da percepção de maai e oportunidade, o shidachi recua encobrindo a espada do atacante (irezuki) e retoma a linha central de ataque, surpreendendo o agressor e assim avança um passo contra-atacando também com uma estocada no plexo solar. Desta vez, é o agressor que se vê sem saída a não ser recuar, sendo que ao fazê-lo, shidachi avança mais um passo realizando uma segunda estocada, desta vez, ainda mais próxima. Acuado, resta ao uchidachi recuar para abrir espaço, mas shidachi entra em perseguição, mantendo a espada apontada para seu rosto, de maneira extremamente próxima. Agora, qualquer movimento do agressor inicial resultará em morte instantânea, pois este foi dominado de maneira audaciosa e elegante.

Em um breve momento de iluminação, a vida do uchidachi é poupada e este vislumbra uma espécie de ‘renascimento’, onde a força do adversário se provou suficiente para eliminá-lo a qualquer instante do combate, mas não o fez, escolhendo a virtude (yu) de nem mesmo tocar ou ferir para conter seu inimigo. Em tempos menos civilizados, seria logicamente justificável abater um agressor que visa sua vida mas a transição dos ideais do Budo se fortaleceram através das experiências de pessoas que viveram o inferno da guerra e do derramamento de sangue, e renegaram a possibilidade de matar novamente em prol da construção de ideais elevados, que mudariam o rumo das artes marciais japonesas.

Este kata ilustra a maturidade do praticante, que pode dominar seu ambiente através de iniciativas mais espirituais do que perícias físicas ousadas e exibicionistas.

É sabido que o conjunto dos três primeiros kata foi desenvolvido especialmente para transmitir esses conhecimentos, em especial pela conexão religiosa que se tem com as entidades divinas guerreiras, pois a própria espada é considerada uma herança dos deuses, e de seus ensinamentos de luta, que incluem as três posturas básicas: acima da cabeça, apontada para o inimigo ou com a ponta baixa, representando céu, homem e terra em simbolismos culturais específicos que não possuo conhecimento para detalhar adequadamente, mas que estão cristalizadas nas práticas físicas e esotéricas da espada japonesa.

Daí, o componente filosófico e educacional dos 3 primeiros kata possui simbolismos simples para absorção de praticantes jovens, um dos públicos-alvo da comissão que elaborou cuidadosamente a seleção de técnicas de diversas escolas, em um momento de expansão militarista e ultranacionalista da história japonesa.

Parte da doutrina da época.

Parte da doutrina da época.

Em última análise, o ippon-me representa o ápice das técnicas de matar (kenjutsu). Nihon-me já permeia a transição pata uma nova mentalidade e o sanbon-me, o verdadeiro caminho da espada e consolidação do ideal do Kendo.

 

Não deixe de conhecer também as matérias #Kendo Kata: conceitos 01 e #Kendo Kata: conceitos 02.

 

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Este texto é baseado em informações do livro Kendo Kata: Essence and Application, de Yoshihiko Inoue Sensei, 8º dan Hanshi.

 

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…..O que achou da matéria? Sua opinião é importante para o crescimento deste trabalho. Caso tenha dúvidas ou queira conversar sobre o assunto, envie um e-mail para: blog.espiritomarcial@gmail.com ou deixe seu comentário!

2 comentários sobre “Kendo Kata: conceitos #03

  1. A reflexão proposta é extremamente válida de maneira a garantir que ao executá-los, tenha-se o entendimento pleno das razões por trás de cada um dos movimentos.

    • olá Edmilson,

      Obrigado pela confiança, mas existem outros pontos dentro do kata que não estão listados nestas matérias. Não sou um conhecedor profundo e costumo dizer que só “risco a superfície” quando falo do assunto. Procure sempre pelos Senseis para tirar dúvidas, são eles o detentores do conhecimento. Também é interessante alguma leitura, recomendo o livro Kendo Kata: Essence and Application, de Yoshihiko Inoue Sensei (8º dan, falecido recentemente) para maiores detalhes. Novamente, agradeço a visita! :)

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