Satomi Hakkenden

Este filme é uma pérola do cinema japonês de ação. Pretensioso, reúne nomes como Sonny Chiba e um jovem Hiroyuki “Henry” Sanada em início de carreira numa aventura sobrenatural ao estilo do folclore nipônico, com produção caprichada e efeitos especiais interessantes.

Mas não se engane! Satomi Hakkenden (1983) pode ser considerado um filme “trash” digno da finada Sessão Kickboxer, ao lado de nomes como A Vingança do Ninja e O Último Dragão. Baseada em um livro de Takizawa Bakin (1767-1848), ambienta o espectador em uma guerra civil japonesa, no combate entre dois clãs rivais: os Hikita e os Satomi. Após a derrota dos Hikita, a esposa do senhor feudal e bruxa Tamazusa (Mari Natsuki) lança uma grande maldição sobre os rivais Satomi no momento de sua morte em um incêndio.

Após 100 anos, o clã Hikita é ressucitado pelas forças das trevas, e comandados pelo filho da bruxa Motofuji (Yuuki Meguro), destrói toda família Satomi, decapitando seus componentes, com exceção à princesa Shizu (Hiroko Yakushimaru), que é levada por um serviçal do castelo para longe dos excutores.

Em sua jornada em busca de aliados contra o sobrenatural inimigo, ela encontra Shinbei (Hiroyuki Sanada), um jovem camponês com ambições de se tornar general em batalha, mas que na verdade é apenas um vagabundo barulhento. Ele rapta a princesa em busca de recompensa mas logo é interceptado por duas figuras sombrias: um monge leproso chamado Dosetsu (Sonny Chiba) e um samurai pistoleiro chamado Daikaku (Minori Terada), na verdade protetores da princesa.

cristais dos 8 samuraisA trama só ganha forma após Dosetsu explicar a origem sobrenatural da vingança dos Hikita, e dos oito samurais escolhidos pelos cristais especiais que brotaram da morte da princesa Fuse e seu marido, o cão Yatsufusa (Hein?!). Cada um dos samurai possui uma esfera de cristal luminoso, representando uma das virtudes confucianas, símbolo de sua missão e dever de proteger a princesa. Somente os 8 samurai de Satomi podem destruir os antigos espíritos do mal!

Como toda jornada do herói, os escolhidos vão aparecendo em interessantes cenas e se juntando à causa por motivação ou obrigação, com reviravoltas de roteiro em que o herói se torna o bandido e renasce como escolhido. A batalha final é dramática e capricha nos efeitos práticos para época, com breves referências a Star Wars e Indiana Jones (e alguns momentos, parece Chapolin).

8_samurais

Os 8 samurai reunidos.

Um dos pontos mais altos deste filme é sem dúvida a trilha sonora, bastante empolgante para o gênero e marcou época com os hits White Light (tema principal) e I Don´t Want This Night End, a música romântica da princesa, cantadas por John O´Banion. Mesmo assim, a constrangedora cena de amor dos protagonistas não deixa de ser altamente vergonhosa, com beijos contidos e forçados, tentando (e não conseguindo) ousar para os padrões japoneses da época.

Hakken (八犬) significa literalmente “oito cães”. É referência à lenda da princesa Fuse, narrada por Dosetsu em uma cena poética, desenrolando um longo pergaminho pintado e contando a história da batalha dos clãs, onde o senhor feudal de Satomi à beira da derrota promete a mão da filha em casamento para quem trouxesse a cabeça de seu inimigo, e quem o faz é o cachorro chamado Yatsufusa! Transtornado, honra sua palavra para depois voltar atrás e caçar o animal (isso é baseado em uma lenda chinesa). Ao encontrá-lo, manda suas tropas atirar, matando também a princesa (aparentemente grávida) que o defende com o próprio corpo. Neste momento, surgem de suas feridas os oito cristais, profetizando o legado dos oito samurai dali a cem anos.

Princesa Fuse e os 8 cristais

Cada um dos oito samurai possui o kanji de inu (cão) como parte de seu nome, simbolizando que são “crias” da princesa Fuse, defendendo a então princesa Shizu com uma devoção quase filial. Eles também são chamados Hakkenshi (八剣士), um trocadilho com a ideia de cão e espadachins.

O livro original é uma das obras literárias mais longas do Japão e possui diversas releituras para cinema, teatro e televisão, incluindo animações e novelas. No entanto, o filme de 1983 é altamente divergente e adaptado da obra original. Cada personagem possui uma jornada e histórias próprias (nem todos são samurai, mesmo neste filme); a personagem Hamaji seria a princesa Satomi no original, e o nascimento dos oito samurai se dá pouco tempo após a morte de Fuse, sem a maldição dos cem anos.

O DVD existe no Brasil, mas conta com uma porca dublagem em inglês no lugar do áudio original, onde trocaram o termo samurai por “8 ninjas”. Desprezível e execrável, evite ao máximo esta versão.

a-lenda-dos-oito-samurais-dvd1

Musashi, você é um dos 8 samurai?

Stan Sakai, autor do célebre quadrinho Usagi Yojimbo é fã incondicional deste filme.

Magia pura para crianças de 8 anos na década de 80 :)

_____________

O que achou da matéria? Sua opinião é importante para o crescimento deste trabalho. Caso tenha dúvidas ou queira conversar sobre o assunto, envie um e-mail para: blog.espiritomarcial@gmail.com

Postado em 20 de Novembro de 2015.

2 comentários sobre “Satomi Hakkenden

  1. Desprezível e execrável … na mesma frase… é por isso que gosto deste site ;)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s