Kihon

…..Uma das características mais interessantes da prática de artes marciais é a mudança da percepção que temos em relação às situações que nos cercam. A visão estereotipada de uma pessoa leiga, em qualquer área, claro, é limitada por expectativas e pouco contato com ensinamentos de base. E em contrapartida, existe uma ansiedade, um imediatismo em dominar conteúdos e possuir um desempenho excepcional, mesmo nas primeiras tentativas de se executar uma atividade. Como então proceder?

…..Em primeiro lugar, gostaria de dizer que sou um mero aprendiz. Não me julgo no direito de emitir “regras” de comportamento ou treinamento. No máximo, coloco a disposição um ponto de vista que deve ser observado com certo ceticismo e posto à prova. Além do mais, a forma de uma pessoa pensar não é necessariamente um modelo válido para outra. Porém, existe, de um modo geral, consenso que métodos e procedimentos padronizados devem ser seguidos a risca, sob alegação de estar conduzindo o treinamento de forma “correta”.

O que é “correto”?

…..Correto, antes de tudo, é simplesmente aquilo que é “certo”. Porém, esse argumento é inconvenientemente flexível, permitindo abordagens diversas do conceito, que podem atrasar ou desviar o aluno do caminho ideal para a conquista de seus objetivos nas artes marciais. Um exercício feito com tal postura corporal ou atitude mental pode ter efeitos diferentes em termos de aplicação prática (entendo-se “luta”), pois aspectos muito específicos são treinados quando tais técnicas (ou exercícios) são realizadas.

No Kendo, a base é tudo.

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…..Em todos os momentos, a figura do Sensei é o guia para o progresso do aluno. Questionar eficácias de certos treinamentos ou simplesmente adaptar o exercício ao “seu jeito” é um curto caminho para o desastre. Por quê? Primeiro porque artes centenárias chegaram até os dias de hoje sem sua magnífica sabedoria marcial de faixa branca e sua extensa experiência em matar inimigos em campos de batalha. Sim, estou sendo irônico porque nem sempre as pessoas possuem a abertura necessária aos ensinamentos de forma mais “pura”, sem fazer análises pessoais desnecessárias dos conteúdos treinados (o copo precisa estar vazio, veja o vídeo). Por outro lado, existe uma pequena preocupação de estar treinando apenas “como ser obediente ao Sensei”, ao invés de “se impor” para atingir seus objetivos. Estas etapas iniciais do aprendizado devem seguir o significado dos termos SHU – HA – RI ( 守 – 破 – 離 ): primeiro absorver sem questionar, com absoluto interesse, emulando o mais perfeitamente possível a técnica do Sensei, do modo como ele ensina e da forma como ele aplica. Somente com a maturidade, o aluno naturalmente percebe as implicações, aprendendo e compreendendo finalmente a essência daquilo que lhe foi passado, ao invés de apenas realizar repetições “robotizadas”, sem reflexão. Esteja atento que este “nível” só é atingido depois de muitos anos de prática. Infelizmente, temos no “mercado” um sem número de “profissionais” do ramo, nem todos gabaritados técnica ou moralmente para transmitir ensinamentos, que jamais compreenderam a etapa HA. Por fim, temos a etapa RI, a última, onde o estudante realmente se torna o mestre, com bagagem suficiente para moldar treinamentos e técnicas de acordo com seu conhecimento e experiência.

Primeiro, esvaziar o seu copo.

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…..Pergunto se o shu-ha-ri é desejável, seja para você ou aquele que te instrui? Somente se você achar que sim.

…..Novamente, o treino “correto” depende muito mais de uma postura mental do que outro fator. É notório que muitas pessoas, no início de suas carreiras marciais não sabem exatamente como se comportar ao realizar os exercícios, desde um mero aquecimento até executar técnicas de luta. Então, o primeiro passo da primeira etapa (SHU) é saber treinar seriamente, desde o aquecimento, se concentrando na respiração, na movimentação muscular, nos alongamentos, sentindo e percebendo como tudo isso age no seu corpo. Não simplesmente ficar fazendo movimentos de qualquer forma só para chegar logo o momento legal do treino, a hora de “bater”.

…..No Kendo, o chamado Kihon (基本) é determinante no desenvolvimento da qualidade técnica do aluno, pois é a base e o molde não somente de sua habilidade, mas de todo o seu processo de aprendizado. No mundo corporativo, os treinamentos profissionais visam habilitar um trabalhador o mais rápido possível para que este exerça sua função no mercado, tornado-se produtivo. Nas artes marciais não existe essa pressa mas ela infelizmente persiste em rondar a mentalidade do aluno, principalmente nos primeiros anos de prática.

…..O conceito japonês de Kihon aborda formatos de treinamentos orientados para maximizar o desempenho do praticante no momento da luta. Porém, existem muitos críticos do conceito, por sua linguagem física diferir com relativa significância dos movimentos aplicados em combate real. Em suma, no Kihon os movimentos são mais amplos, as distâncias de aplicação maiores, a velocidade de execução talvez seja menor, diferente de quando a luta é “para valer”. Algumas alegações chegam a rotular de “vício” a movimentações do Kihon, alegando que sua aplicação é impraticável. O próprio Bruce Lee era crítico de certos formatos de kihon: no Karate, é comum o treino do soco projetando um punho que desfere o golpe e o outro é recolhido junto às costelas no tronco, em movimento simultâneo. Alegava ineficiência do formato, que treinado extensivamente, condicionaria o praticante a um “vício postural” que abre brechas para contra-ataque (afinal, o rosto fica exposto e sem defesa neste caso).

…..O que os críticos nem sempre percebem é que o treinamento do kihon é um formato idealizado da técnica em sua potencialidade máxima e assim acostuma o corpo a se movimentar. Eu costumo repetir uma história bastante didática que meu mestre de Taekwondo ensinou para ilustrar esse conceito: imagine um halterofilista que sempre treina usando 100 quilos de peso. Pense neste atleta em uma competição na qual precise erguer pelo menos 90 quilos para ser aprovado. Como ele está condicionado em seu treino diário com mais dificuldade, ele não terá problemas para erguer menos peso. Então imagine aqueles que treinam somente com 50, 60 quilos. Estes terão dificuldade em atingir a cota mínima, não?

…..Claro que esta comparação tem limites e não se aplica a todos os casos. Mas essencialmente, já percebi que no Kendo, algumas pessoas têm preferência por golpes curtos, mais adequados a faceta competitiva da arte e acreditam que técnicas como esta devem ser refinadas para melhorar seu desempenho. Não há erro estratégico neste sentido. Mas há aqui o perigoso “desvio” dos verdadeiros propósitos de uma arte como o Kendo, que cabe ao Sensei ilustrar. Isso quer dizer que no Kendo não existe “objetivo de eficiência” enquanto arte de combate, já que não se trata de defesa pessoal e ninguém em sã consciência anda armado com uma espada real. O objetivo (um dos) do Kendo é mostrar um caminho em que somente através do verdadeiro esforço e dedicação o praticante desenvolverá uma força “correta”, sem manhas, truques ou jeitinhos. Por isso, não importa treinar um golpe “mais eficiente” que não seja aquele vindo do kihon, pois o vencedor será aquele que treinar de forma mais idealizada. Bastante paradoxal, não? O que não quer dizer que não existam treinamentos próprios para o shiai, o combate.

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…..Além de essencial, Kihon é o básico, quem o treina demonstra compromisso com a humildade de rever constantemente algo que talvez nunca domine. O verdadeiro kihon mostra que não há atalhos para se conquistar a força e que a mentalidade “correta” é a trajetória para atingir este objetivo. Que é, basicamente, ser melhor. Pelo menos, mais fazendo do que falando. Ou escrevendo.

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…..O que achou da matéria? Sua opinião é importante para o crescimento deste trabalho. Caso tenha dúvidas ou queira conversar sobre o assunto, envie um e-mail para blog.espiritomarcial@gmail.com ou deixe seu comentário!

4 comentários sobre “Kihon

  1. Excelente texto. Está melhorandodo cada vez mais, tanto no conteúdo quanto na forma de escrever que está mais fluida e eficaz.

    O treino de kihon é, senão me engano, um dos 3 pilares do kendo (junto com Kata e Shiai). E todo treino de kihon, para mim, é um treino de Budo e não somente Kendo, pois estou ali para fazer algo DAQUELE JEITO e não de QUALQUER JEITO.

    Faltou apenas fazer um pequeno comentário sobre aquele documentário do Eiga, que quando ele perdeu para Miyazaki e viu que estava fugindo dos propositos corretos do kendo, voltou para o básico. Para o treino de kihon.

    Até mais.
    HUR.

  2. Olá Carlos,

    Obrigado pelo comentário. Sim, exemplos não nos faltam de pessoas que treinam corretamente, são privilegiados no sentido de saber como treinar para melhorar suas deficiências.

    Eiga é de fato sensacional, um cara como ele que resolveu se treinar desde o básico do básico, que chegava 1 hora mais cedo só pra limpar o chão do Dojo e refletir, tudo do zero. É a essência da persistência, da perseverança e do Budo.

    Até mais!

  3. Não há dúvidas da importância aqui deste tema. Treinei Karatê por anos e agora, mesmo após quase 20 anos, ainda tenho alguns movimentos que podem ser feitos “automaticamente”.

    Velocidade e precisão só pode ser atingida depois de muitos e muitos anos treinando a base com absoluta dedicação!

    • Olá Alexandre,

      Exatamente, o Kihon também funciona como um condicionamento para a mente reagir instintivamente quando preciso, mas de forma correta (no contexto) e com elegância.

      Obrigado pela visita!

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