O Kendo não é

…..Antes de qualquer coisa, gostaria de dizer que uma pessoa com graduação mínima não deveria ter a pretensão de dizer o que uma arte complexa em suas definições e com tal nível de enraizamento histórico deveria ser ou não. Pois interpretações históricas, definições e afins são todas pertinentes a uma observação científica, semântica e subjetiva, que em algum momento se consolida sob a palavra de um grupo ou entidade que define o perímetro de sua extensão.  E não cabe a uma única pessoa fazer afirmações.

…..Mas a busca por uma definição exata do Kendo acaba por se tornar uma discussão cansativa entre os muitos parâmetros e facetas assumidas por todo tipo de Budo (as artes marciais japonesas) e as interpretações pessoais daqueles que tem pouco ou nenhum contato com a arte acabam por modelar um estereótipo de praticante que está além de uma realidade mais simples. E por esta razão, esta matéria tem por objetivo ilustrar o que o Kendo não é, em relação a seu praticante.

…..Desta forma, o misticismo e esoterismo oriental ganham contornos na figura imponente e inexorável do Samurai, o temível guerreiro feudal japonês, cuja imagem de nobreza e cultura contrasta com a do lutador frio e letal, amparado por um código de ética absoluto e princípios religiosos profundos.

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Kendo não é Samurai. Embora seu espírito esteja presente.

…..O primeiro ponto é uma unanimidade entre os praticantes sérios. É preciso desvincular o conceito de kendoka (o praticante) de Samurai (bushi). Quem pratica Kendo não pode ser visto como uma versão atual do Samurai. Embora o uso de equipamentos tradicionais e treinar sob métodos seculares criem um comparativo bastante direto, a ênfase do treinamento é muito diferente. Ser Samurai significava pertencer a uma classe social distinta, por herança de família, ao mesmo tempo em que é um servidor de um senhor feudal. Mesmos seus descendentes hoje não podem ser considerados como Samurai, uma vez que a classe foi extinta e sua função extirpada da sociedade japonesa moderna.  Os Samurai treinavam técnicas letais, com total intenção de aplicá-las, quando necessário, pois era um risco constante de sua função e ser habilidoso em qualquer profissão é minimamente essencial.  Claro que não é apenas isso que define o Samurai, mas deixemos o ponto em questão.

Vida e profissão guerreira

…..O kendoka (ou kenshi, como é mais comumente usado no Brasil) luta contra suas deficiências gerais, através das técnicas da espada, auxiliado por um parceiro que possui o mesmo objetivo e nenhum deles deseja matar o adversário, em um contexto de intenção real, apesar das técnicas do Kendo serem descendentes daquelas treinadas pelos Samurai e possuem eficácia comprovada nas centenas de anos de lutas e batalhas.

…..Se existe algo que conecta o kenshi ao bushi, está no estudo dessas técnicas e sua influência na visão de mundo daqueles que vivenciam e aplicam os conceitos de forma ampla em sua vida. Ambos estão comprometidos no caminho do desenvolvimento interno, na busca pelo aperfeiçoamento constante de sua habilidade e isto é inevitavelmente transportado para o modo de ser da pessoa, pela simples percepção de que existem duas formas de se fazer algo: o jeito certo e o jeito errado. Um deles deixará um legado positivo.

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Kendo não é defesa pessoal. Embora se tiver um pedaço de pau, possa ser.

…..Existe uma tendência em considerar as práticas marciais atuais de acordo com a relevância de sua aplicação em parâmetros de defesa pessoal. Em meados dos anos 70, o Kung-fu era uma febre internacional. Depois, vieram fases em que a ênfase alternava entre artes coreanas como Taekwondo, Hapkido e japonesas como Karate e Judo. Nos anos 90, o Jiu-Jitsu e o Vale-tudo se consolidaram e juntamente com Muay Thai, Boxe e outros estilos de luta de contato hoje temos o firmamento do MMA, o Mixed Martial Arts, que goza de grande prestígio e preferência pela nova geração de adeptos das artes marciais.

…..A defesa pessoal privilegia ações eficientes que são treinadas de modo sistematizado para uma aplicação direta e imediata, tal qual uma situação real. Pensando dessa maneira, qual o sentido de treinar uma arte que se utiliza de um instrumento ultrapassado, de porte pouco conveniente e proibido?

…..Esta é uma pergunta imediatista. É verdade que um dos grandes apelos centrais para se praticar alguma arte marcial está no fato de aprender a se defender. Mas considero este conceito vago e infelizmente, alienado pela fantasia mostrada em filmes. O que é a verdadeira defesa pessoal? Certamente, é possível reagir a uma eventual agressão física ou assalto mas a forma como isto é feito precisa ser levada em conta no momento de equilibrar as vantagens e prejuízos da ação. É preferível evitar o conflito, pois caso você saia “vencedor” de uma briga, tenha a certeza de que quem apanhou não vai esquecer e muito provavelmente vai querer se vingar. E se ele tem a certeza de que apanha de você, virá armado ou em bando. Neste momento, considere: será que valeu a pena brigar? E com quem estou me metendo?

…..Outro ponto é a possibilidade de ser processado judicialmente. Os praticantes de artes marciais podem ter um agravante de acusação por conhecerem meios eficazes de causar ferimentos. É tênue a linha que separa defesa pessoal da agressão justificada. É muito fácil extrapolar, perder os limites e reagir de forma desproporcional. Imagine uma situação assim armado de uma espada ou pedaço de madeira equivalente.

…..Mesmo porque ninguém em sã consciência porta uma espada na cintura, seja ela de metal ou de madeira. Se for o caso, elas são transportadas no porta-malas do carro e em cases especiais fechados que impedem seu uso imediato. Além disso, um dos diferenciais do kenshi é uma conduta madura e ponderada, que permite antecipar situações que gerem conflito e assim evitá-las ou neutralizá-las antes de se manifestarem. Este sim é o verdadeiro princípio da defesa pessoal, em minha humilde opinião.

Exibição coreana de aplicação do Kumdo em defesa pessoal.

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Kendo não é esporte. Embora exista uma face esportiva.

…..Este é um ponto de muitas discussões entre os praticantes da modalidade. Aos olhos daqueles que só conhecem o Kendo pelas competições, existe a impressão de que o treinamento é unicamente voltado para o esporte. Tudo o que é realizado em academia visa aperfeiçoar as habilidades do praticante para que sejam aplicadas em campeonatos. Mas isto é uma visão míope do verdadeiro significado do treinamento.

…..Embora hajam seleções nacionais e campeonatos, a prática do Kendo é pouco voltada para o aprimoramento esportivo como conhecemos, do ponto de vista da educação física e dos demais esportes. Todo e qualquer treinamento de Kendo visa unicamente fazer com que o praticante faça reflexões pessoais sobre sua capacidade de aprender, replicar um modelo e desenvolver o instinto de “fazer certo” dentro daquele contexto. Desta forma, está condicionando sua percepção gradualmente a ansiar pela utopia, de que tudo pode ser feito de um modo melhor e mais aprimorado.

Campeonato Australiano.

…..Assim sendo, fica evidente que o conceito de vitória e derrota vão além da presença de esportistas que são rivais. O mérito do Kendo não está em derrotar um oponente nem marcar pontos mas sim eliminar suas próprias deficiências e maximizar seus pontos positivos, de forma a superar as habilidades de seu adversário, que é visto como um personagem coadjuvante que te auxilia neste desenvolvimento, quando ele perde para você ou mesmo quando ganha de você, iluminando pontos obscuros de suas falhas enquanto lutador. Por isso, é dito que todo golpe carrega agradecimento pela lição e nunca se comemora um ponto em respeito daquele que te ajudou a crescer mais um pouco naquele momento. Isto está muito além da esfera esportiva, onde o mero resultado é mais importante que este processo. Para os kenshi, um campeonato é apenas uma oportunidade de participar deste tipo de situação.

…..Daí vem o costume de alguns praticantes se sentirem ofendidos quando afirmam que o Kendo é “apenas” um esporte. Isso sem considerar todo o panorama histórico envolvido neste que foi parte dos métodos de treinamento dos Samurai. O treinamento em Kendo envolve exercícios tradicionais que, cada um por si, evocam a necessidade de aplicar suas técnicas como se fossem situações reais de vida e morte. Caso contrário, não é um treinamento real, apenas uma brincadeira de “samurai”.

…..Os campeonatos são realizados principalmente com o intuito de reunir os grupos de praticantes e dar a oportunidade deste crescimento a eles, contribuindo com a melhoria técnica e espiritual de todos. É um grande evento social, pois a troca de experiências favorece laços de amizade e respeito entre os competidores, colegas de equipe e instrutores. Um mestre sempre dizia que a única semelhança entre o Kendo e um esporte é a presença de regras no momento da luta competitiva.

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Kendo não é hobby. Embora você possa pensar desta maneira.

…..Acredito que pela forma como o Kendo é colocado neste blog, é possível perceber que se trata de um universo que agrega muito na vida daqueles que tem real interesse. Em alguns momentos, soa como uma seita ou religião de convertidos a uma nova fé, a “fé da espada” mas é um tanto exagerada essa comparação. Ao abrir sua mente para uma série de novas possibilidades, talvez você se identifique com alguns fatores e isso influencie seu modo de ser. Em doses certas, isso é positivo e edificante.

…..Porém é preciso dar a atenção correta para esse tipo de empreendimento. Muita empolgação atrapalha no começo. Pouca empolgação atrapalha em todo o aprendizado. É preciso entender que o treinamento é uma rotina que jamais é uma rotina: por mais que haja repetição, o último golpe precisa ser completamente superior ao primeiro, já que teve a oportunidade de treiná-lo diversas vezes até chegar ao final. Ao final de cada exercício, os “degraus” de sua habilidade devem ter sido subidos. Caso contrário, será um desperdício de tempo e esforço.

Valores que vão além da competição. Cortesia Oroshi blog.

…..O principal ponto desta matéria é fazer entender um pouco do pensamento geral do praticante, mas sem ofender ou tirar a liberdade que uma pessoa interessada possa ter em interpretar aquilo que vê, seja em um evento ou em um treino de academia.

…..Como em qualquer área pouco divulgada, o Kendo sofre avaliações de pseudo-especialistas ou ex-praticantes que tentaram por poucos meses se adaptar e logo desistiram, emitindo opiniões formadas sobre algo que não vivenciaram de fato (sem falar dos falastrões em blogs pela internet… este incluso). Então Kendo não é samurai? Sim, eles ainda estão lá. É defesa pessoal? Em outros tempos, talvez mas em sua essência, sim. É esporte?  É, luta-se, ganha-se, perde-se mas sempre se é recompensado.

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…..O que achou da matéria? Sua opinião é importante para o crescimento deste trabalho. Caso tenha dúvidas ou queira conversar sobre o assunto, envie um e-mail para blog.espiritomarcial@gmail.com ou deixe seu comentário!

2 comentários sobre “O Kendo não é

    • Obrigado, Renato. Na verdade, fiquei muito receoso em escrever este texto, pois há muita contradição e falta de foco (parece que não te leva a lugar algum). Além do mais, quem sou eu pra querer falar o que o Kendo é ou não é? Por isso, me limitei a alguns aspectos mais estereotipados, digamos. Mas mesmo assim, expressa uma opinião e acredito que consegui me fazer entender apesar desses defeitos…

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