Porque Eu Treino Kendo

Algumas pessoas já me perguntaram isso durante a minha vida. Algumas do meio do Kendo e outras de fora. Acho uma pergunta bem normal e até pertinente! Ora, para quem é de fora é no mínimo peculiar que alguém tenha interesse em “lutar com um pedaço de madeira”, ao invés de escolher alguma arte marcial que possa ser usada para defesa pessoal, ou que tenha alguma aplicação mais “prática”. Entendo esses questionamentos e nunca me esforcei muito em explicar, me limitando a dizer que “gosto de lutar com espada” e que “não ligo para defesa pessoal”, como todo o devido respeito às artes marciais que envolvem defesa pessoal ou qualquer coisa do gênero. Apenas não é de meu interesse.

A resposta, no entanto, fica deveras mais complexa quando questionada por gente do meio do Kendo, ou quando eu mesmo fazia esta pergunta, encarando o espelho, com um misto de frustração e aceitação. A verdade é que treinar Kendo no Brasil não é fácil, principalmente para quem mora nas regiões mais afastadas do “centro” do Kendo, que é São Paulo. Não posso me alongar sobre as outras regiões (Sul, Centro-Oeste), pois não sei da realidade de lá, apesar de saber que também passam por problemas similares, mas, como meu contato com o Kendo se deu nos primeiros anos do seu desenvolvimento no Norte e Nordeste, tenho base para falar.

Seminário em Maceió. 2005.

Primeiro seminário de Kendo em Maceió (2005). Sou o de branco à esquerda.

Não podia começar sem agradecer aos senseis que primeiro trouxeram e abraçaram o projeto de Kendo NoNe e terem sido os primeiros a incentivar o desenvolvimento da arte aqui por cima. Sem eles, não teríamos a base para treinar e tentar desenvolver o Kendo, mesmo que inicialmente aos trancos e barrancos.

Como muitos de fora de São Paulo, eu comecei a treinar numa instituição de espada japonesa diferente da CBK, as pessoas do meio sabem bem a que me refiro, e quem não conhece, basta pesquisar, é a única outra que existe. Eu tinha 14 anos e gostava muito de “samurais”, “anime”, “Samurai X” e “Jiraiya”, então arrumar algo onde eu pudesse treinar com espadas japonesas já era algo sensacional, mas passei apenas um ano vinculado. Depois disso, o pessoal que treinava em Maceió conheceu a Confederação Brasileira de Kendo e viu que estávamos num caminho diferente do que gostaríamos, então, em 2005, fomos para o Kendo. O primeiro problema que encontramos ao treinar por aqui é a falta de orientação técnica. E esse é um problema bem grande!

O primeiro campeonato em 2006.

Kendo é difícil, tem um milhão de detalhes e, por mais que aparentemente tenha poucos golpes, o grau de complexidade de cada movimento é enorme e mesmo pessoas que treinam por 50 anos ou mais ainda tem muito que melhorar. Agora… imagine o que é tentar melhorar sem alguém pra te supervisionar no treino do dia a dia? Pois é… a nossa realidade, na época, era a seguinte: tínhamos um evento uma ou duas vezes por ano, aonde os senseis vinham para alguma cidade do nordeste para um seminário de 3 dias. Depois a missão era aproveitar o que aprendemos nesses 3 dias e replicar durante um ano! Claro que não dava completamente certo! Claro que isso causava alguns problemas! Eu mesmo tenho dois tendões das pernas (um de cada) machucados por treino errado, mas o único responsável por isso sou eu mesmo, que exagerava na quantidade de treino, mesmo sabendo que não estava completamente certo (apesar de que também não sabia dizer o que estava necessariamente errado!).

Muitos… (muitos MESMO!) desistiram no meio do caminho. Não posso culpá-los! É muito difícil continuar. Ninguém daqui faz ideia do que é Kendo. Conseguir lugar para treinar é uma LUTA! Ter gente treinando é outra, conseguir equipamento nem se fala! E não ter sensei abala completamente a credibilidade da pessoa que está dando o sangue para tentar fazer a coisa acontecer na sua cidade ou estado.

Várias vezes me vi com vontade de parar! E por algum tempo parei mesmo. Ficava só treinando 1 ou 2 vezes por mês na casa do Ranilson Paiva, mas esse era basicamente o meu contado com isso. Tinha me conformado que por morar em Maceió, não ia rolar pensar em ter um Kendo de qualidade por aqui, já que não tinha sensei e ter contato uma vez por ano não era suficiente. Mas aí eu morei em Nova Iorque por um ano e, apesar da minha rotina complicada, eu tive a oportunidade de assistir a apenas um treino com Shozo Kato sensei e eu fiquei impressionado! Isso reacendeu uma chama em mim e, assim que voltei, em 2009, eu falei com uns amigos que treinavam e outros que tinham interesse e, juntos, decidimos que tentaríamos o que parecia um trabalho de Sísifo: treinar um Kendo com a maior qualidade possível em Maceió.

Para isso, precisaríamos de contato com a fonte e esperar seminários regionais não nos serviria. Por conta disso, passei a buscar o contato com São Paulo, onde poderia treinar com os senseis mais graduados do país. Minha primeira ida pra São Paulo foi em julho de 2010 e foi lá que tirei meu 1º Kyu em Kendo.

Pela 1ª vez em São Paulo (2010).

Pela 1ª vez em São Paulo (2010). Seminário para exame.

Nessa primeira viagem eu me senti realmente ruim! Eu não sabia reiho, fazia tudo errado, estava cheio de vícios… enfim! Tinha que reformar quase tudo! Mas isso só me motivou e me fez acreditar que era possível. Treinei por duas semanas e fiz meu exame, voltei com uma bagagem boa e comecei a contribuir com o grupo e daí em diante conseguiu ir desenvolvendo o Kendo do nosso grupo de uma forma mais direcionada.

Olha… ir para São Paulo é o caminho para treinar Kendo direito. Não tem como fugir! Hoje o nordeste está melhor, verdade! Temos 4º dans (2 em Recife e 1 em João Pessoa) e 3º dans (2 em Recife, 01 em João Pessoa, eu e Ranilson aqui em Maceió) e isso já ajuda bastante. Mas isso não substitui – nem de longe – o aprendizado que podemos ter com um sensei 5º, 6º e 7º dan! A diferença é absurda!

Verdade seja dita… é difícil ir pra São Paulo todo ano. Todo mundo tem sua vida, seu trabalho, sua família. É um grande investimento financeiro e pessoal, mas eu tomei para mim essa responsabilidade, primeiramente pelo meu grupo e hoje, também, pela minha região, mas vou explicar melhor abaixo. O pessoal de São Paulo sempre foi muito receptivo comigo e com meus colegas e eu agradeço, em especial, ao Alberto Takayama e Tábita Wenckstern Sáez Takayama, por terem “adotado” nosso grupo. Devo muito a vocês e os admiro imensamente.

A CBK falha em muitos pontos é verdade, e eu tenho minhas ressalvas pessoais, mas, novamente, não consigo enxergar isso como algo mal intencionado. A verdade é que o Kendo é amador. Não se pode ganhar dinheiro com o ensino do Kendo então as pessoas que se dedicam o fazem por amor a arte. Não me sinto no direito de criticar ostensivamente quem cuida de uma confederação de forma voluntária e me sinto no dever de admirar. Mas também é verdade que se fomos esperar algum projeto sólido de expansão do Kendo partindo da fonte, vamos nos frustrar e essa frustração muitas vezes me fez pensar em parar de treinar e deixar isso pra lá.

Mas eu não consigo. Eu gosto demais de treinar Kendo e não vejo minha vida sem isso. Gente… é muito fácil apontar dedos e culpar isso ou aquilo, fulano ou cicrano por algo não dar certo. Agora o que é difícil é assumir responsabilidade pela mudança que queremos ver no mundo.

Eu reclamava muito, mas hoje eu faço diferente. Hoje eu prefiro fazer a falar (apesar de estar fazendo “textão”! Hahaha! Desabafo pode, né…). Se quero ver um Kendo forte no meu amado nordeste, então tenho que tentar ser um instrumento para tal. O jeito de aprender Kendo é um só: treinar com senseis de São Paulo e isso vou continuar fazendo, com a dedicação de sempre! Mas hoje, com um suado 3º dan e uma constante busca pela melhora, sinto que posso começar a contribuir com a minha região e é isso que me motiva a treinar Kendo!
Eu sonho com o dia em que teremos um Kendo forte a nível nacional. Não um Kendo forte apenas concentrado. Isso é um projeto que vai demorar anos e anos para se tornar realidade, mas eu quero fazer a minha parte.

Gasshuku com os senseis Alberto e Tábita Takayama (2011).

Por isso comecei a viajar pelo nordeste, para treinar com os grupos com os quais eu posso contribuir com minha pouca experiência e técnica. Eu sei que não tenho uma graduação grande… 3º dan é pouco… Mas temos grupos aqui que não tem nem isso. E com esses grupos eu posso somar! Se nós queremos que algo aconteça, não peça para alguém fazer! Tome responsabilidade e faça você mesmo! É o que muitos daqui tem feito e os admiro por isso!
Obrigado a todos os senseis que já contribuíram com o meu aprendizado e é também honrando esta gentileza de vocês que eu estou buscando ser, também, um instrumento para contribuir com a disseminação de um Kendo forte e correto.

Esse ano já tive a oportunidade de ir a Salvador e vou em Natal nesse final de semana, junto com o Luiz Gustavo. Pretendo continuar esse projeto por vários anos, bem como pretendo continuar me reciclando sempre que possível em São Paulo (acho que fevereiro vou pra lá! =D) e assim, quem sabe, daqui há uns 10 ou 15 anos, nós vamos ter, no nordeste, um Kendo capaz de representar o Brasil também, um Kendo para a próxima geração.

Gasshuku que ministrei em Salvador (2016).

Não é fácil, nunca foi, mas… Sinceramente, superar as dificuldades é o que nos fortalece. Dar desculpas não ajuda em absolutamente nada. Temos que tomar responsabilidade por aquilo que queremos e usar essa responsabilidade como força motriz para alcançar nossos objetivos. Obrigados a todos que contribuíram com o desenvolvimento do Kendo do nordeste, sou eternamente grato! Parabéns a todos que já começaram a contribuir com sua região e, aqueles que ainda não o fizeram e sente que podem, fica aqui o convite! Vamos nos unir, vamos colaborar uns com os outros e, com isso, todos iremos ganhar.

Ganbatte, minna-san!

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O colunista convidado é Renato Simões (renatocsimoes.adv@gmail.com), que possui a graduação de 3º dan em Kendo e 1º dan em Iaido pela Confederação Brasileira de Kendo. Iniciou seus treinos em 2004 e desde 2009 atua como um dos instrutores do Yuuhakkan Dojo de Maceió (AL), do qual é um dos fundadores.

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O que achou da matéria? Sua opinião é importante para o crescimento deste trabalho. Caso tenha dúvidas ou queira conversar sobre o assunto, envie um e-mail para blog.espiritomarcial@gmail.com ou deixe seu comentário!

11 comentários sobre “Porque Eu Treino Kendo

  1. Engraçado como q a história de todo mundo praticando longe de SP é meio parecida. Curiosamente a sua é até parecida com a minha, também treinei sozinho um tempo, também fui pra NY e treinei com Kato sensei, também fui obrigado a assumir o dojo pq não tnha mais ninguem e também fui viajando pra SP sempre que dá.
    Negócio é continuar no caminho =)

    • Olá Helton,

      São esses esforços que engrandecem as pessoas e seu desenvolvimento. Espero que a história da arte marcial se lembre sempre dos sacrifícios daqueles que honram suas paixões e contribuíram para o crescimento do verdadeiro Kendo no Brasil!

  2. Acredito que os Dôjôs de fora de São Paulo precisam também interagir mais, pois são experiências parecidas no que tange à dificuldade de praticar Kendô distante do “grande centro”, que é São Paulo…! Outra coisa: a comunidade brasileira de Kenshi precisa buscar como adquirir os equipamentos (bôgu, e shinai!) de forma acessível! Quem sabe, até começar a fazermos nós mesmos nossos shinai (algo que se fez no passado, e se perdeu…)! Até é possível treinar sem a supervisão constante de um Sensei de alta graduação, embora o desenvolvimento será mais lento, claro. Mas é impossível treinar sem acesso a equipamento! Portanto, facilitar a aquisição de bôgu e shinai é o mais necessário, hoje, para expandir o Kendõ no Brasil!
    Aliás, considerando que em muitas partes do país há carência de oportunidades de traballho, imagino se não seria possível justamente levar a produção/manutenção de equipamentos de Kendô para essas comunidades do interior do país!
    Abraços!

    • Olá Aldqueiroz,

      Obrigado pelo comentário. Além da distância, o acesso aos equipamentos é essencial para que se preserve a cultura do Kendo. Sem dúvida dificulta a expansão da arte marcial e seu cultivo por nós locais… mas são justamente nossas movimentações que podem fazer a diferença como no caso do estimado Renato Simões!

      Treinar já é difícil, administrar e suprir outras carências se torna um desafio de uma vida. Agradeço a todos os nobres kenshi que estão lutando pela preservação desta bela arte no Brasil e espero que cada um encontre sua motivação para trilhar o caminho da espada! :)

  3. Parabéns! Fazer a diferença não é fácil. Reclamar é, mas tomar a responsabilidade… é complicado.

    Eu também comecei na tal escola. Não demorei para notar que estava no lugar errado. Mas qual opção eu tinha?

    Tentei muito conversar com eles… tadinho de mim… como sou tolo.

    Saí e fiquei sozinho com a shinai.

    Por um contato com o Sr. Otsuka me animei. Conheci uma pessoa que chamo de “Mestre” (a contra gosto dela) em Bauru, que me ajuda todos os dias!

    Obrigado ****! Me animei e fui.

    Consegui um lugar!! Podia treinar. Mas… durou pouco.

    Consegui outro lugar!! Mas… com apenas 2 pessoas… torço todos os dias para o dono da academia não desanimar.

    Ninguém conhece o Kendô e quem vai conhecer se nega a praticar algo com alguém sem gradução.

    Não pretendo desistir, cada vez que vejo um relato como o seu… me animo, fecho os olhos e sigo mais forte.

    Obrigado e parabéns!

    • Olá doutorD,

      Sim, há mais relatos assim do que esperamos. Um ingressante pode achar que existe uma estrutura linda apenas para recebê-lo e uma expectativa de comodidade, onde é só frequentar e está tudo certo.

      No entanto, a construção das habilidades e do esforço coletivo se tornam outro ponto no aprendizado. Todos lutam juntos pelo interesse mútuo de treinar em um local adequado, com materiais certificados… e tudo é difícil! Mesmo!

      Obrigado pelo depoimento e força em seu caminho!

    • Qual a sua cidade, doutord? Você menciona Bauru (SP ?); talvez haja outro entusiastas que possam auxiliá-lo a praticar Kendo corretamente, e nem tão longe assim de você! :)
      Abraços!

  4. Obrigado! Obrigado mesmo! A todos que gastaram um pouco do seu tempo para ler esse relato.

    Eu acabei escrevendo esse texto no facebook como forma de desabafar e até reiterar essa convicção. Nós somos todos guerreiros, fazendo o que é possível para conseguir continuar treinando e disseminando o kendo em nossas cidades, estados, regiões… Enfim! Não é algo fácil, mas é realmente recompensador quando observamos o que já conseguimos construir e as perspectivas de futuro.

    Uma semente – ainda que modesta – para uma próxima geração que, com certeza, terá uma oportunidade infinitamente maior do que a que tivemos! Hoje posso dizer com toda a certeza que, ver um praticante conseguir tirar seu shodan em 1-2 anos é gratificante (eu demorei 7!) e mostra que vale a pena. Ver esse mesmo pessoal chegar aí sem lesões só nos deixa ainda mais feliz! Hahaha…

    Vamos em frente, pessoa! Vamos tomar responsabilidade e fazer a nossa parte para termos, verdadeiramente, um Kendo no Brasil!

  5. Sou de Santa Catarina, pratico Iaido com a supervisão do sensei Eduardo Correa da AKIPA (5º Dan Aikido e 2º Dan Iaido), um verdadeiro samurai contemporâneo. Nossas artes, Kendo e Iaido, se manifestam de maneira muito semelhante, nas dificuldades e até mesmo na federação, por isso são muito semelhantes. Parabéns a todos estes samurais: Eduardo Correa, Renato Simões e tantos outros heróis que buscam o fortalecimento da arte e consequentemente do ser-humano.

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