Kata: um aspecto da força

Por definição, evitando traduções ao pé da letra, o Kata ( ) é um exercício típico das artes marciais orientais – em especial as japonesas.

Em algumas artes, ele é um treinamento solo, onde o praticante executa determinados movimentos de ataque e defesa contra um ou mais adversários imaginários. Em outras, é comum a presença de um parceiro de treino. E é aqui que fica interessante a discussão.

Sendo o kata um termo japonês, é usado portanto para artes japonesas como Karate, Judo, Kendo, Aikido. Em outras artes como o Taekwondo (coreano) é chamado de Poomse, Hyong ou Tul. No Kung-fu (chinês), onde existem centenas de estilos, é comum o uso do termo Kati ou Taolu. Porém no ocidente, todos esses termos são traduzidos de um modo bastante simplório como “formas”.

No Kendo, os kata são exercícios primordiais para o desenvolvimento do praticante. Tanto que é considerado um dos “três pilares” fundamentais que compõe a prática, juntamente com Kihon e Shiai.

O Kendo Kata é realizado em dupla: um atacante, chamado de uchidachi, que desempenha o papel do professor, e aquele que contra-ataca, chamado shidachi, no papel de aluno.

Neste ponto, é interessante ressaltar a profundidade do relacionamento entre os praticantes. O kata não deve ser encarado como um mero exercício físico ou técnico. Ele transcende a esfera da prática física: passa a representar a cortesia e benevolência do mestre, que gentilmente oferece sua perícia e o próprio corpo durante um ataque, para que o aluno teste, exercite e demonstre o valor de seu aprendizado, com o contra-ataque. Ressalto que, esse tipo de observação é pertinente somente para pessoas que possuem um nível de entendimento mais “amplo”, por assim dizer, no seu desenvolvimento na arte, ou em sua cultura pessoal. Ou seja: não haverá esta percepção mais desenvolvida caso o praticante seja inexperiente ou desconhecer certos fundamentos de reigi (礼儀) da cultura japonesa.

O Kendo Kata é composto por 10 sequências de ataque e contra-ataque, sendo que em 7 delas são usadas espadas longas (também chamada de Tachi) e em 3 é usada a espada curta (também chamada de Kodachi) contra espada longa. Não entrarei em detalhes sobre as técnicas. Elas podem ser vistas no vídeo logo no final deste artigo. Devo mencionar que existe alto grau cerimonial antes, durante e após a prática, típica da cultura japonesa, com exigentes formalidades.

Bom, mas essencialmente, o que torna o kata tão especial, frente a treinamentos modernos em que potencializam a força, velocidade, resistência e muitos outras capacidades de um atleta?

Esta é uma questão multidisciplinar. E as respostas certamente não agradariam a todos os praticantes de artes marciais, em especial aqueles voltados para competições. Inicialmente, trata-se de um fator cultural. A criação e desenvolvimento do kata em artes tradicionais é demorado (questão de anos) e repleto de referências técnicas e filosóficas que comumente passam despercebidas aos olhos menos atentos. Deste modo, praticar o kata de forma absolutamente fiel ao modo que é ensinado é compartilhar de uma herança cultural, deixada por mestres que eram expoentes em suas artes.

Outro ponto a ser considerado é o técnico. O kata, a exemplo do kihon, exige a execução de movimentos de uma forma bastante teorizada e talvez pouco prática para o combate real. As técnicas e movimentações são realizadas de modo mais amplo, fisiologicamente falando, ou mais longas do que aqueles que seriam usados numa luta de verdade.

Embora visem prever as situações de luta mais comuns e o desenvolvimento de técnicas que permitam sobrepujar um agressor nestas situações, os críticos do kata acreditam que o treinamento condicionado limita as possibilidades de reação (e a “criatividade marcial”) a poucas opções pré-determinadas.

Essa é uma crítica difícil de ser rebatida e existe razão nestes argumentos. Porém, a prática do kata não deve ser vista somente pelo prisma marcial. Existem outras aplicações que determinam seu uso – e isto está profundamente enraizado na cultural oriental. Como já disse em outro artigo, é típico dos japoneses em particular, buscar o domínio pleno de um processo para que atinjam um objetivo. É curioso que, para perseguir um objetivo, eles são extremamente metódicos.

Observe este exemplo: no futebol, temos 10 jogadores de linha que driblam e passam a bola até chegar no atacante, que chuta para o gol, e assim marca-se o ponto. Sob a ótica japonesa, o trabalho deve ser exaustivamente analisado, para se compreender o que faz a bola entrar no gol, como ela chegou no atacante, como foram feitos os dribles e passes que originaram o gol. Assim sendo, cria-se exercícios específicos que visam a melhoria das habilidades de drible, passe, visão de jogo e chute. Pois, compreendendo o processo e tornando-o altamente polido, o gol é uma conseqüência natural do método bem executado. Eis um exemplo de aplicação física do kata.

Colocando dessa forma, o kata também é um tipo de incubadora de técnicas, que nada mais são que métodos para se atingir um agressor. Uso o termo incubadora, pois através do treinamento intensivo, novas formas de ataque podem ser visualizadas, provenientes de uma original. Especulo que muitos estilos de koryu kenjutsu surgiram após alunos formados e licenciados vislumbrarem novas possibilidades de uso da espada. Nas artes que não usam armas, certamente o mesmo raciocínio é válido.

O ponto final sobre a prática estaria ligado à “filosofia”. Sabemos que muitos estilos de espada são representações de idéias mentalizadas por seus criadores. Assim sendo, o modo, a linguagem de se brandir a espada está intimamente ligado a forma de pensar do criador. E isso se estende a todos os “rituais” e formalidades de uso da espada: forma de desembanhar, como o zanshin é feito, modo de tirar o sangue da lâmina, como embainhar, posturas e golpes preferidos. E não somente na postura “física” do espadachim: estaria presente também em suas estratégias e forma de lutar em geral. E o kata é a representação “coreografada” da linha de pensamento do estilo.

Até agora, só comentei do aspecto “solo” do kata. Quando ele é praticado em dupla, existem outros pormenores, como o exemplo mestre e discípulo, que consta na esfera da cordialidade. Alguns fatores físicos devem ser considerados, especificamente no Kendo Kata, como o timing de ação.

Para realizar uma seqüência, o uchidachi (professor) iniciará determinado movimento. Até então, o shidachi (aluno) deverá permanecer absolutamente (e psicologicamente) neutro e imóvel. Somente quando o uchidachi realizar de fato um ataque, é que existirá a situação de perigo, e só então a reação deverá ocorrer. Isto é bastante óbvio, mas se for considerar uma ampla maioria de praticantes de artes marciais, aqueles que tem esta percepção deve ser mínima.

Então, o estudo da linguagem corporal do adversário é decisivo para o aprendizado marcial. Em alguns casos, seria esta a representação da expressão “sentir o ki” (energia) do agressor, onde nada mais que o conjunto de ações de uma pessoa foi imediatamente interpretado, a tempo de criar uma reação defensiva oportuna. Certamente, existem mais detalhes sobre o entendimento do ki, mas este exemplo foi meramente ilustrativo.

Formalizando, o kata é um reflexo, uma conseqüência do modo de pensar oriental. É fruto da análise de um momento e uma resposta criativa à situações do dia-a-dia. A atividade marcial, em alguns casos, pode ser interpretada como ferramenta para o desenvolvimento motor e fisiológico humano. Em outros, como manutenção de um modo de pensar mais cuidadoso e criterioso, o que acaba influenciando positivamente muitos aspectos do cotidiano. Bem vindo ao Budo.

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…..O que achou da matéria? Sua opinião é importante para o crescimento deste trabalho. Caso tenha dúvidas ou queira conversar sobre o assunto, envie um e-mail para blog.espiritomarcial@gmail.com ou deixe seu comentário!

7 comentários sobre “Kata: um aspecto da força

  1. “(…) o kata (…) é usado portanto para artes japonesas como Karate, Judo, Kendo, Aikido.”
    E não só nas artes marciais; no teatro Noh, por exemplo, os actores também recorrem ao uso de kata…

    Texto fixe e que termina com uma grande verdade. Kata é, de facto, a porta de entrada do Budo.
    Keep it up.

  2. Houve ali um problemazito com os parenteses… mas juro que não fui eu.

  3. Gostei do seu site pena que descobri ele só agora, provavelmente por isso você não ira ler isso dado o tempo que separa essa matéria e o presente que vivêncio, porém o que tiver de ser será. Sou praticante de Kung-fu ou se preferi em respeito a sua arte e ao país onde ela nasceu Kenpo Chines, e compreendo que Kata ou Kati é uma forma de moldar a natureza da mente, de tornar a energia em ação e de buscar uma “harmonia” com a natureza. Kata no meu entender não consiste em defesa e ataque, tem haver com equilíbrio e concentração, pois para para se ter um bom efeito em uma luta real bastaria treinar técnicas com um parceiro.
    Se não for um problema para você estou colocando abaixo o endereço do Blog de minha escola, alguns Blogs tem como regra a não divulgação de outros blogs, portanto pode deletar essa mensagem caso deseje, pois compreenderei perfeitamente.

    Novamente aprecio a sua visão de arte marcial, e confesso que sempre tive atração pela arte do Kendo e Iaijutsu e admiro muito o fato de você ter criado um Blog que não apenas serve aos praticantes mas que também ajuda aos leigos como eu a entender um pouco mais de sua arte.

    Como disse sou praticante de Kenpo e tenho um blog sobre o assunto, porém quem escreve as matérias é meu Sifu.
    O Blog que administro é o: http://kuenlungnossoestilo.blogspot.com/
    Temos vídeos no yotube nesse endereço: http://www.youtube.com/user/kuenlung

  4. Olá R.,

    Seja benvindo ao blog. Sou entusiasta de todas as Artes Marciais, sem excessões (tirando as picaretas, é claro) e compartilho sua opinião quanto a importância do kata/kati e faço o que posso para me dedicar ao estudo e treino desta modalidade.

    Agradeço sua visita e espero poder contribuir um pouco com conhecimentos da área, sempre tão cheia de exageros e estereótipos, que precisam ser desmistificados para uma apreciação mais correta.

    No momento estou um pouco parado com o blog mas em breve trarei mais matérias, estou estudando a possibilidade de fazer uma matéria sobre Iai(do/justu). Aguarde!

  5. ola,gostei dos exemplos deixados aq,gostaria de mais ex. de nomes de golpes,e golpes,para poder estudar mais a modalidade kendo,estou começando agora e agradeceria essa ajuda,obridado!

    • Olá André,

      Bom, este blog não se destina ao ensino de artes marciais pela internet, coisa que julgo perigosa e ineficiente. Não precisa se apressar em aprender mas estudar sempre é bom e admiro seu interesse.

      No caso, eu recomendaria para você o livro de Yamamoto Sensei, Kendo – O Caminho da espada (https://espiritomarcial.wordpress.com/kendo-o-caminho-da-espada/), que contém estas informações e muito mais sobre história e filosofia, vale a pena procurar nas bancas e livrarias.

      No demais, bons estudos e força nos treinos!

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