O que Importa

Somos uma geração que, desde jovens, nos foi prometido sucesso e felicidade por pais amorosos e pessoas próximas, e quando a realidade se apresenta é possível que não estejamos preparados para lidar com eventuais resultados negativos e certas consequências de nossas ações.

Mesmo para aquele que é vencedor, sua colheita dependeu de fatores que vão além das próprias capacidades. Não se consegue resultados ou se “chega lá” sem o auxílio direto ou indireto de pessoas ligadas a seu círculo.

Ao viajar para competir, valorize um parente em uma cidade distante que lhe acolheu por uma noite e ofereceu uma refeição. Um professor ou veterano que lhe deu um conselho importante e esclarecedor. Um amigo que foi atingido – ou te atingiu! – tantas vezes, permitindo que você aperfeiçoasse sua técnica. Se seu golpe foi certeiro no momento necessário, agradeça a ele pelo seu desenvolvimento, pois – metaforicamente – uma parte dele está em você.

Talvez não seja justo pensar que só porque não conseguimos a vitória acabamos por não corresponder a expectativa dessas pessoas. Vem o pesar de ter falhado com elas. Mas foi justamente graças a elas que chegamos até aquele ponto, e quem sabe sem tal auxílio, nem isso seria possível! Gosto de pensar que, para o samurai, que tanto pensava em sua morte, bastava que ela fosse heroica e honrada, de modo a trazer respeito e admiração para sua família e que contassem sua história por gerações. Talvez assim como a seleção feminina de futebol, que apesar de não vencer nas Olimpíadas no Rio, mostraram mais do que se esperava do esporte brasileiro. Tudo deve ter o seu contexto.

Por vezes, a derrota é uma linha de aprendizado. Um teste de resistência da vida, que nos baterá e puxará o ânimo para baixo, flertando com nosso lado pessimista. Afinal, treinar artes marciais é altamente sacrificante em termos de tempo, esforço e finanças. Qual a motivação para continuar com esse desgastante sofrimento? Qual é o ganho?

Seguir um caminho de esforço em busca da vitória desenvolve a ambição e uma série de valores positivos necessários. Mas ainda assim, lições aprendidas com a derrota se transformam em força de vontade pra se superar. Mas nunca sozinhos, e nem por nós mesmos.

Existe um lado bastante positivo na busca pela vitória e superação. Mas não para o próprio praticante e seu ego: o esforço envolvido no refinamento de suas habilidades só será valoroso quando enfatizar o aprendizado via troca de experiências e pela relação entre o professor, colegas de treino e adversários. Estar totalmente aberto para esse fluxo de emoções e despertar a humildade de reconhecer que sem eles não haveria progresso significativo.

Tirar uma pessoa de sua zona de conforto e levar suas habilidades à prova é o compromisso de uma competição. Estende-se a percepção para uma realidade que mostra pessoas com diferentes níveis de força e habilidade, gerando a motivação para o aperfeiçoamento, novamente afirmando o reforço da integração, o vínculo com seu treinamento e os envolvidos diretos. É exatamente isso parte do que importa. Não somente a obstinação pelo resultado, mas pelas pontes positivamente erguidas entre pessoas em sua busca pelo sucesso.

Poster de divulgação do Campeonato Paulista por Equipes 2015.

E assim, o que importa?

Mais do que a ludicidade do combate, do manejo da espada ou imersão cultural, o contato humano desenvolvido na jornada de aprendizado exalta as características da empatia. Como já foi insistentemente enfatizado em muitos textos aqui, o cultivo do contato com diversos apoiadores envolvidos em seu meio marcial transcende os objetivos iniciais, onde a amizade de uma mão estendida pode construir as bases de uma personalidade solícita e altruísta, e apoiar e ser apoiado são vias de sinergia que não somente ajudam a realizar sonhos, mas também constroem vidas.

Digo isso porque com o tempo se descobre que o Kendo não se trata somente de uma habilidade a dominar, nem de se cultivar títulos ou capacidades. Tem a ver com quantas pessoas amigas ajudaram a construir essa força, e como nós também contribuímos com elas em troca, como agradecimento.

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N.P.P.

Embora não veja a competição como objetivo, é notório que o desenvolvimento das habilidades refletem no combate simulado em diversos graus. O texto exprime uma ideia que mesmo “perdendo”, não há porque se preocupar demais com isso. No entanto, isso não é desculpa para deixar buscar aperfeiçoamento e superar as limitações em sua própria técnica, condição física ou equivalente, sendo que a melhor forma de agradecer o apoio recebido sem dúvida é transcender o seu “eu de antes”. Talvez isso seja realmente “vencer”.

E porque

“Não é sobre chegar no topo do mundo e saber que venceu
É sobre escalar e sentir que o caminho te fortaleceu
É sobre ser abrigo e também ter morada em outros corações
E assim ter amigos contigo em todas as situações”

 

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O que achou da matéria? Sua opinião é importante para o crescimento deste trabalho. Caso tenha dúvidas ou queira conversar sobre o assunto, envie um e-mail para blog.espiritomarcial@gmail.com ou deixe seu comentário!

Postado em 01 de Junho de 2017.

14 comentários sobre “O que Importa

  1. Excelente matéria! Permissão para compartilhar com o Projeto de Extensão de Kendo da UFRN.

    • Olá César,

      Muito obrigado pelo elogio! As matérias são todas públicas, por favor pode compartilhar à vontade! Vamos divulgar os valores do verdadeiro Kendo! :)

  2. Adorei o texto como sempre, me ajuda bastante dando força e coragem para continuar no Kendô (3 semana de vitória eu sobrevivi hahaha).

    Este blog, e alguns grupos do face acabaram até me dando uma ideia de fazer uma especie de “diario”, mas ele ta servindo bem mais para mim, do que ira servir a alguém talvez. Para que eu conte, me lembre e veja o quanto venho evoluindo treino após treino, com a ajuda dos meus companheiros Shoshinshas, os senpais e os senseis mesmo. olhando o primeiro dia e hoje (que por sinal tenho treino depois do trabalho hahaha), até indiquei ao pessoal esse blog alguns não conheciam.

    Ele é quase uma luzinha no túnel em momentos que ficamos perdidos

    • Olá Juliana,

      Agradeço a preferência, e boa sorte! Precisamos de mais mulheres como você conhecendo, estudando e divulgando o Kendo por seus pontos de vista!

      Gambatte! :)

      • Hai!!!

        Ah, me tira uma duvida , estava discutindo isso com meus colegas após um treino e acabamos esquecendo de perguntar aos Senpais ou os Senseis mesmo, estávamos tão focados sobre o campeonato e como ir que passou batido.

        eu sei que Shoshinshas são os iniciantes, por exemplo nós que não usamos bogu, mas ai eu fiquei me perguntando se o pessoal que já usa Bogu ainda é shoshinsha também, ou se deixa de ser ao por o Bogu, ou se apenas se deixa de ser Shoshinsha após a primeira graduação que é o… 1º Kyu (é isso neh?)

      • Olá Juliana,

        Boa pergunta! Não posso responder de forma oficial, mas pelo que sempre entendi o shoshinsha é aquele que não usa bogu. A partir desde momento você se torna um “aspirante”, mesmo um pouco antes de obter o 1º kyu (algumas academias fazem exames internos de 3º kyu, sendo aprovado ganharia o direito ao uso do bogu, e 2º kyu, como preparatório para o 1º). Após o primeiro dan, você já detém graduação e é chamado de yudansha.

        Espero ter ajudado! :)

      • Oh nossa, ajudou bastante!!! Eu estava em duvida sobre isso, e o pessoal que treina comigo ( Shoshinshas) mesmo a mais tempo não sabiam dizer também, e acabamos nesse impasse.

      • De nada! Boa sorte no seu treino e desejo um bom desempenho no campeonato!

      • Eu agradeço mas desta vez não irei participar, nem sabia que neste os shoshinshas podiam se inscrever e bom, modéstia parte eu sou muito ruim, para ir em um ainda. Mas estava querendo ir para assistir mesmo, ter um pouco de experiencia, mesmo que visual de como são eles.

        Eu nunca vi como funciona um campeonato ou uma graduação, acho que não apenas os treinos, mas acompanhar estes tipos de atividades ajuda muito, e claro te da aquela energia, e pique para se esforçar mais e numa próxima em vez de estar atras da arquibancada vendo, estar lá na frente pondo a prova todo o seu treino e esforço
        .

      • Olá Juliana,

        Recomendo a experiência. Muitas vezes achamos no início que o Kendo é só um punhado de malucos de saia gritando dando bambuzadas, mas quando vamos aos eventos nacionais percebemos que somos centenas de pessoas apaixonadas. Isso muda nossa visão e nos faz abraçar com mais motivação o treino. Queremos fazer parte de algo tão especial e admirável, e renova nossa dedicação.

        Ah, uma coisa: não existe gente “ruim”. O que existe são pessoas com mais ou menos experiência. Mais ou menos tempo disponível para investir no seu treino. Porque uma coisa que o Kendo faz é abrir seu coração para a vontade de se aperfeiçoar. Só depende da gente e de conseguir levar isso adiante :)

  3. Muito bem redigido, muito profundo e inteligente… […] a melhor forma de agradecer o apoio recebido sem dúvida é transcender o seu “eu de antes”. Talvez isso seja realmente “vencer”. PARABÉNS

    • Olá Anônimo,

      Obrigado pelo comentário! Uma das mais preciosas lições das artes marciais, e às vezes isso passa muito batido pelo pessoal que só quer saber o “jutsu”, da técnica aplicada… uma pena. Mas o tempo é o tempero do amadurecimento! :)

  4. Realmente é um texto inspirador que nós colocarmos ainda mais esforço para o Kendo e qualquer outra atividade.

    • Olá Leandro,

      Sim. Acho que ter a mente ligada “no que importa” nos faz não somente treinar com a motivação certa, mas envolve toda nossa vida fora do dojo. O mesmo tratamento deve ser dado à família, amigos, trabalho, comunidade. Senão, vai ser só uma prática vazia de “bater nos outros” não é? Por isso o Kendo é tão bonito: ajuda a nos conectar melhor com as pessoas!

      Obrigado pela visita!

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