Shinpan

O conceito moderno de arbitragem posiciona uma pessoa como mediadora de resultados e mantenedora de condutas normatizadas que, dentro de um ambiente de imposto fair play, se torna testemunha do resultado.

Antigamente, os duelos de bokuto (espada de madeira) foram gradualmente substituídos pelo uso do bogu (armadura de proteção), o que permitiu exploração técnica inovadora e aplicação de golpes de maneira mais intensa e até então, realista. E naturalmente, surgiram as disputas amistosas, onde a cortesia do lutador golpeado o obrigava a ceder a vitória, e a daquele que golpeou, respeitosamente recusá-la. Neste cenário, a intervenção de um terceiro elemento se faria necessária para decisão justa e correta.

Um duelo.

Porém, é importante comentar que se tratava de uma época de maior influência religiosa, e tal elemento era norteador de muitas filosofias do modo de vida do samurai. Noma Hisashi, em seu livro Kendo Tokuhon, afirma que o julgamento perfeito é possível única e somente para os deuses, pois o espírito humano pode oscilar em função de interesses pessoais, mas ainda assim, trata o árbitro como agente direto deles; portanto, contestar sua decisão é uma afronta direta às entidades superiores.

Esse conceito místico é de difícil digestão para nós ocidentais, acostumados a ver o árbitro apenas como uma pessoa que impõe regras e mantém a disciplina, cuja figura é manchada por escândalos de corrução eventualmente denunciados na mídia, enfraquecendo a confiabilidade de sua missão.

Dado isso, em Kendo, é necessário um senso de justiça superior e a mais absoluta imparcialidade, frutos de rígido treinamento durante muitos anos. Isso faz parte do processo de construção do caráter tanto fomentado nesta arte, e idealizado como meio de aperfeiçoamento pessoal.

A arbitragem em Kendo é bastante simples em termos de normas, funcionando através da percepção de três árbitros posicionados de modo a triangular a luta, o que permite observar os golpes aplicados com clareza. Os detalhes foram comentados na matéria #Guia para a Prática de Kendo e podem ser lidas no link.

Seminário de Arbitragem

Como se trata de uma arte marcial cujo enfoque é o aprimoramento extensivo de habilidades físicas e mentais, não basta unicamente golpear o adversário de maneira intensa. Mesmo que em um combate real isso significasse a vitória, a ausência de outros elementos técnicos considerados necessários anularia o ponto, ou melhor, o árbitro sequer ergueria a bandeira a favor do atacante. Por isso, é preciso treinar muito para conjurar certa união de conhecimentos e ainda, na oportunidade adequada, atingir o adversário de modo incontestável.

Entretanto, parece muito fácil julgar pontos observando de fora. Importante mencionar que o árbitro sempre tem graduação superiora os lutadores e larga experiência de combate, o que os permite captar nuances muito sutis da técnica de luta e experiência dos combatentes, para julgar se tal ataque é válido ou não dentro daquela graduação.

O polêmico caso da final do Mundial de 2012 (arbitrada por mestres de 7º dan Kyoshi) envergonha a postura dos kenshi e distancia o Kendo do ideal de Budo, tornando-o um esporte em que se torce para se ver pontos ganhos, criticando e vaiando a decisão dos juízes. Mesmo o praticante como expectador poderia buscar exercitar sincronia imparcial com o árbitro, como forma de mitori-geiko, pois a contenda em Kendo é uma luta simbólica de vida e morte, por isso seria uma atitude rude e de mau gosto ‘torcer’ para um dos lados.

Japão vs Coreia do Sul: rivalidade acirrada.

Japão vs Coreia do Sul: rivalidade acirrada.

Para contribuir com a qualidade dos julgamentos, no Brasil são feitos seminários de arbitragem obrigatórios para exames acima de 3º dan, ministrados pelos mais graduados mestres da modalidade. Eventos longos e exaustivos que abordam, teórica e praticamente, diversos aspectos da percepção do golpe válido em Kendo, além da conduta apropriada dos envolvidos, tanto atletas como os próprios árbitros.

Mesmo que os árbitros possam apresentar falhas óbvias por serem apenas humanos, faz parte do nosso treinamento direcionar a credibilidade ao próximo e em sua capacidade, acatando indiscutivelmente seu julgamento, em respeito ao extenso treinamento e responsabilidades que lhes cabem. É realmente desafiador pensar dessa maneira em nosso dia a dia, onde é até imprudente acreditar no esforço e competência alheios, mas dentro de um ambiente formal como o Kendo no Brasil, é possível exercitar um modelo, e com certa sorte, exportá-lo e aplicar em nossa vida, pois é através do trabalho coletivo que construímos de fato realizações grandiosas, que se tornam o legado das futuras gerações.

Onegaishimasu!

Onegaishimasu!

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4 comentários sobre “Shinpan

  1. Prezado Administrador,

    Excelente texto. Acho que é papel de todos os praticantes a consideração pelo que foi determinado pela arbitragem, até mesmo naqueles casos em que temos certeza do desacerto.

    Afinal, o árbitro é um ser humano que, apesar de ser extremamente preparado e estar agindo de boa-fé, é plenamente falível – tal como todos nós. Devemos agradecê-lo pela disposição e relevar eventuais equívocos, sendo certo que a vitória pela vitória não vale a pena se não tivermos respeito pelos nossos pares e pelos nossos colegas hierarquicamente superiores.

    Vale diferenciar duas situações. Dentro da competição, a ordem do árbitro é absoluta. Fora dela, nada é imune a observações, e a atuação pode ser respeitosamente comentada e criticada.

    Aliás, se quiser conhecer um bom exemplo positivo dessa cultura de respeito, recomendo que assista a uma partida de rugby. Mesmo naquele verdadeiro campo de batalha, as determinações do árbitro são inquestionáveis. Apenas o capitão de cada equipe tem o direito de, respeitosamente e oportunamente, se dirigir ao árbitro para tecer breves considerações e pedir maior atenção em determinado lance. Quando um jogador é punido com cartão, a atitude esperada (e quase sempre praticada) é meramente abaixar a cabeça e se dirigir para fora de campo.

    Sou grande fã de futebol, mas sua tradicional falta de etiqueta e a popularização mundial acabaram minando um pouco a boa educação dos atletas, com reflexos nas demais atividades – inclusive nas artes marciais.

    Enfim. Grato pelas informações. Espero que não demore para publicar novamente! : )

    • Olá Daniel,

      Obrigado pelas palavras! O árbitro tem um papel de grande relevância, e no Kendo precisamos cultivar respeito pelas suas decisões. É também preciso pensar que todo praticante acima de 3º dan é um árbitro em potencial, como parte desse caminho marcial. Afinal, é preciso conhecimento para julgar.

      Muito interessante o exemplo do rugby, não sabia desses detalhes! Foge ao estereótipo que se tem de brutamontes se chocando perigosamente. Certamente, o respeito pelos parceiros e adversários precisa prevalecer para o bom andamento da disputa. Tenho certeza que quase ninguém gosta de vencer através de artimanhas, em qualquer esporte, pois saberíamos em nosso âmago que NÃO temos capacidade, o que é muito desmotivador. Por isso, a boa e correta aplicação dos fundamentos, o conhecimento para tal e o olho clínico da arbitragem são absolutamente necessários, como fórmula para o sucesso!

      E obrigado pela audiência! Infelizmente não posso me dedicar muito a esta iniciativa, por isso publico apenas periodicamente, mas tento me esforçar para ter uma matéria por mês. Fique a vontade para comentar e sugerir temas, mas sem muita expectativa, tudo bem?

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