Musha-Shugyo

Como todo praticante de artes marciais já percebeu, ficar isolado treinando apenas entre seus colegas mais próximos cria vícios em sua percepção e técnica, fazendo com que nos acomodemos depois de certo tempo, e até desestimulados a continuar no caminho do aprimoramento.

Nesse contexto, é bastante saudável, sob permissão de seu instrutor, buscar outros locais e pessoas que também praticam sua arte, ampliando naturalmente seu conhecimento, habilidades e fortalecendo relações sociais.

No entanto, o Musha-Shugyo (peregrinação de treino austero) surgiu em uma época onde as viagens eram restritas, e sair do feudo poderia ser considerado crime. Por isso, incursões em outros territórios demandavam permissões especiais devidamente explicadas, e aprovadas pelas autoridades locais.

Ainda que hoje pareça interessante treinar com outras pessoas, em tempos onde uma técnica, manha ou finta particular do samurai poderia significar a diferença entre sua vida ou morte, não seria sábio expor a maneira como você luta para estranhos. Muitas vezes, os treinos de espada eram absolutamente fechados, considerados até como arma secreta do feudo ou clã. E mesmo entre os discípulos de uma academia existia o costume de ensinar as ‘técnicas secretas especiais’ apenas aos mais dedicados ou para aquele que se tornaria o mestre sucessor da escola.

Assis - SP

Assis – SP

Enfim, buscar por academias amistosas de conhecidos e indicados onde havia boas relações para treinar, demonstrar e trocar ideias sobre as maneiras de combater. Tudo isso promovia a mistura de estilos e atualização do samurai, que poderia ter insights para a criação de um novo estilo pessoal.

No Brasil, ouve-se muito falar que antigamente, de 30 anos atrás para mais, a organização do Kendo era muito diferente e não havia essa integração amistosa como se conhece hoje. A rivalidade era mais acentuada, os sistemas de treinamento de cada academia eram mais reservados (e por que não dizer até secretos) e as relações entre mestres e alunos mais formais e distantes.

Por isso, esta época privilegia a oportunidade de interagir com outros pontos de vista, em busca de conhecimento e habilidade, dada a abertura dos costumes e da possibilidade de intercâmbios.

Piratininga. São Paulo - SP

Piratininga. São Paulo – SP

Dada a localização geográfica de cada academia, e as dimensões continentais do nosso país, muitas vezes fazer viagens exclusivamente para treinar se torna algo impraticável. Ainda mais se somar a rotina de trabalho, custos e compromissos familiares. Por isso, quando viajar para locais que tenham um dojo certificado compensa levar seu equipamento para uma visita. Mas antes de simplesmente aparecer para treinar é considerado polido pedir autorização, pois as academias de Kendo não são uma franquia, são entidades independentes entre si.

O trecho a seguir são OBSERVAÇÔES PESSOAIS, que considero necessárias para uma visita. Não existem normas ou procedimento padrão para isso, portanto sempre consulte seu Sensei  em caso de dúvidas.

Recomendo inicialmente que peça uma carta de apresentação de seu instrutor. É um recurso um pouco datado, mas ainda é uma formalidade bem vista, em especial, pelos mestres mais antigos. E o contato deve ser feito previamente, por telefone ou e-mail, solicitando permissão, para combinar os detalhes da visita.

Importante comentar que, antes de querer bancar o samurai  peregrino, a etiqueta comum é buscar por treinamentos complementares somente após o 1º dan, pois iniciantes devem absorver uma longa base de seus instrutores pessoais, para não confundir instruções ou cair na armadilha de pontos de vista diferentes: Sensei A disse para fazer de um jeito, Sensei B de outro. A resposta para isso é fazer do jeito que SEU Sensei ensinar. Somente após anos de treino é que as opiniões de A ou B vão fazer sentido e ajudar a complementar sua técnica.

Recife - PE

Recife – PE

Uma vez no local, chegue com boa antecedência. Assim, o Sensei poderá conversar um pouco com você antes do treino. E como cortesia, se puder, leve um pequeno presente para ele. É costume japonês e é uma forma de agradecimento pela oportunidade. Participe da limpeza e organização pré e pós-treino.

As rotinas são um pouco diferentes em cada academia. O aquecimento em geral pode incluir exercícios lúdicos, alongamentos e afins. Esteja bem atento para não ficar perdido. Também percebi que, quando há visitantes, a rotina de um dojo muda, e somente um treino básico de aquecimento é feito, para então, concentrar-se na prática de shiai. Justo, pois afinal, os segredos do treinamento de cada equipe é algo bastante particular, não?

Evitar chamar atenção com waza agressivos e chamativos, mantendo seu treino no mais absolutamente ‘técnico’ e considerado ‘correto’ possível. Treinar fora de casa não é um exercício de ‘vencer os outros’, mas de aprender diferentes pontos de vistas sobre os golpes, técnicas empregadas e variações de oponentes que talvez não tenhamos em casa. Por isso, abandone a ansiedade de pontuar e estude o Kendo dos colegas para ver o que pode faltar no seu. E isso se aplica principalmente ao lutar com o Sensei da casa: evite técnicas como fintas. A intenção não é ‘ganhar dele’ mas sim demonstrar a maturidade do seu Kendo, através da percepção da oportunidade, maai, kiai e afins.

Rudge Ramos. São Bernardo do Campo - SP

Rudge Ramos. São Bernardo do Campo – SP

Nem sempre acontece, mas ao final do treino o pessoal se reúne para sair para tomar uma cerveja (ou sucos) e comer algo. Aceite se puder, pois muitas das melhores histórias, troca e absorção de ideias vem desses momentos. Recusar o convite é um tanto grosseiro, e só o faça se houver motivos reais para isso.

Hoje eu entendo que a força do Kendo é proveniente dos laços que estabelecemos, e não apenas de componentes individuais, como a força de vontade. Os mestres oferecem instrução, companheiros que participam da jornada prática do combate. A soma de tudo isso deve estar presente na habilidade e postura de cada kenshi.

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N.P.P.

Apesar do texto se concentrar na experiência do Kendo, algumas das fotos são referentes a treinos em Iaido. Essencialmente, se mantém a mesma atitude.

 

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