Do you believe in miracles?

Entrevista de Christopher Yang para a revista Kendo Nippon

Tradução por Hiroyoshi Ishibashi Sensei, 7º dan kyoshi

…..A equipe americana iniciou os preparativos rumo ao Campeonato Mundial logo após a escolha de 40 melhores atletas após a primeira seletiva em outubro de 2004.

…..No mês de abril de 2005 o número caiu para 20 atletas após a segunda seletiva, e finalmente após a ultima seletiva no mês de janeiro de 2006, foram escolhidos 5 atletas, acrescentando 3 por indicação e o campeão nacional que participa automaticamente da seleção nacional (ficou um a menos por causa de ruptura do tendão).

Yang, cumprimentado pelos companheiros

Christopher Yang, cumprimentado pelos companheiros Maruyama (esq.) e seu irmão Daniel.

…..Todos os integrantes da seleção são amadores. Os integrantes da seleção que enfrentou a seleção japonesa por exemplo o senpo foi Sandy Maruyama que trabalha numa loja de artigos esportivos, o meu irmão Daniel Yang é funcionário da Fuji Xerox do Japão, o chuuken Fumihide Itokazu é gerente do restaurante da Disneylândia, eu sou advogado e o capitão Darwin Kawabata trabalha no banco de investimentos. Assim todos utilizam tempo disponível após o trabalho para treinar Kendo. Fica esquisito eu falar, mas acho que foi fantástico um time como este vencer a seleção japonesa.

…..Após ultima seletiva, faltavam apenas 45 semanas até o campeonato, eu e o técnico Yuji Onizuka perguntamos aos atletas selecionados “levante a mão quem não puder sacrificar tudo da sua vida em prol do campeonato mundial neste ano que resta”; ninguém ergueu a mão…

…..Das 45 semanas restantes, 41 fizemos gasshuku (treinamento em concentração). A maioria mora no lado oeste do continente, mas o Kawabata mora em Nova Iorque, mesmo assim participou 2 vezes por mês, viajando 5 horas e meia e suportando a diferença de 3 horas de fuso horário.

…..Recebemos apoio incondicional da federação americana e dos mestres de Kendo, conseguindo um ambiente maravilhoso para lapidar a equipe americana.

…..Os treinos de 1 ano foram divididos em estágios: de janeiro a abril fizemos apenas aprimoramento físico, utilizando todos os meios disponíveis, sem fazer nenhum treino de waza ou shiai. Treinos no dojo foram horas repetindo, oikomi geiko, kirikaeshi, kakarigeiko. Quando a dor dos músculos amenizavam, estávamos novamente realizando gasshuku.

Itokazu é um agressivo praticante do Nito-ryu, contra X

Itokazu, praticante de Nito-ryu (duas espadas), enfrenta Teramoto. Ao fundo, no centro, Masahiro Miyazaki e Naoki Eiga concentrados na luta.

…..Nos treinos particulares fora do gasshuku também realizávamos treinos individuais de 1 hora e meia de manhã e 2 a 3 horas a noite.

…..A partir do mês de maio, bebida alcoólica foi excluída, pois o Itokazu que normalmente é quieto começou falar vendo a bebida após o treino: “Acham que vamos ganhar alguma coisa brincando desta maneira?”. Após este incidente não tomamos mais bebida alcoólica. Quando realizamos gasshuku no Japão, compramos um sake denominado itigo itiê, “uma vida, um encontro” e decidimos tomar se obtivermos resultado positivo no campeonato.

…..De maio a agosto treinamos apenas waza, e a partir de setembro concentramos apenas na competição, excluímos kakarigeiko e visamos na melhora do ambiente para competição em equipe. Evitamos comentar a respeito de competição individual.

…..No gasshuku pesquisamos através de vídeos os tipos de atletas do Japão, Coréia, Canadá e outros. Como os integrantes da equipe eram novatos sem experiência em campeonatos mundiais, mostramos com os vídeos dos campeonatos passados, os tipos de atletas que poderiam enfrentar.

…..Por estarmos com muitos novatos, tentamos fazer crer que é possível, que é possível sermos campeões.
Eu, pessoalmente já havia participado de 3 campeonatos mundiais, e conheci o alto nível dos atletas do Japão e da Coréia, colocando na mente que talvez seja a última oportunidade de participar do campeonato mundial, a partir do mês de agosto pedi para a agência de advocacia transferência para subsidiária multinacional no Japão. Em prol do campeonato mundial, consegui obter treinos valiosos toda manhã na Polícia Metropolitana de Tóquio, considerado de mais alto nível do mundo. Mesmo residindo no Japão, voltei sempre para participar dos gasshuku.

…..O objetivo principal do gasshuku de 1 ano era unificar os 8 atletas. Mesmo que fizéssemos treinos árduos ao extremo, talvez não iria trazer benefícios compensatórios na competição, mas o mais importante era os 8 atletas experimentar e superar todas as dificuldades, juntos.

…..O treino do técnico era tão árduo que seu apelido era “ONI” (diabo ou demônio, um “trocadilho” com o sobrenome Onizuka), mas ele, apesar de ser recém-casado, deixava todo o final de semana a esposa em casa, viajava várias horas para participar dos treinos, como os atletas poderiam ser insolentes?

Yang contra X.

Yang contra Nakada.

…..Todo mundo tinha como objetivo ser atleta, participar da competição em equipe, realizar o sonho e fizemos esforços árduos durante o ano todo.

…..A partir do mês de janeiro, sentimos que houve a maior afinidade entre os atletas, parece que tornamos uma família, todos éramos irmãos.
Se todos estiverem unidos com o vínculo familiar, o ego ou orgulho particular se dissipam em prol do benefício da seleção nacional, esforçar ao máximo para o sucesso da seleção. Se você cair eu te amparo, se você perder eu vencerei, este tipo de sentimento não aparece se não houver sentimento de amizade e amor mútuo.

…..Todos tinham orgulho e responsabilidade em relação a seleção, não quero dizer que alguém era melhor mas “we did it together”, o resultado do campeonato foi conseguido com esforço de todos.

…..Chegamos em Formosa 10 dias antes do campeonato. Treinávamos toda manhã num local alugado e a tarde fazíamos reuniões para a competição em equipe ou assistíamos vídeos.

…..Pela experiência das competições passadas, sabíamos que ocorriam cansaços, decorrente do ambiente e clima pré-campeonato, em todas as atividades estavam todos juntos, desde o alongamento e aquecimento a partir das 5:45 hs, café da manhã as 6:30 hs…etc.

…..Na competição individual do dia 9 de dezembro, a equipe americana não obteve resultados expressivos.
O que ajudou a melhorar o clima um pouco pesado foi o vídeo da olimpíada de 1980 da equipe do hóquei no gelo, onde evidenciava a vitória da equipe amadora americana sobre os profissionais russos, denominado Miracle on Ice. Ao escutarmos o locutor praticamente gritando “Do you believe in Miracle?“, concluímos que “se eles conseguiram… nós também…”

…..Mas o milagre a que referimos não é acontecer casualmente, mas o acúmulo conjunto do esforço de 8 atletas durante 1 ano inteiro, talvez consiga um milagre que sozinho seria impossível.

…..Na competição em equipe colocamos o ponto mais importante na luta contra o Canadá, pois a força estava equiparada. Conseguimos vitória no taishosen e aquele modo de vitória deu continuidade da nossa força e concentração para a semifinal contra a equipe japonesa.

…..Antes da luta contra a equipe japonesa disse a todos: “esta é uma oportunidade única, este é o nosso sonho, é o nosso momento, é a nossa chance”, os atletas japoneses são todos famosos, são todos para se respeitar ao máximo, porém com este tipo de pensamento não poderíamos lutar de igual para igual, vim desde o mês de janeiro repetindo que é preciso respeitar, mas não deve respeitar de mais e ficar indeciso durante a luta.

…..O técnico Onizuka também dizia “são todos seres humanos, não são robôs, portanto podem ganhar ou perder”.

…..A luta ideal contra a equipe japonesa seria eu e o meu irmão conseguir vitória e segurar com o restante, pois se conseguíssemos chegar até o desempate, para nós seria o ideal.
Porém com a derrota do Maruyama contra o atleta Uchimura do Japão, eu que nos últimos 10 anos vim olhando o mesmo cenário pensei “será que esta vez também não é possível”?

…..Mas a força de vontade do Maruyama deu continuidade para a próxima luta e o meu irmão Daniel conseguiu vitória por dois pontos, e isto trouxe uma nova esperança para o time.

…..Aquela luta foi “turning point” (virada), não foi apenas uma vitória, mas mudou o curso da correnteza que já estava durando 10 anos, e brotou no sentimento de toda a equipe a palavra “talvez….”

…..Ao ver meu irmão Daniel que respeito e considero rival obter vitória decidi não desapontá-lo.

Seike, em postura hidari-jodan pressiona Kawabata.

Seike, em postura hidari-jodan pressiona Kawabata.

…..Quando a luta ficou para decisão na luta dos capitães disse ao Kawabata “traga até a mim, que eu decido”, mas ele foi além da minha expectativa, ganhou por dois pontos do capitão do time japonês. Ele disse que durante a competição não pensava em nada, deu um branco, jamais entrou pensamento de empate, mas apenas a de atacar saindo para frente. Graças a este sentimento foi possível ultrapassar aquela enorme parede. O sentimento que viemos, os 8 atletas juntos, cultivando durante 1 ano.

…..Após a competição voltamos para o quarto do hotel e abrimos “itigo itiê“.
É difícil soltar lágrimas após conseguir algo, mas esta vez todos choraram, talvez pelo sentimento de missão cumprida.

…..Ao refletir em como conseguimos chegar aqui revendo o campeonato, muitos fatores nos ajudaram, como treino nos Estados Unidos, gasshuku, cooperação dos mestres etc. etc. Mas o maior de todos seria a pátria mãe do Kendo que é o Japão acolher com todo o carinho os meus treinos e da seleção americana.

…..Antes do campeonato, durante 4 meses treinei na Polícia Metropolitana de Tóquio, e sempre fui bem recebido, orientado e incentivado.

…..Toda vez que o time nosso foi treinar no Japão o mestre Masaharu Kakehashi da polícia metropolitana, mestre Takahiro Nabeyama da Universidade de Tsukuba, do mestre Sadamitsu Kuroki do colégio Daigoo, todos elites do Kendo japonês nos ajudaram e incentivaram ultrapassando o limite de uma nação.
Isto sim é a maravilha e grandeza do Kendo japonês, e com certeza continuará a liderar o Kendo mundial.

Kawabata, Yang e Itokazu aplaudem ponto de um colega de equipe.

Kawabata, Yang e Itokazu observam a luta do colega de equipe.

…..Antes do campeonato não pensei na palavra retribuir, mas o resultado que conseguimos foi a melhor maneira de retribuir a acolhida recebida.

…..Para participar do campeonato mundial fui duas vezes para a Coréia, até aquele momento, não sabia que existia país que ama e respeita o Kendo, mas pela grata surpresa minha descobri que existem outros países que amam também o Kendo. E eu também tive a confirmação de não ser inferior no sentimento positivo em relação a amar o Kendo.

…..O resultado deste campeonato, a vitória e o sucesso foi uma pequena parte, mas o mais importante foi a de esforçar ao máximo e não se arrepender nada.

…..Esforçamos ao máximo até o nosso limite, fora o Kendo colocamos tudo para o segundo plano, portanto o fato de perder da Coréia na final foi golpe muito duro, mas não me arrependo de nada.

…..De agora em diante pretendo criar os futuros kenshi representantes da nação.

…..Tenho orgulho de ter aprendido Kendo nos Estados Unidos e continuarei esforçando ao máximo para o Kendo dos Estados Unidos.

…..Não considero que foi ótimo ganhar do Japão. Pois em uma competição existe vitória e derrota, e não podemos prever o que realmente acontecerá, e esta sim é a temeridade da competição e também a maravilha.

…..Mas a vitória que conseguimos me ensinou que ao esforçarmos ao máximo rumo ao nosso sonho, no Kendo ou no mundo não há nada que seja impossível.

Christopher Yang nasceu no dia 15 de agosto de 1978. Participou de 4 Campeonatos Mundiais. No ano de 2003 tornou-se advogado pelo Estado da Califórnia – EUA , 5º Dan de Kendo.

Fonte: Revista mensal Kendo Nippon – Março de 2007.

Aqui os vídeos das lutas EUA vs Japão – Semi-final do Mundial de 2006

Senpo
Ryuichi Uchimura (JPN 1) Sandy Maruyama (USA 4)


Jiho
Susumu Takanabe (JPN 4) vs Daniel Yang (USA 2)


Chuuken
Shoji Teramoto (JPN 6) vs Fumihide Itokazu (USA 3)


Fukusho
Jun Nakada (JPN 7) vs Christopher Yang (USA 1)


Taisho
Koichi Seike (JPN 3) vs Marvin Kawabata (USA 5)


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5 comentários sobre “Do you believe in miracles?

  1. Impressionante! Não sabia que Christopher Yang sensei tinha apenas 29 anos. Uau!

  2. O impressionante também é que, com essa idade, já pensa em se “aposentar” da seleção dos EUA!

  3. Outra coisa impressionante é Fábio Hideki Harano ter feito um comentário aqui.

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