Entrevista: Nishioka Tsuneo

…..O seguinte texto disserta sobre a conexão entre uchidachi e shidachi, do livro “Sword and Spirit”, de Nishioka Tsuneo, praticante de Jojutsu, a arte da luta com cajado de madeira, da escola Shinto Muso Ryu. Suas palavras direcionam a atenção do estudante de artes marciais para os detalhes que não podem ser vistos dentro da dinâmica de treino do kata, enfatizando a necessidade de se observar oferecimento e gratidão dentro do Budo.

……Trecho extraído da apostila de Kendo Kata e Bokuto ni Yoru Kihon Waza Keiko Ho para os alunos das academias Halifax e Kingston, no Canadá. Compilação da apostila por Stephen Quilan e Christina Quilan.

……Budo e Bujutsu são ambos traduzidos como “artes militares”, contudo Budo se refere ao lado espiritual (desenvolvendo a si próprio e seu espírito) enquanto que Bujutsu se refere ao lado técnico (dominando técnicas de combate). O autor deste artigo considera os dois diferentes aspectos como partes de algo maior e único. Segue:

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…..“O coração do Bujutsu é o Rei. A responsabilidade de um professor é comunicar isto aos seus alunos. Se esta comunicação falhar, os alunos podem desenvolver atitudes incorretas e o verdadeiro significado do treinamento é perdido. Infelizmente, há um grande abuso de poder no Budo japonês atualmente. Em minha opinião, há poucos professores ensinando os princípios do Budo corretamente. O Rei no Budo tem se tornado muito artificial, de modo semelhante à antiga hierarquia militar japonesa (N.T.: não fica claro na tradução em inglês se a referência é sobre a 2ª Guerra ou aos Koryu Bujutsu). O verdadeiro significado do Rei já não é mais expresso. Temos visto preservadas apenas as piores partes das tradições japonesas e da cultura, e devemos considerar modos de mudar esta situação.

Nishioka Sensei: referência mundial em Jo.

…..Bujutsu leva ao Rei. O instrutor deve se comportar idealizadamente, como um modelo que direciona os estudantes em direção a algo maior. Rei é uma expressão de humildade perante uma existência maior. Mas algumas pessoas, conforme vão desenvolvendo suas habilidades e alcançando maiores graduações, dispensam o que aprenderam sobre o Rei. Aqueles que não conseguem trabalhar diligentemente para melhorar o espírito da mesma maneira que fazem para melhorar suas técnicas são suscetíveis de esquecer a humildade adequada do verdadeiro Rei. Eles se tornam aptos a serem exageradamente confiantes, orgulhosos e autoritários. O desenvolvimento espiritual e o desenvolvimento técnico são coisas completamente diferentes e não há, necessariamente, qualquer relação entre eles.

…..Treinar Jojutsu, por exemplo, tem uma qualidade maravilhosa porque resultar em ambos graus de desenvolvimento; o crescimento espiritual leva ao crescimento técnico, e vice versa. Este desenvolvimento não é meramente uma questão de técnica. Contudo, se as técnicas físicas forem ensinadas inadequada ou superficialmente, os estudantes se tornam confusos. Haverá ainda um maior mal entendido se o foco é somente no processo de polimento das técnicas. Nós não devemos jamais perder de vista a intenção de “corrigir e aprimorar o espírito”. O único modo de assegurar isto é estudar sob a tutela de um verdadeiro mestre.

…..Em geral, as pessoas não compreendem o que é um mestre. Elas podem ficar confusas, equivalendo a ideia de um mestre a um instrutor ou um veterano experiente. Infelizmente, à medida que aumenta o seu nível de habilidade, muitas vezes, também aumenta seu ego. Muito frequentemente, jovens que se encontram em altas graduações ou receberam a permissão ou um pergaminho (N.T.: menkyo, a autorização formal de ensinar dentro da escola) logo assumem que estão qualificados para serem instrutores, só porque possuem certificação, ou possuirem um dojo, ou ter alunos. É um grande erro achar que uma pessoa pode ser um “mestre” só porque possui graduação ou uma licença.

…..Uma vez, meu instrutor, Shimizu Takaji Sensei (1896-1978) disse-me para não copiar o Jo praticado por seu colega mais novo, Otofuji Ichizo Sensei. A menos que se possa entender cuidadosamente o que Shimizu Sensei quis dizer, esta afirmação pode ser facilmente mal interpretada. Nós sabíamos que havia algumas diferenças entre seu jeito de usar o Jo e a Tachi, e a forma como Otofuji Sensei usava. Mesmo em kata bujutsu, é muito natural haver diferenças na forma. É porque pessoas diferentes possuem níveis de conhecimento técnico diferentes e mentalidades diferentes. Isto leva as pessoas a fazerem movimentos ligeiramente diferentes e eles passam essas características individuais ao ensinar. Shimizu Sensei temia que seus jovens alunos notassem estas diferenças e ficassem confusos ou desconfiados, e concluíssem que um modo ou o outro estaria incorreto. Ele parecia estar preocupado com os erros inevitáveis que isto resultava quando um aluno é incapaz de seguir apenas um instrutor. Ele me incentivou a seguir um único instrutor, na medida do possível e evitar me confundir sem necessidade observando o jeito de outros instrutores.

Shimizu Takaji Sensei

…..Possuir mais de um instrutor pode criar sérios problemas em seu treinamento. Em outra mão, insistir que os alunos sigam cegamente apenas um único instrutor pode resultar em grupos separatistas e evitar que alunos de diferentes mestres possam praticar juntos. Esta situação desastrosa ainda ocorre no mundo das artes marciais japonesas. A única solução seria esperar o amadurecimento espiritual tanto do aluno quanto do instrutor; então os estudantes poderiam treinar sob a tutela de um único mestre e se beneficiar com a integração entre estudantes de outros grupos.

…..É por isso que a compreensão do Rei é tão essencial ao processo de crescimento espiritual em Bujutsu. Uma das mais profundas expressões do Rei reside na interação entre uchidachi, aquele que “recebe” a técnica, e shidachi, o que “efetua” a técnica. Infelizmente, mesmo instrutores muitas vezes podem não perceber as sutilezas entre uchidachi e shidachi no treino de kata.

…..Eles não conseguem transmitir aos seus alunos a diferença de intenções inerentes a estes dois papéis. Particularmente nas tradições clássicas, os papéis de uchidachi e shidachi são bem distintos. Cada um tem seu ponto de vista psicológico único. É essencial que estas qualidades distintas sempre sejam mantidas. Acredito que a diferença nesses papéis é o que define as características do treino de kata. Recentemente, cheguei a conclusão que nem vale a pena treinar (kata) menos que ambos parceiros entendam isso apropriadamente.

Araki-ryu.

…..Quando um leigo assiste ao kata, pode parecer que o uchidachi perde e o shidachi vence. Isto é intencional. Mas existe muito mais que isso. Uchidachi deve possuir o espírito de um pai provedor. Uchidachi guia o shidachi providenciando um ataque verdadeiro; isso permite ao shidachi o correto deslocamento do corpo, distância de combate, espírito apropriado e a percepção de oportunidades. Um espírito humilde é tão necessário ao uchidachi quanto a técnica correta. Engano, arrogância e uma atitude patronal jamais devem ser permitidas na prática. A missão do uchidachi é vital. No passado, este papel era realizado somente por praticantes avançados e experientes, que eram capazes de realizar uma técnica precisa e que possuíssem o espírito correto e compreensão de seu papel. Uchidachi deve prover um exemplo muito claro, linhas de corte muito precisas e trajetória da espada correta, e também deve transmitir uma intensa concentração focada, e um ar de autoridade.

…..Se o uchidachi é um pai ou um instrutor, então o shidachi é como o filho ou o discípulo. O objetivo é adquirir as habilidades presenteadas pela técnica do uchidachi. Infelizmente, os alunos agem como se quisessem testar suas habilidades contra um uchidachi bem mais graduado que eles. Consideram esta competição como seu treino. Na verdade, isto não leva a melhorar sua técnica, nem melhoramento espiritual, porque o relacionamento correto entre uchidachi e shidachi foi obscurecido. É a repetição das técnicas nesta relação pai/filho ou veterano/novato que permite o crescimento do espírito através da prática da técnica.

Takenouchi-ryu.

…..Os papéis de uchidachi como “sênior” e do shidachi como “junior” são preservados independente do nível de experiência da dupla que treina. Kata deve ser treinado de modo que ambos entendam o conceito de “oferecer” e de “receber”. É isso que torna possível o melhoramento técnico e o desenvolvimento espiritual. Infelizmente, na prática do Jo, as pessoas pensam que estão praticando em ambos os papéis apenas para memorizar a sequência de movimentos das diferentes armas, a espada e o cajado. Existem até mesmo alguns instrutores que ensinam que o foco do Shinto Muso Ryu Jojutsu é como aprender a derrotar uma espada com um cajado. É um equívoco. Se isso continuar, o kata bujutsu pode morrer, porque tanto a técnica quanto o espírito do uchidachi não se desenvolverão.

…..Nos dias de hoje há poucas pessoas que podem desempenhar o papel de uchidachi corretamente. Eu acredito que Bujutsu evoluiu para Budo apenas por manter o conceito de uchidachi e shidachi. Esse ideal é a característica fundamental do Bujutsu clássico. Embora as artes japonesas, como Kenjutsu, Iaijutsu e Jojutsu foram se transformando de “jutsu” para “do”, se os papéis adequados no treinamento não forem preservados, a artes “do” irão para uma direção errada. Obviamente existe uma diferença entre tentar preservar a distinção adequada entre uchidachi e shidachi que não atingiram a perfeição e uma completa falta de esforço ou compreensão desta distinção. A existência da intenção ou sua qualidade é manifestada na prática diária e em suas ações. Aqueles que possuem a visão e a experiência podem dizer a diferença. Contudo, minha preocupação é que atualmente poucas pessoas entendem este conceito. No futuro, serão menos ainda. As pessoas parecem não mais reconhecer que a existência do uchidachi e shidachi é a essência do treinamento em Budo.

Os mestres do Brasil.

…..Considerando tudo isso, estou convencido que o mais importante que aprendi do Shinto Muso Ryu e de Shimizu Takaji Sensei são os papéis do uchidachi e do shidachi no kata. Não há como transmitir o kata das tradições (escolas) clássicas japonesas sem um conhecimento apropriado deste espírito de oferecer e receber. Não é certo veteranos no papel de uchidachi maltratar, judiar ou atormentar seus novatos. Ao contrário, seu trabalho é guiar e educar. No mesmo sentido, também é terrível ver o shidachi assumir uma atitude patricida, e tentar destruir o uchidachi. Só posso dizer que esse espírito jamais deveria existir.

…..Shimizu Sensei sempre dizia: “você deve treinar comigo” (diretamente com seu professor). Ele constantemente assumia o papel do uchidachi. Mesmo com iniciantes, e nunca foi displicente com sua atenção. Sempre era sério com todos. Nunca era arrogante ou mandão com outras pessoas. Eu acredito que esta atitude é o mais importante ensinamento do kata bujutsu, e o treino de Shimizu Sensei era um exemplo maravilhoso.

Tenshin Shoden Katori Shinto-ryu

…..Este é um espírito difícil de se cultivar, não apenas no Jojutsu, mas também em outras situações. É completamente diferente de um veterano ou um instrutor demonstrar suas habilidades tratando menos graduados com arrogância e condescendência. É muito fácil cair em um ciclo de interação que direciona o shidachi a reagir de modo a competir com o uchidachi. A orientação de um mestre é absolutamente essencial para evitar isso.

…..Uchidachi ensina o shidachi através do seu próprio sacrifício, treinando como se fosse ser morto a qualquer momento; este sacrifício personifica o espírito dos professores e pais. O treino de kata é inútil sem este entendimento. É este espírito que permite ao shidachi crescer e polir seu próprio espírito. Kata Bujutsu não ensina vencer ou derrotar, mas como educar e lançar os alunos a um nível mais alto. Isto é Budo.

…..Eu sinceramente espero que todos, especialmente aqueles que praticam Jojutsu, lembrem-se este axioma: ‘Não seja eufórico com a vitória, não se abata na derrota. Perca com dignidade.’

…..Este é o espírito que devemos imitar. “

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_________________________

N.P.P.:

…..É muito interessante notar o ceticismo do autor do texto em relação a real manifestação do Rei nas academias de artes marciais no Japão. O que é bastante paradoxal, ainda mais de acordo com nossa percepção ocidental, imaginando que os japoneses são um povo extremamente educado e civilizado. Por isso mesmo, o texto chega a ser até perturbador.

…..Recentemente, acessei o blog Tales of a Budo Bum, de Jeff Broderick, onde encontrei um texto que é mais um desabafo de suas (supostas) experiências com clubes de artes marciais no Japão. Lá, ele comenta sobre o tipo de envolvimento social que os universitários japoneses têm com seus respectivos clubes, um pouco de sua rivalidade e principalmente a prática de bullying em relação a novatos. Veteranos mais graduados tratando mal os novatos com princípios hierárquicos não declarados mas impertinentemente presentes, como em épocas de intenso militarismo extremista. Verdade ou não, apresenta uma oportunidade para reflexão.

…..Oras, talvez os princípios de igualdade entre as pessoas não tenha adentrado as portas do dojo por causa de comportamentos ignorados mas o que torna um veterano um ser superior? O que torna o Sensei superior, para que todos se curvem o idolatrem? É isso respeito? É isso Rei?

…..O que posso dizer é que se uma pessoa reverencia outra, é por respeito e admiração. Nunca por subserviência. Não há mais espaço para servos e senhores, mas para instrutores paternais e estudantes afilhados, exatamente como Nishioka Sensei afirma calorosamente em seu depoimento. Então, tratar mal um novato é apenas um modo infantil de auto-afirmação de força e pseudo-conhecimento. E isso jamais será considerado Rei. Não adianta ter a capacidade de bater em todos, de derrotar campeões. Sua arte apenas está produzindo um estudante terrivelmente falho, talvez com habilidades físicas extraordinárias, mas com um coração ordinariamente imaturo.

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…..O que achou da matéria? Sua opinião é importante para o crescimento deste trabalho. Caso tenha dúvidas ou queira conversar sobre o assunto, envie um e-mail para: blog.espiritomarcial@gmail.com

3 comentários sobre “Entrevista: Nishioka Tsuneo

  1. Shiro,
    Obrigado por compartilhar, ótimo texto.

    Grande abraço.

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