Faces da Mente

A cultura oriental é bastante complexa para assimilação por quem não é familiarizado com seus dogmas e paradigmas. Dentro do pensamento japonês, através de influências chinesas e indianas temos para as artes da espada uma série de postulados psicológicos de difícil compreensão. Um deles é o conceito de munen-musō.

Acredita-se que existe um estado “natural” da mente, onde ela é livre de preocupações e intenções. Uma condição “normal” (chamada heijoshin) que pode ser perturbada por diversos fatores externos e internos, prejudicando severamente o andamento de algo. É constantemente comparada a um lago em calmaria, cujo espelho d´agua reflete perfeitamente o céu. Este seria o estado “original” da mente. Tal condição pode rapidamente ser alterada se alguém joga uma pedra, ou ainda, se um peixe se move bruscamente próximo à superfície. Assim, o reflexo que vemos se torna distorcido, uma alegoria à percepção errada da realidade (afinal, o céu continua lá igual), que pode nos influenciar a tomar decisões equivocadas.

o lago calmo: munen-muso

O grande truque é conseguir acalmar o lago, para que sua imagem volte a um estado de reflexão pura (ou então, sequer deixa-lo ondular). Este é o munen-musō.

Para a teoria do combate, os samurai estudaram profundamente o comportamento psicológico e elementos da cultura zen, que aplicados na luta ofereceriam uma vantagem, agregando complexidade e elegância em sua arte. Este texto resume a ideia de maneira interpretativa, podendo estar equivocado quanto aos conceitos originais.

Para aquele que domina o munen-musō, sua mente é o lago: ao te encarar, o adversário vê apenas um reflexo de si na superfície, particularmente quando ele é agressivo e ansioso (provocando com o ki ou com fintas fortes, iniciativas que ficam sem “resposta”) por isso pode não conseguir detectar nem prever as ações de quem está totalmente sereno (e firme) na postura física e mental.

Ao cruzar espadas com um adversário, é realmente muito difícil não pensar em nada. Cria-se uma série de expectativas dentro do contexto:

Treino em academia: é muito comum que nossa mente se comporte de maneiras flutuantes. Muitas vezes em um treino de rotina não nos dedicamos ou nos concentramos apropriadamente, criando “aberturas mentais”, apenas por não serem combates em que “vale algo” ou com adversários bem conhecidos.

Exames: a enorme expectativa e o medo da falha rondam nossos pensamentos, e tal angústia dificulta o foco e o aumenta substancialmente a tensão psicológica, que reflete no corpo: movimentos mais travados e golpes duros, longe do nosso real potencial são apresentados aos exigentes olhares dos examinadores.

Campeonatos: a enorme fixação em desempenho ou reputação afeta diretamente a capacidade de lutar de maneira mais fluida. A excessiva preocupação em quem é o adversário, de que academia é e golpear ou ser golpeado elimina a clareza de pensamento e dificulta a reação instintiva. A ineficácia em entender e aplicar o munen-musō leva aos #Shikai e, consequentemente, à derrota.

Demonstrações: no caso do Kendo e Iaido, tais artes são relativamente obscuras e o público não tem certeza do que esperar. Neste cenário, existe receio da reação dos presentes, como risos e olhares de reprovação podem incomodar e minar o desempenho na apresentação (são comuns os erros em kata). Quem nunca?

Iaido oferece certa vantagem no aprimoramento do munen-musō, pois a ausência do adversário presente permite que acalme a mente e diminua a ansiedade para realizar os movimentos de maneira mais tranquila, correta e fluida.

Em níveis mais altos, talvez não seja exagero em dizer que tal postura mental leve ao muto, a não-espada, onde não existe preocupação com um adversário armado pois não há temor, raiva ou qualquer outra emoção que desestabilize a mente para uma ação eficiente e vitoriosa.

Então, munen-musō envolve a ideia de não pensar em nada? Ou é uma questão apenas de concentração? Talvez ambos, mas reside inicialmente na forma em que a mente se encontra relaxada, sem estar ativa (concentrada demais em algo) mas também longe da passividade. A expectativa em atacar o adversário sobrecarrega e tenciona inconscientemente o corpo. Quem está preocupado ou focado demais em algo cria aberturas em sua postura, tanto física quanto mental, pois deixa de perceber o todo. É assim que o corpo reflete o estado da mente, denunciando suas intenções ao oponente – e o lago se torna ondulado.

Too many in mind. No mind.

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N.P.P.

É muito comum que iniciantes no shiai sofram alguma desvantagem quando ao invés de atacar e estudar os padrões de movimentos, insistem em cultivar a intenção de “ler” o adversário, tentando aplicar conceitos mentais avançados e “esperando” a reação alheia. Isso é um mau hábito em minha opinião e acaba por contaminar sua técnica, tornando o kenshi  pouco ofensivo em um estágio do aprendizado que exige o ataque total e sem hesitação. Aos poucos é possível inserir os aspectos psicológicos em sua técnica, desde que explicados e teorizados pelo seu instrutor. Recomendo paciência e sempre ATACAR!

Este texto é baseado na no capítulo Munen-Musō, do livro Kendo Tokuhon de Noma Hisashi.

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O que achou da matéria? Sua opinião é importante para o crescimento deste trabalho. Caso tenha dúvidas ou queira conversar sobre o assunto, envie um e-mail para: blog.espiritomarcial@gmail.com

Postado em 30 de Novembro de 2015.

6 comentários sobre “Faces da Mente

  1. Parabéns! Ótimo artigo como sempre! Quem dera houvesse mais blogs ou sites com conteúdo tão rico e proveitoso! Realmente entender a filosofia e aspectos psicológicos orientais é muito difícil, até pelo fato de nós ocidentais sermos criados com uma concepção de mundo, ética e sociedade tão diferentes. Eu mesmo parei de treinar kendo há cerca de 10 meses, após ter treinado por quase um ano, justamente pelo fato de não conseguir “compreender” certas tratativas dadas dentro do Dojo, e a fim de evitar conflitos, decidi dar um tempo nos treinos.

    Grato pela prestação de serviços!

    Arigato gozaimashita!

    • Olá Marco,

      Obrigado pelos elogios! Bom, no máximo eu tento interpretar os conceitos vistos em treinos, seminários e livros de mestres expoentes para tentar complementar meu treinamento e, se puder, ajudar no daqueles que estão começando!

      É realmente difícil manter a mente calma e serena frente a situações perturbadoras e estressantes. Espero que tenha resolvido seu caso em bons termos, e que não tenha ficado uma má impressão do Kendo como um todo. Se quiser conversar sobre o assunto, não deixe de me enviar um e-mail, ok?

  2. Seus textos são sempre bons e ricos; mostram sua condição de verdadeiro aprendiz, com sinceridade e dedicação – servindo de parâmetro para todos nós, inciantes.
    Destaco um trecho: Demonstrações: no caso do Kendo e Iaido, tais artes são relativamente obscuras e o público não tem certeza do que esperar. Neste cenário, existe receio da reação dos presentes, como risos e olhares de reprovação podem incomodar e minar o desempenho na apresentação (são comuns os erros em kata). Quem nunca?”

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