A Construção da Parede sem Fim

Imagino que a esta altura ninguém aguenta mais textos ‘filosóficos’ e de autoajuda, mas é relevante encontrar novas posturas que criem motivação para continuidade do estudo do Kendo e do Iaido, e principalmente aquelas que trazem um elo entre o treinamento e nossas atividades cotidianas.

Um dos fatores apresentados em todo treino é a repetição exaustiva dos movimentos mais básicos, e nem sempre estamos concentrados para correção deles (afinal, muitos podem considerá-los mero aquecimento), o que pode gerar distorções em nossa técnica no futuro. Vícios que não foram cuidadosamente observados e que podem criar entraves em um exame de graduação ou forma de combater, por exemplo.

Em outro post, comparei o estudo da arte marcial à montagem de um quebra-cabeças: para o iniciante tudo é muito vago, e ele apenas absorve o que pode “pelas bordas” até conseguir entender o que é aquela imagem que está se formando. Embora a comparação seja válida, talvez seja mais adequado comparar o treino com uma estrutura de edificação, onde é necessária a criação de uma base onde será construída a habilidade de cada um.

Justamente por isso, estudar os conhecimentos e técnicas mais básicos ajuda a refinar as capacidades gerais, e cada movimento pode ser pensado como um tijolo, que deve ser colocado corretamente em seu lugar. Ao fim da prática, devemos olhar a parede que foi erguida e refletir se os tijolos são todos do mesmo tamanho, estão alinhados e devidamente instalados em seu lugar. Caso não estejam, certamente que essa parede tenderá a cair em algum momento. Por isso, esteja atento às maneiras consideradas “corretas” de se erguer a construção.

Esse cuidado em posicionar e cimentar os tijolos de maneira certa é na verdade o desenvolvimento de disciplina onde nós mesmos nos obrigamos a fazer qualquer atividade da melhor maneira possível. Uma “ferramenta psicológica” que cria o foco necessário para autocorreção e nos desafiarmos.

Em artes marciais, aparência tem seu custo.

Em artes marciais, aparência tem seu custo.

Nessa linha de pensamento, o mesmo pode se aplicar a atitudes e decisões, que devem ser ponderadas com o devido cuidado, para um dia olharmos orgulhosamente para trás e ver a “parede de nossa vida” alta, firme e com seus tijolos perfeitamente encaixados. Claro, deslizes acontecerão, mas não sejamos menos rigorosos por causa disso.

O conceito do tijolo e da parede pode ser um golpe, uma luta, um dia de treino. Então, colocá-lo de forma correta só depende do afinco e dedicação do construtor. E que a parede seja enorme e sem fim.

Nem todos perfeitos, não é?

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8 comentários sobre “A Construção da Parede sem Fim

  1. Muito bom para refletir!
    Obrigado pelo texto!

  2. Talvez por isso, meu caro Senpai, muitos precisam de um reboque, massa, pintura e até papel-de-parede! É triste saber que muitos casos são lindíssimos papéis colados sobre tijolos tortos, quebrados e sujos.

    Um marketing forte pode sobrepor em beleza aparente, mas trinca, racha e até desaba em pouco tempo.

    A arte Samurai sobreviveu por séculos pela forte base.

    A ilusão se consome com o tempo, sozinha.

    Viva os fortes tijolos que sobreviverão ao tempo.

    Parabéns pela ótima matéria!

    • Obrigado DoutorD. Construir habilidades exige o mesmo processo de dedicação, caso contrário, será uma parede torta. Basta ter o cuidado e dedicação necessários! :)

  3. Ótimo texto, faz refletir bem!

    Abraços!

  4. Bom texto [destaco: “Um dos fatores apresentados em todo treino é a repetição exaustiva dos movimentos mais básicos, e nem sempre estamos concentrados para correção deles (afinal, muitos podem considerá-los mero aquecimento), o que pode gerar distorções em nossa técnica no futuro. Vícios que não foram cuidadosamente observados e que podem criar entraves em um exame de graduação ou forma de combater, por exemplo.”]

    • Olá Inácio,

      Sim, cada detalhe é importante, por menor que seja. A forma e olhar, respirar, o mais discreto movimento são passíveis de correção constante. Eu acredito que é esse pensamento, e não simplesmente se matar de treinar sem um foco mais apurado que permite a evolução para um estágio muito mais avançado.

      Obrigado pela visita! :)

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