O que a Espada Corta?

Este texto é inspirado livremente no relato de Sumi Masatake Sensei, 8º dan Hanshi, que na revista Kendo-World nº 7.2 (2014) comentou algumas passagens biográficas do início de sua carreira como kenshi.

Sumi SenseiDurante um tempo em sua adolescência, estudou Iaido do estilo Muso Jikiden Eishin-Ryu sob orientação de certo Sensei, que também era polidor profissional de espadas. Treinou com bokuto (espada de madeira) até que foi presenteado pelo mestre com uma shinken (espada real, com corte). Ficou extremamente maravilhado com a beleza da lâmina e muito feliz e orgulhoso ao poder mostrá-la, carregando nas costas de bicicleta no caminho para o dojo. Um dia, resolveu testar o fio da espada em um galho de arbusto em seu quintal.

Infelizmente, sua perícia ainda não era tão refinada e, ao cortar o objeto, criou um pequeno dente na lâmina. O Sensei, em uma ocasião posterior, percebeu o dano na espada e ficou extremamente bravo, ameaçando Sumi de expulsão da escola. Em suas palavras: “Você quer que eu te expulse dos treinos? Katana não é para se ficar cortando coisas por aí! Serve para cortar os maus pensamentos que surgem na sua mente!”

Uma frase que pesa bastante em quem está refletindo sobre as habilidades do Kendo e do Iaido. Afinal, não existe contexto útil ou prático de aplicação de técnicas com espadas. Então para que tanto esforço e sacrifício?

Mochida MorijiMochida Moriji Sensei (1885-1974), mestre incontestável do Kendo, no alto de seu 10º dan disse:

“Devemos praticar as técnicas base do kendo até aos 50 anos. Assim, essas técnicas passam a fazer parte de nós. Muita gente pensa que os fundamentos são apreendidos nas primeiras fases do treino de kendo. Esse é um erro muito comum. Muitos ‘enterram’ os fundamentos no seu subconsciente e nunca mais voltam a pensar neles uma segunda vez. Levei 50 anos para aprender os fundamentos do kendo e para que eles passassem a ser parte do meu corpo e do meu espírito. Não entrei na verdadeira disciplina do kendo senão aos 50 anos. Isso porque estava determinado a praticar kendo usando a minha mente.

Aos 60 anos, as costas e os membros inferiores enfraquecem. A mente pode complementar a fraqueza do corpo. Pratiquei kendo (nessa altura) utilizando a mente para compensar a minha fraqueza física.

Aos 70 anos, todo o corpo enfraquece. Então, eu pratiquei para tornar a minha mente imóvel e imperturbável. Quando a mente permanece imóvel e concentrada, tal como um espelho, ela reflete a mente do adversário. Tentei sempre manter essa concentração.

Quando cheguei aos 80 anos a minha mente tornou-se imóvel e concentrada. Aspiro a eliminar todos os pensamentos que possam interferir.
Mas admito que ainda me ocorram distrações ocasionais. ”

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Mas também sacramentou:

“Eu acredito que o kendô não é para cortar pessoas.
É para cortar os pensamentos negativos que surgem dentro de si.
Para desenvolver um espírito que jamais se abala em qualquer situação.
Para trabalhar o corpo, a mente e o espírito,
Para nascer a sabedoria luminosa,
A força de vontade resoluta e firme
e um temperamento gentil e pacífico
Para sempre guardar o mútuo respeito entre mestre e discípulo,
Para treinar, buscando um espírito e uma técnica mais elevadas,
Para conhecer o propósito de existência do ser humano e
trilhar o grande caminho que um ser humano deve trilhar
e com isso beneficiar o mundo.”

O aspecto metodológico das artes da espada prima pela repetição da forma, pela observação e indução nas intenções de um adversário, suas aberturas posturais e mentais, e do ataque definitivo. Mas quem atacaríamos assim tão definitivamente por aí?

Me pergunto o quanto é adequado ficar fazendo colocações de comportamento idealizado, mas tenho certeza que não é difícil separar atitudes e ações nobres e prestativas das mesquinhas e interesseiras.

Toda vez que nos depararmos com uma situação em que se pode fazer algo que é ‘certo’ dentro do contexto e optamos por outro caminho, o ‘mal’ venceu e fomos cortados por ele. Demonstramos fraqueza, pura e simplesmente, e fomos derrotados pelo conformismo, medo, preguiça ou qualquer coisa equivalente. Claro que existem situações em que isso é bastante difícil de decidir, em especial, naquelas que nos trazem algum prejuízo direto.

Jeitinho Brasileiro

O brasileiro em especial parece sofrer de uma disfunção perceptiva, onde ficamos absurdamente indignados com a corrupção alheia, ao mesmo tempo em que ignoramos a nossa própria.

É imperativo que o ‘jeitinho brasileiro’ seja um dos principais inimigos. Por menor que seja a brecha, sempre existe a chance de ser cortado e contaminado pela fraqueza da corrupção. Estacionar na vaga do deficiente, furar uma fila de supermercado. Geralmente, coisas pequenas são convenientemente ignoradas no comportamento. Mas pouca coisa pode ser tão deplorável como ter ‘dois pesos para duas medidas’ em nosso comportamento.

Mas quando optamos por algo que é eticamente elevado e aceitamos este caminho, independente de prejuízos pessoais, conseguimos usar a espada para cortar o mal. A abertura que estamos acostumados a ver no adversário na verdade seria a mesma que a situação desagradável inseriu em nossa mente. Vendo a abertura, é possível decidir sobre a ação. Trata-se meramente de uma escolha. Concordo que se trata de uma postura muito idealizada, e nem sempre estamos dispostos a isso, ainda mais quando existe algum tipo de sacrifício particular.Ogura Sensei

A força de vontade necessária para isto se desenvolve no treino, onde sempre será exigido até próximo do limite físico e mental, e assim se acostumar a sair da esfera de conforto nesses momentos talvez prepare as pessoas para lidar com situações incômodas.

Entendo também que todo este discurso faz parte de um universo de abstração, onde se buscou argumentos que justificassem a essência e até mesmo a existência dessas artes marciais hoje. No entanto, ao acrescentar um ponto de vista de civilidade a partir de analogias com o combate (que por si é bastante motivador para o aperfeiçoamento), fica mais claro o tal ‘Caminho’ que o praticante pode seguir, se esta for sua opção. Ver o erro, e atacar ferozmente.

Mais do que nós praticantes gostaríamos de admitir, a luta no formato atual pode ser vista como um componente lúdico de um treinamento mais profundo e espiritual, que trabalha inicialmente dedicação, para moldar maneira como aluno de artes marciais encara as situações cotidianas.

Não ser derrotado pelo conformismo ou lei do menor esforço, algo muito comum hoje, de se fazer apenas o mínimo necessário. Ao conhecer cada inimigo, traçar sua estratégia de como ‘cortá-lo’. Buscar a força necessária no treinamento árduo, tornando a espada ferramenta da força de vontade. Ou justamente o contrário.

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N.P.P.

Novamente penso que é lindo posar de ‘mestre’ falando de coisas nobres e idealizadas… mas até que ponto conseguimos seguir esse código? Quem é infalível?

E mesmo entendendo as limitações do ser humano, não é desculpa para não tentar. Em especial quem é pai ou mãe, que tipo de modelo queremos ser?

Afinal, o que a espada corta?

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O que achou da matéria? Sua opinião é importante para o crescimento deste trabalho. Caso tenha dúvidas ou queira conversar sobre o assunto, envie um e-mail para: blog.espiritomarcial@gmail.com

Postado em 21 de Novembro de 2014.

8 comentários sobre “O que a Espada Corta?

  1. Excelente texto. Muito reflexivo. Realmente pesa sobre todos nós a aura da falibilidade humana, o que não nos escusa de buscar a perfeição.

    • Olá Pedro,

      Obrigado pela visita. Sim, penso que nos esforçamos tanto no treino para adquirir visão, para enxergar o que há de errado conosco e ao redor, e como poderíamos nos posicionar como uma força positiva.

      Mesmo que um pouco idealizado, não devemos nos nivelar ‘por baixo’ não é mesmo? :)

  2. Ótimo texto!
    Interessante ver como nossos verdadeiros “inimigos” nem sempre são visíveis, e que por isso nos exige uma maior perseverança na luta.

  3. Mais um excelente texto escrito por você, que nos faz refletir sobre questões muito complexas como a natureza humana, treinamento e corrupção. Interessante que mesmo quem não é praticante de kendo, acaba se identificando com os textos que escreve pois encaixa as questões práticas e filosóficas do caminho da espada, com o cotidiano.

    Infelizmente em nossa sociedade como um todo, a virtude de ser honesto passou a ser tratada como uma qualidade do ser humano, porém as vezes creio que este conceito já vem desde 1500.

    Parabéns pelos artigos.

    • Olá Marco,

      Agradeço os elogios! Tento colocar de forma mais acessível à pessoas que não treinam Kendo/Iaido um pouco da minhas observações pessoais.

      No entanto, percebo que só deixa de ser ‘lenga-lenga de monge’ quando você treina de verdade, e com grande seriedade. Aí, faz todo o sentido do mundo o significado e o pesar dessas palavras, na minha opinião.

      Também tenho grande receio de parecer presunçoso, pois a internet está infestada de ‘mestres’ que ficam falando de ‘moral e bons costumes’ e ‘retidão de caráter’, como se fossem melhores que os outros! Esse discurso me incomoda bastante, parece que sempre o problema ‘são os outros’ (vide as lamentáveis discussões sobre política nas redes sociais).

      As artes marciais são um bom caminho para descobrir o que está faltando em NÓS, ANTES de ficar apontando o dedo para os OUTROS, não é mesmo? :)

  4. Pois é, “mestres” e “juízes” há aos montes na internet e mídia num geral. Concordo que as artes marciais são um dos caminhos para o auto-conhecimento, pois eu treino kendo e já treinei karate kyokushin, e quando você observa um colega executando um golpe ou waza, é possível identificar o que está errado, porém executar o mesmo movimento com perfeição é difícil, a partir daí vemos que é sempre mais fácil criticar do que fazer melhor. O importante é se policiar, treinar firmemente e cada vez mais evoluir como pessoa e qual seja a sua modalidade :)

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