Reflexões sobre Zanshin

Resolvi escrever sobre o Zanshin devido à uma própria dúvida que tinha quando era Nidan ou Sandan – Qual o tempo ideal e como demonstrar (forma) o Zanshin?

Acredito que muitos estudam e já devam ter uma ideia sobre o assunto e talvez até já tenham resolvido esse “problema” mas, espero ajudar aqueles que por ventura estejam com a mesma dúvida em mente. É um pequeno texto que possui como objetivo ajudar iniciantes, não somente no Iaido mas em outras Artes Marciais especialmente japonesas.

Como nunca treinei nenhuma outra Arte Marcial asiática, não posso dizer que a parte espiritual não exista em outras, mas tendo como parâmetro as Artes Marciais Japonesas, de onde tive minha formação, o lado espiritual foi profundamente estudado e aplicado. Por exemplo, em suas origens, o Kyudo (A Arte do Arco), o Iaido (A Arte de Sacar a Espada) e o Kendo (A Arte da Espada) eram treinadas para o combate, com ênfase quase somente nas técnicas para derrotar o oponente e, após a unificação do Japão por Toyotomi Hideyoshi e em seguida Tokugawa Ieyasu, guerras foram diminuindo, o que resultou em mais tempo para o amplo e profundo estudo e aplicação espiritual do Zen e Confucionismo nas Artes Marciais, fazendo desta forma com que nascesse o “Do”, ou caminho.

O Kyudo, desde muitos séculos atrás, possuía relações com o Xinto, assim também como a espada, além de sua relação com o Xintoísmo sempre venerada, desde praticamente a fundação do Japão, com muitas lendas envolvendo as mesmas, mas até então, não eram aplicados estudos filosóficos ou espirituais. No entanto, com a entrada do Budismo no Japão, aos poucos foram crescendo os adeptos desta então nova religião, mesmo entre os grandes senhores feudais. Com isso, aos poucos, muitos conceitos Zen-Budistas foram sendo estudados e introduzidos nas Artes Marciais, com o intuito de garantir uma formação espiritual do guerreiro mais coerente e preparada para as guerras, além de ajudar a ver e entender a morte com outro significado. Neste sentido, uma das palavras que ajudam a pensar essa mudança de orientação seja “Zanshin”.

Primeiramente, antes de se falar em Zanshin, acredito ser mais fácil de entendê-lo após compreender a palavra em si. Dessa forma, segue uma pequena explicação sobre o significado do ideograma de Zanshin (残心):

– 残  Zan, Noko(ru), Noko(su), Soko(nau): Remanecer, sobrar, deixar.

– 心 Shin, Kokoro, Ura: Coração, espírito.

“Zanshin” é um termo muito usado no mundo das Artes Marciais japonesas mas vai além, o termo também é usado no Zen, Sado (Cerimônia do Chá) e até mesmo nas artes cênicas japonesas. No entanto, apesar de sua difusão dentro de várias artes, o termo é confundido com outra palavra usada no cotidiano japonês, “Kokoro Nokori”. O ideograma para esta palavra é 心残り, ou seja, inverso ao “Zanshin”. Mesmo lendo o ideograma de “Zanshin”, os japoneses não entendem seu significado e como mencionado acima, às vezes confundem com “Kokoro Nokori”. Apesar de usarem os mesmo ideogramas, ao inverso, essas palavras também têm seus significados opostos.

O ideograma de Kokoro (coração, espírito ou mente).

“Kokoro Nokori” significa ter deixado de se fazer algo, material ou espiritualmente falando, tendo como exemplo um trabalho não terminado ou mesmo uma declaração não dita. Já o termo “Zanshin” é o inverso, usando principalmente o significado “remanescer” para um melhor entendimento do espírito da palavra, seria estar sempre presente, alerta. Porém, “Zanshin” seria um pouco mais amplo, expressando por exemplo, acompanhar um convidado até a saída de sua casa e continuar olhando até não poder vê-lo mais (seria o Zanshin da Cerimônia do Chá), olhar uma flecha atingir o alvo e seguir olhando, em Kyudo, um golpe completado e o retorno com a postura pronta para quaisquer contra ataques, como no Kendo ou após o corte, no Iaido.

Uma outra maneira de se escrever o “Zanshin”, seria 残身, onde “身”, significa corpo. Aqui, podemos entender como “O corpo sempre presente” ou, em meu entendimento, “estar sempre com o corpo preparado”. Sendo assim, podemos entender que a parte “mecânica”, ou 残身, é estar sempre com uma postura preparada, ter a respiração controlada, fixar o olhar no alvo (Kyudo) ou no oponente (outras artes), relaxar. Já para a parte espiritual/mental, temos 残心, que será explicado mais abaixo. Treinando sempre respeitando o básico, seja qual Arte Marcial for, prestando atenção aos movimentos, se estão corretos, respiração, etc., estamos praticando o 残身 Zanshin. Com um bom Zanshin (残身), o praticante vai adquirindo maior naturalidade em seus movimentos, levando também seu nível em Zanshin (残心). Com anos de treino e o conjunto destes dois “Zanshin”, temos o que é chamado dentro das Artes Marciais de “Kihin”, ou “Kigurai”. Ambas as palavras são traduzidas como “elegância”, mas podemos entender como a elegância do corpo e espírito.

ukenagashi

Zanshin não está somente no olhar. Está em toda postura.

Como pratico Iaido e de certa forma este texto é voltado àqueles que também praticam esta Arte, o Zanshin no Iaido, além de estar preparado para um possível contra ataque, tem um entendimento mais profundo, por meio da demonstração de respeito para com o adversário derrotado. Pode soar estranho para nós, educados na cultura ocidental onde inimigo é inimigo sem direito ao respeito mas, nas Artes Marciais japonesas o inimigo é uma figura importante. Sem o inimigo, o praticante não progride em seus estudos/treinos, não conhece suas próprias falhas. O inimigo engrandece o praticante e por isso merece respeito, pois sem ele, a arte se torna vazia e o espírito, pobre. Por essa maneira de pensar pode-se entender uma grande diferença entre as artes marciais japonesas e outras artes marciais. No Judo, Sumo (apesar do Sumo ter começado como um entretenimento da corte, há muito foi se aplicando conceitos de Artes Marciais, sendo hoje chamado de Sumo-do), Kendo, enfim, nas Artes Marciais japonesas não se comemora ao ganhar um ponto, o que seria o mesmo que derrotar o oponente.

Uma parte importante aqui é o ideograma “心” (Kokoro, Shin), que expressa o sentimento em si. Em Zanshin estamos no estado “sempre alerta” mas ao mesmo tempo, devemos estar relaxados. Outros exemplos de “Shin”, temos “Shoshin” (A mente do iniciante), “Fudoshin” (A mente imóvel, espírito imóvel), “Heijoshin” (A mente impertubável), “Mushin” ou “Mushin-no-Shin” (A mente vazia, não ocupada). Através destes “estágios” o praticante chegaria ao “Muga” (abnegação). Acredito que justamente esta parte do “Shin” é que difere as Artes Marciais Japonesas de Artes Marciais ocidentais, onde, ao meu ver, concentrou-se o foco ao longo dos séculos, em melhorar as técnicas de luta para se derrotar o oponente, estratégias e desenvolver a tecnologia de armas.

Obviamente, o Japão também passou por fase semelhante mas, com a entrada do budismo no país, e sua propagação e o crescimento de adeptos cada vez mais de pessoas de alto escalão, como os senhores feudais por exemplo, a introdução, estudos e prática de ensinamentos daquela religião adicionadas ao Zen e Confucionismo, nas Artes Marciais foi rápida e de grande impacto, ajudando o samurai a superar o medo de enfrentar o inimigo no campo de batalha, ver e entender a morte com outra mentalidade, entre outros. Mas foi somente no final do Período “Sengoku”, ou Período dos Estados Beligerantes e início da Era Edo, devido a unificação e pacificação do Japão, é que estes estudos se tornaram ainda mais profundos, dando início ao que conhecemos como “Do”, ou caminho. Neste contexto, temos o Zanshin como um desses ensinamentos, que além do estado de alerta, traz o respeito pelo inimigo abatido, como mencionado acima.

Retornando à primeira questão: “qual o tempo ideal e como demonstrar o Zanshin?” Penso que através dos treinos, estudos e perguntas aos senseis, cheguei a seguinte conclusão: Não existe uma forma única para o Zanshin. Não existe um tempo ideal para realiza-lo. Para mim, o que importa é que após o corte, devo estar preparado para um contra ataque, estar pronto para demonstrar respeito para o oponente e sempre procurar estar sereno, relaxado após o golpe. E acima de tudo, ter o sentimento de remorso por ter tido que sacar a espada e tirar uma vida. Acredito enfim que naturalmente o Zanshin toma sua forma e seu próprio tempo, que apesar das diferenças de pessoa para pessoa, torna o Iaido um espelho da alma de quem o pratica.

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O colunista convidado é Alexandre Pereira (alepereira7676@gmail.com), 5º dan em Iaido e praticante do estilo Muso Jikiden Eishin-Ryu; é vinculado à Iwanamikai de Nagoya e ao Genbukan Dojo (em Kobe), sob orientação de Oshita Sensei (8º dan kyoshi ),  e Maeda Sensei (7º dan kyoshi ).

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O que achou da matéria? Sua opinião é importante para o crescimento deste trabalho. Caso tenha dúvidas ou queira conversar sobre o assunto, envie um e-mail para: blog.espiritomarcial@gmail.com

Postado em 22 de Fevereiro de 2017.

5 comentários sobre “Reflexões sobre Zanshin

  1. Ficou otimo com as imagens e video. Espero que seja de serventia. Um grande abraco!

  2. Cara, parabéns pelo trabalho. Espero que um dia tenhamos mais pessoas empenhadas e dotadas de um saber como você.

    • Olá Marco,

      Obrigado pelo elogio, mas neste caso o mérito é para o colunista convidado, Alexandre Pereira Sensei, que nos presenteou com uma excelente visão sobre o assunto. :)

  3. Prezados,

    Muito obrigado pelo elogio e novamente, espero que sirva para “dar uma luz”.

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