Competindo em Kendo

Venho através desta matéria tentar pretensiosamente esclarecer alguns pontos relacionados ao papel da competição em Kendo.

Muito me chamou a atenção um comentário em que a pessoa se dizia interessada no Kendo, mas que não gostaria de se transformar em competidor, colocado de forma perceptivelmente pejorativa, alegando estar atrás do Kendo como um ‘caminho de vida ’ e do ‘modo do samurai ’, não de alguém em busca de medalhas e projeção esportiva. Tenho esperança de apresentar aqui conteúdo para reflexão e esclarecimento sobre o assunto, sem parecer revanchista ou provocativo.

Mais do que uma resposta, este texto é um manifesto contra informações inverídicas emitidas por indivíduos de intenções obscuras e duvidosas, que deturpam a percepção de pessoas leigas no que se refere ao Kendo, sua prática e filosofias, reduzindo-o a um estereótipo irreal e vulgarmente denegrido.

Muitos países, em um só lugar.

Muitos países, em um só lugar. 14º WKC, S. Bernardo do Campo – Brasil (2009)

Primeiramente, o Kendo é treinado de maneira a se pensar que é uma arte marcial. Mais do que isso, é uma herança dos caminhos e virtudes dos tão cultuados samurai, estudada e polida ao extremo; o que chegou até os tempos de hoje contém ensinamentos de diversas escolas antigas, codificando séculos de aprendizado e evolução sobre como lutar com espadas.

O estudo do Kendo se dá em três frentes distintas: o kihon, aspectos básicos de postura, movimentação e forma de golpear; kata, sequências de ataque e revide pré-combinadas e o shiai, a luta propriamente dita.

Dentre os diversos tipos de treinamento, em especial aqueles com o uso da armadura, todos os procedimentos de ataque e contra-ataque são aplicados na luta exatamente como são estudados: o Kendo é uma arte em que existe extrema fidelidade entre teoria e prática na aplicação. Então, é natural observar que, o formato da luta é bastante conveniente para ser transportado para um campeonato. Com exceção a regras (tempo, por exemplo), não existe diferença visual alguma entre um combate na academia e um na competição.

Gyaku-Do, golpe no flanco esquerdo do oponente.

Gyaku-Do, golpe no flanco esquerdo do oponente.

Por outro lado, existem pessoas que são alheias a qualquer tipo de desafio esportivo ou exames de graduação, e que treinam apenas por satisfação pessoal. É possível treinar Kendo sem qualquer cobrança por parte dos instrutores ou federações, desenvolvendo suas habilidades da mesma forma que colegas federados. Porém, é interessante mostrar que tais eventos figuram como oportunidades para o crescimento e aprimoramento pessoais, que se dá através do contato com mestres altamente graduados e praticantes de todo o país.

Assim, a competição se enquadra perfeitamente como evento desejável, um apoio extra para o aprendizado. No entanto, é muito importante conter as expectativas, devido ao grande número, em especial, de kenshi  que treinam desde muito jovens.

 

O fator idade:

No livro Kendo Aproaches for All Levels (de Sotaro Honda, aluno de Masatake Sumi, 8º dan), é mencionado que a idade média de início no Kendo dos ocidentais é muito mais alta que para os japoneses (em 2001, a média de idade dos que fizeram exame para shodan na Inglaterra era 31; no Japão, é possível iniciar aos 6 ou 7 anos na escola fundamental). Então, é óbvio pensar que aqueles que treinam desde muito jovens desenvolvem aptidão e coordenação fina superiores do que aqueles que começam aos 30 ou 40. Em parte, a carga de treino é o diferencial para o refinamento destas habilidades específicas.

Mesmo assim, o Kendo é uma prática que prioriza o conhecimento, e praticantes mais lentos, idosos ou com alguma desvantagem em relação a um jovem rápido podem vencer um combate por mecanismos que não dependam inteiramente de força ou velocidade. Mas essa percepção também está conectada a carga de treino e estudo investidos, exigindo compromisso árduo. Compromisso este para ‘vencer o adversário’? Não, para vencer suas próprias desvantagens, seja a idade, a falta de conhecimento ou de percepção. E não existe nada de errado em querer se espelhar nos mais jovens e vigorosos, basta treinar focado na melhoria de suas capacidades físicas que existe aumento gradual do rendimento, desde que sejam reconhecidos certos limites.

 

O fator localização:

Infelizmente o Kendo é restrito a poucas regiões do país, em especial, aquelas ligadas a presença de colônias japonesas. O estado de São Paulo concentrou a maioria da imigração e certamente apresenta a maior quantidade de academias oficiais do Brasil.

Não que seja uma crítica, mas as academias do estado de São Paulo (ou melhor, na região metropolitana da capital) representam o centro técnico do Kendo no Brasil. Embora existam núcleos de excelência fora deste centro, é nítido que os vencedores dos grandes torneios no geral são pertencentes a estas regiões. É impossível especular as razões, mas estar na região central de qualquer modalidade permite mais acesso a instrução especializada, treinamentos coletivos e participação em maior quantidade de eventos por ano, o que prepara o competidor de forma mais completa que aquele que reside perifericamente. Quem mora longe destes centros geralmente participa apenas uma ou duas vezes por ano de eventos grandes, como o Campeonato Brasileiro, dado os custos e logística de viagem, o que reduz de forma sensível sua experiência para estas situações.

Academias certificadas no Brasil.

Academias certificadas no Brasil.

 

O fator instrução

Este tópico pode ser extremamente mal interpretado, e colocado aqui de uma forma grosseira e desrespeitosa. Porém, ainda sob o argumento do centro-periferia, os mestres mais experientes e graduados se concentram nas regiões centrais e lecionando em academias tradicionais. Ainda assim, é possível encontrar sim instrutores altamente qualificados nas regiões periféricas. Mas a regra é que existem grupos menores, com menos de uma década de existência, liderados por kenshi de 1º até 4º dan, que recebem suporte das federações, através de visitas periódicas de mestres graduados que verificam o nível técnico dos estudantes.

 

O fator motivação

Existe o desejo natural para o aperfeiçoamento, e para o Kendo, isso se dá principalmente pela atenção que o estudante investe no treinamento. Cada golpe bem aplicado, cada vez que um contra-ataque de sucesso é desferido, é possível sentir grande satisfação com sua evolução. Aí é importante observar que não se pode treinar Kendo sozinho. A inestimável presença dos colegas promove uma variedade de estilos e preferências de como lutar, e aprender como lidar com cada um deles é uma jornada à sua maneira. Seu Kendo só vai evoluir quando trocar ideias e golpes com outros praticantes, em especial, aqueles fora da sua academia. Ver e sentir na própria pele a força e técnica de outros kenshi  é fundamental para a compreensão da arte de modo mais amplo. Absorver estilos e ensinamentos, que podem ser replicados por você em outras situações de luta é um processo complexo de aprendizado puramente baseado na experiência. Esta, promovida pelo encontro com mais e mais praticantes, assim como o espírito do #Musha-Shugyo (peregrinação para o aperfeiçoamento do samurai).

Sempre obrigado, companheiros.

Sempre obrigado, companheiros.

 

 

Onde está o ‘Caminho do Samurai’? Onde está o ‘Modo do Guerreiro’? É vencer um adversário na competição?

Está na prática constante, insistente e austera. Não está em livros de autoajuda, em discursos filosóficos, textos tendenciosos de blogs ou posturas estereotipadas. Está em cada golpe dado, cada palavra absorvida. Está no suor do final do treino e na força de vontade de resistir a mais um comando para atacar, mais uma série de movimentos, no kiai mais forte. Está na derrota, está num golpe recebido de formas que talvez nem tenha percebido ou entendido, e é graças a ele que uma pequena chama da dúvida e curiosidade se manifestou para tentar compreender.

Instantâneo e decisivo.

Instantâneo e decisivo.

Kendo não é campeonato. Kendo é luta. Luta pela vida, que começa apontando nossas deficiências e desvantagens, para lutarmos de forma mais preparada no mundo e no dia a dia. Nunca de ‘qualquer jeito’. Sempre do ‘jeito correto’.

 

Não deixe de ler as matérias relacionadas:

#Guia para prática de Kendo e #Como é o treino de Kendo?

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N.P.P.:

Observe uma luta entre mestres de 8º dan, o mais alto nível no estado da arte e tire suas conclusões.

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…..O que achou da matéria? Sua opinião é importante para o crescimento deste trabalho. Caso tenha dúvidas ou queira conversar sobre o assunto, envie um e-mail para: blog.espiritomarcial@gmail.com

11 comentários sobre “Competindo em Kendo

  1. Parabéns ! Resposta muito bem dada. !

  2. Ótimo artigo como sempre! O Kendo é muito profundo. Espero conseguir entender um pouco mais. Obrigado. Abraço.

  3. Mais um ótimo post =D

    Continue com o bom trabalho

  4. Otimo texto !
    Acredito que competição deve ser um meio e não um fim no aprendizado do caminho da espada.
    Muito bem colocado

  5. Parabéns pela matéria e pela boa redação sobre algo que é novo para mim. Estou começando ” a engatinhar ” em um estilo de arte marcial que pouco conheço mas sempre admirei em filmes samurais que assisto e revejo, sempre que quero matar a saudade do bom gênero.
    Pratico Karatê e sei que ajuda e muito uma segunda pessoa para que o aprendizado seja evoluído e entendido com mais rapidez e melhor percepção.
    Você levantou ótimas perguntas e tocou em pontos que mostram a dificuldade de muitos que têm como distância o primeiro obstáculo.
    Penso o seguinte: A vontade do querer deve ser maior .
    Se quer então busque.
    Obrigado mais uma vez!!!

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