Gratidão no Combate

Os formatos de luta nas artes marciais modernas promovem embates que possivelmente causam ferimentos em algum grau. Tendências como o MMA popularizam a imagem de lutadores espartanos que rugem com seus rostos ensanguentados e superam seus limites até o último momento da luta.

Em especial, nestas artes marciais de contato, é possível ferir gravemente o adversário mesmo quando existe proteção específica. Em alguns casos, pessoas mal intencionadas podem machucar um suposto desafeto propositalmente.

Contato total.

Contato total.

No calor da luta, existe a satisfação no sucesso de uma técnica bem aplicada, em que o adversário ‘sente’ o golpe bem dado, perdendo o fôlego e até mesmo sendo nocauteado. No outro lado, sofrer o impacto do golpe pode criar uma série de emoções negativas a respeito do adversário, ou até mesmo da modalidade.

Neste cenário, como é possível falar em respeito? Ainda mais quando, ao ser derrotado, o vencedor sai gritando e pulando?

É preciso entender a raiz do aprendizado de uma arte marcial japonesa. Baseada na relação aluno-mestre, onde este atua quase como um tutor, o Sensei  ensina através de convívio diário modelos de pensamento, comportamento e técnicas que em sua aplicação, oferece o próprio corpo como alvo para que o aluno compreenda a dinâmica e essência.  Esta relação é a origem do conceito uchidachi-shidachi  que é encontrada na prática do Kendo Kata.

Uchidachi e Shidachi: professor e aluno.

Uchidachi e Shidachi: professor e aluno.

É natural que o aluno respeite o mestre, mas é possível que haja discordâncias com colegas veteranos ou mesmo rivais. Neste sentido, não é diferente o que foi mencionado no inicio do texto e um combate se torne uma ‘rinha de galos’.

Novamente, de onde é possível brotar o sentimento de respeito nas artes marciais?

Quando bem orientado, e através de bons exemplos dos veteranos, um aluno tende a progredir em suas técnicas cultivando o agradecimento pela assistência oferecida a ele, e pela admiração que sente pelos colegas mais habilidosos. Em essência, é interessante que em uma academia, TODOS se tornem cada vez mais fortes, não apenas por esforços individuais e individualistas, mas através de um elo e sentimento de união que conduz a vontade de aperfeiçoar criando uma motivação coletiva. Todos ajudam todos em suas deficiências técnicas. Este é um interessante primeiro passo.

Dentro da linguagem do combate, é esperado um comportamento agressivo que permita sobrepujar um adversário através de golpes contundentes. No Kendo então, o ponto (ippon) é uma simulação de um corte ou estocada letal. Esta presença de energia negativa (morte ou nocaute) que permeia a prática foi, ao longo das décadas, transformada em vontade de se aperfeiçoar, principalmente porque o Kendo tem um grande diferencial quando comparado com outras artes de combate com contato total: o praticante não se machuca. É possível golpear com grande intensidade de força (mas nunca sem técnica ou postura), graças aos protetores únicos utilizados.

Uma reação calculada.

Uma reação calculada.

Dessa maneira, é raro se sentir ofendido, revoltado ou irado por ser atingido pelo adversário, sentimentos geralmente desencadeados pelo processo de dor e humilhação. Claro que é incômodo ser golpeado incessantemente mas é importante aceitar que faz parte do aprendizado entender por que está levando golpes, e criar estratégias para melhorar seu desempenho (e apanhar menos).

Seguindo esta linha de raciocínio, é importante não ‘contaminar’ seu golpe (tanto no treino quando no combate) com essas emoções negativas, em especial, raiva. Em instâncias mais maduras, é dito que o golpe não deve carregar nem mesmo a vontade de golpear, a vontade de vencer ou atingir o adversário. Deve carregar a energia interior (ki ), a técnica correta (ken ) e a postura adequada (tai ), mas isento de sentimentos e intenções. Destreza, habilidade e determinação, mas neutro no coração.

Com tudo isto dito, é imprescindível comentar que o ippon conquistado em uma luta precisa carregar total respeito ao adversário. Respeito pela capacidade de ambos, que, ao máximo tentaram aplicar um golpe, mas somente um saiu vitorioso. Respeito pela presença do adversário, que graças a ele e sua força, você evoluiu um pouco sua habilidade e percepção. Sem este respeito genuíno, muitos mestres dizem que não é Kendo ‘de verdade’.

Por isso, o espírito de koukenchiai  traz enormes benefícios. Trata-se do sentimento e camaradagem e respeito mútuo no ato de lutar com uma pessoa diferente (e não importa sua graduação). O desejo de se aprimorar tecnicamente e a satisfação pelo desafio que está em sua frente. Os lutadores mais experientes e mestres, ao lutar, entram em uma espécie de ‘sintonia’ com o adversário, podendo instigar, induzir e prever ações e comportamentos. Em especial, ao lutar Kendo, sua percepção se volta para a localização de possíveis brechas (físicas e mentais) na postura  do adversário que configuram uma porta de entrada para o golpe definitivo.

Uma pequena brecha na postura.

Uma pequena brecha na postura.

Ao combater entre colegas de nível técnico próximo, a indução a tais aberturas e a procura delas é um grande desafio motivador e a capacidade de atingir corretamente o adversário depende diretamente disso. Ao lutar contra um Sensei, é um tanto quanto inocente acreditar que pode controlar psicologicamente as ações dele, quando na verdade, ele te induz a brechas simuladas na própria postura, observando as reações do aluno. Mas é importante ter ciência de que este gesto na verdade é de extrema didática. Você acha que viu uma falha e ataca, quando o Sensei  te contra-ataca subitamente. Isto é um modelo de ensino baseado na experiência, demonstrando as possibilidades e complexidades do estilo japonês de lutar. E é evidente que mesmo um mestre experiente não é invencível, é possível um praticante de baixa graduação atingir, ainda que por sorte, seu instrutor.

Finalizando, pode-se dizer que o Kendo é um combate de cavalheiros, onde ambos lutadores estão explorando falhas alheias, mas essencialmente MOSTRANDO ao colega onde elas estão. Uma vez que recebeu um golpe de tal maneira, é natural entender instantaneamente e tentar não mais apanhar duas vezes do mesmo modo. Isto é evolução e aprendizado. Então, essa relação de causa-e-efeito precisa ser elevada, entendida como respeito pela ajuda no aperfeiçoamento. Mesmo ao receber um golpe, o sentimento é ‘obrigado’. Onde reside o princípio do respeito.

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Não deixe de ler as matérias relacionadas:

#Sonkyo – Respeito ao Adversário e

#Budo – Uma Visão.

 

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10 comentários sobre “Gratidão no Combate

  1. Po, acho que esse na minha opinião foi um dos melhores posts q eu li aqui =D
    Parabéns

  2. Koukenchiai – faz muito tempo que não ouvia isso. Excelente texto. Omedetou.

  3. Gostei muito da matéria. Parabéns.

  4. Seus textos são ótimos! Com ponderações oportunas que partem da marcialidade, mas que também as transcende. Difícil porém, manter uma mente limpa de sensações emocionais quando mergulhamos nos embates cotidianos. Notadamente, nas esferas mais íntimas da vida privada, onde os conflitos são, sem dúvida alguma, mais contundentes, estabelecer uma postura distanciada de qualquer perspectiva é desafiador. Tenho lido sobre a arte da guerra e confesso que isso tem me deixado bastante intrigada. Obrigada por partilhar conosco essas reflexões.

    • Olá Carla,

      Novamente obrigado pela visita! É um universo fascinante, que hoje temos o luxo de aprender através da experiência e observação, sendo que este pensamento estratégico e mentalidades tiveram origem em guerra e morte. Incrível que, onde o ser humano é mais primitivo (violência), vemos verdades cruas, longe do politicamente correto ou eufenismo.

      Obrigado pelos comentários! :)

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