Graduações em Budo

Graduações estão naquela lista de coisa que “todo mundo sabe”…até você pedir que expliquem. Na hora de explicar a pessoa respira fundo, olha para baixo, pigarreia… e diz que outra hora responde.

A verdade é que, como ocorre com boa parte de nossa cultura, esta é uma prática reproduzida sem questionamento, sobre a qual não nos preocupamos em contextualizar. E esta falta de contexto eventualmente leva ao uso e compreensão incorretos. Em se tratando de uma cultura estrangeira da qual nos apropriamos este problema é potencializado.

Faixa preta…e…?

O quê é Budo

O primeiro problema é entender que Budo é um termo que abrange diferentes abordagens da cultura japonesa de ensino de métodos de combate. Diferentes tradições transmitindo diferentes conteúdos (e/ou abordagens de conteúdo) com objetivos distintos. Um método de formação de combatentes terá ênfases distintas de modalidades civis de formação moral de estudantes. Um método que visa preservar uma manifestação cultural do século XVI terá uma estrutura organizacional radicalmente distinta de outro que visa uma atividade física regular de caráter esportivo.

Trazendo uma analogia, poderíamos comparar futebol nas aulas de educação física escolar e escolinhas de Futebol. Outro paralelo seriam centros de formação de condutores (“auto-escolas”), cursos dados em Kartodromos e cursos de direção tática dados à policiais. Nos casos apontados acima temos uma mesma habilidade (jogar bola ou dirigir carros) com abordagens e objetivos distintos.

Takumi Hisa sensei exibindo sua licenciatura plena (menkyo kaiden) em Daito ryu.

Métodos clássicos de treinamento de combate eram focados em habilitar seus participantes com o básico necessário para quê estes cumprissem suas tarefas. Este treinamento não iria necessariamente envolver certificações e não podia demandar longos períodos de tempo. A exceção estava ligada a pessoas interessadas no papel de multiplicadores, as quais estavam dispostas a investir tempo e dinheiro numa qualificação profissional. Nestes casos os cursos podiam vir a levar meses e normalmente eram baseados em módulos progressivos de conteúdo. Após a aquisição e domínio destes conteúdos o iniciado estaria pronto para representar o estilo, sob a benção do herdeiro legítimo (e pagamento de taxas de “franquia”). Este sistema, chamado Iemoto, distingue os praticantes em graus de iniciação e responsabilidade que não correspondem necessariamente ao grau de habilidade técnica. Um praticante extremamente experiente e hábil pode não ter autorização de expressar publicamente sua opinião enquanto “membro” da escola. Fidelidade ao líder da escola, habilidade de ensinar e comportamento ilibado podem figurar acima da capacidade de triunfar em duelos.

Em paralelo aos métodos focados no combate havia os jogos de combate e/ou lutas rituais. Notadamente o Sumo e o Kyudo possuíam sua prática mais voltada ao lazer, sendo distrações e por vezes fontes de arrecadação de templos. A preocupação em desafios empolgantes e na segurança dos praticantes levou estas modalidades a classificar seus praticantes em níveis de excelência.

Na medida em que o Japão se unificou e os conflitos internos começaram a cessar, as oportunidades de por em prática as técnicas de luta tornaram-se esparsas e raras. Sem a expectativa de participar em grandes batalhas campais, os estilos passaram a focar mais em especializações (esgrima, combate corpo-a-corpo, arqueria, etc.). Isto e a profissionalização do ensino de combate levaram à busca de métodos alternativos de “testar” as habilidades do praticante. No corpo-a-corpo variações das regras do Sumo foram aplicadas; no combate armado o emprego de armas de bambu e armaduras leves (associadas à regras voltadas à segurança dos participantes) permitiram lutas de caráter esportivo. Este contexto trouxe a necessidade de classificar seus praticantes em níveis de excelência esportiva. Em paralelo, o rendimento nestas competições passa a desempenhar um importante papel na reputação de uma escola e atração de alunos.

Kendo no sistema educacional japonês.

Em pouco tempo o aspecto esportivo ganha preferência popular e torneios entre diferentes escolas acabam por dar origem a esportes como Gekken (“lâminas golpeando”, que precede o Kendo moderno) e o Kodokan Jujutsu (mais tarde rebatizado de Judo), os quais são extremamente bem recebidos pelo governo. Eventualmente o Ministério da Educação iria incorporar tanto o Judo quanto o Kendo em todas as escolas como conteúdo de educação física.

Kano sensei demonstrando kata da escola Kito ryu, na qual era licenciado.

Tais modalidades especializadas em um conteúdo e possuidoras de um aspecto competitivo não eram originalmente consideradas “novos estilos” e sim iniciações desenvolvidas principalmente para o ambiente estudantil. Modelos neutros e simplificados, que poderiam ser ensinados à qualquer praticante licenciado em estilos tradicionais. E ensinadas no ambiente escolar sem com isso beneficiar um estilo em detrimento dos demais.

Com a ênfase em competições a necessidade de estabelecer um sistema de classificação de atletas ficou indiscutível. Baseado no sistema adotado no jogo de tabuleiro Go, Kano sensei adotou o modelo de cinco kyu (aspirantes) e cinco Dan (experientes, que eventualmente seriam acrescidos de mais cinco níveis). A evolução nestes graus estava vinculada ao seu rendimento em competições e treinamento intensivos.

Budo Senmon Gakko (武道専門学校 Budō Senmon Gakkō).

No sistema educacional japonês a graduação cobrada para qualificar o professor era costumeiramente associada a instituições renomadas como o Budo Senmon Gakou (algo como centro de formação de especialista em virtudes/métodos de combate, conhecido como Busen) ou Instituto Kodokan de Kano sensei. No caso do Kodokan era exigido que se atingisse quarto Dan e uma licença de ensino em um estilo clássico para que o praticante fosse considerado qualificado a ensinar. Já o Busen era uma instituição voltada à formação de professores especialistas em estilos de Budo, com aulas práticas e teóricas. É evidente que a mera competência esportiva não representava aptidão para a transmissão destas artes.

Infelizmente o expansionismo e a militarização do Japão no início do século XX levaram a uma demanda por professores de esporte de combate que era incompatível com esta proposta de capacitação. Logo a graduação Dan tornou-se suficiente, se associada à uma boa carta de recomendação.

Com a introdução destas modalidades no ocidente, sua exoticidade permitiu que os critérios de qualificação fossem completamente ignorados devido a total falta de referências e impossibilidade de verificação de documentos. Indivíduos com experiência resumida às aulas de educação física escolar passam a se apresentar como “mestres”, com diplomas cujo conteúdo tornava-se impenetrável devido a barreira idiomática. A mera “faixa preta” na cintura validava sua capacitação.

Avaliando graduações.

Explicado o contexto, vamos deixar claro o quê são licenças e o quê são graduações:

  1. Licenças são diplomas que afirmam que o seu signatário foi exposto à um conteúdo e uma competência específica (operador, auxiliar de instrução, multiplicador, etc.), similares aos usados no meio acadêmico moderno;
  2. Graduações são avaliações neutras de classificação.

Quando uma pessoa recebe uma licença de ensino seu professor está AFIRMANDO que ela está capacitada a representar a escola, falar sobre seus conteúdos com autoridade e capacitar outros multiplicadores deste conteúdo. Tal declaração exige muita confiança no licenciado, exige convivência. Não pode basear-se em um contato ou avaliação pontual; exige uma cumplicidade oriunda da relação continuada professor-aluno.

Quando ostentamos uma graduação, ela nos coloca numa classificação de competência atlética. Ela estabelece um referencial de julgamento neutro, que poderá ser reconhecido por qualquer centro de treinamento em qualquer lugar do mundo vinculado àquela escola ou modalidade. Exatamente por isto deve ser baseada em julgamento de rendimento pontual por uma banca. A capacidade de demonstrar regularmente um nível de competência demonstra a possibilidade de ser classificado. Avaliadores neutros num momento pré-estabelecido seria a garantia de um julgamento imparcial.

Quando mantidas em suas respectivas esferas de aplicação, estas formas de avaliação funcionam de forma inequívoca. O problema que vivemos é que graduações estão sendo usadas como licença de ensino. Temos pessoas atleticamente aptas sendo julgadas como pedagogicamente adequadas ao ensino, moralmente capazes de lidar com a responsabilidade de influenciar a formação de alunos.

Não fosse o bastante, isto ocorre em modalidades que não foram criadas originalmente com o intuito de serem auto-suficientes, mas sim adequações de conteúdos tradicionais ao cenário escolar. Com isto temos pessoas condicionadas à reprodução conteúdos que não estão qualificadas a contextualizar, as quais por sua vez os estão repassando a uma nova geração deturpando ainda mais o contexto original.

Conclusões?

 

“Mostro com clareza que nenhuma dessas escolas ensina o verdadeiro Caminho; neste livro, falo de vícios e virtudes, erros e acertos. Minha escola suprema é diferente. Outras escolas fazem de certas tarefas seu meio de sobrevivência: plantando flores ou adornando objetos para vendê-los. Com toda certeza, este não é o Caminho da Estratégia” – Miyamoto Musashi

“Ah, todos esses são ensinamentos arrogantes e excêntricos e nada têm a ver com a verdadeira arte das espadas! Os discípulos adotam os erros de seus instrutores e nessa base transmitem o ensinamento novamente a seus alunos. Isso assemelha-se ao ditado: “O latido errado de um cão é transmitido por dez mil cães como correto.” . Shissai Chozan

Muito da polêmica acerca de graduações não é recente. Textos japoneses do período medieval já discutiam a dificuldade de transmitir corretamente ensinamentos e capacitar guerreiros. Mestres renomados discordavam sobre posturas e métodos de treinamento, mas concordavam em um ponto: é muito fácil ser enganado por professores incompetentes. A única defesa é manter o espírito alerta, a humildade presente e buscar o conhecimento.

Para quem quer saber como identificar a competência de um professor, a melhor orientação é verificar seu comportamento. De nada adianta treinar com uma pessoa de técnica soberba, mas conduta indigna. A graduação pode servir para saber a qual organização pertence, permitindo comparar sua habilidade com a de outros atletas (vídeos do Youtube podem ser uma boa referência, se sua pesquisa for bem feita), mas não será garantia de qualidade de ensino ou conduta ilibada.

E o conselho para quem busca se graduar? Foque no aprendizado.

A graduação, notadamente no sistema de Dan-Kyu, cumpre dois papéis: nivelar atletas para competições e responsabilizar praticantes pelo futuro da arte. Apenas tudo isso.

Quando você aceita receber o reconhecimento pelo seu empenho está na realidade assumindo o compromisso de garantir que este herança cultural sobreviva além de você. Você está dizendo que vai treinar porque A ARTE precisa ser treinada (mesmo que você esteja cansado ou sem tempo). Você está assumindo a responsabilidade de manter ao escola funcionando. Você está “casando” com a arte.

Quando encarada desta forma, a graduação apenas confirma aquilo que você e seu professor já sabem. E que você deve ser capaz de manifestar diante de uma banca de desconhecidos a qualquer hora e local.

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O colunista convidado é Renato Alcântara (alcantaracqcq@gmail.com), que possui a graduação de 3º dan em Kendo,  2º dan em Iaido e 1º kyu em Jodo pela Confederação Brasileira de Kendo, além do 1º dan em Aikido.

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3 comentários sobre “Graduações em Budo

  1. Praticamente um livro riquíssimo em informações. Parabéns!

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