Breve Histórico da Espada Japonesa

O fantástico instrumento usado pelos samurai é até hoje um dos artefatos mais admirados do mundo, por suas características históricas, culturais e estéticas. Considerada uma das mais eficientes e elegantes armas de combate medieval, é cercada por misticismos e religiosidade em sua formação, dita que sua arte vem diretamente dos deuses.

No entanto, seu formato e suas técnicas de produção mudaram significativamente durante as eras, evoluindo gradativamente para o conceito que conhecemos hoje. É impossível fazer um relato detalhado e preciso da jornada do artefato, mas segue um pequeno resumo histórico da espada japonesa.

O ideograma dao (刀), de origem chinesa, especifica um tipo de arma de corte genericamente entendido como “espada” (outras leituras sugerem o termo “facão”, menos elegante). A leitura japonesa para o ideograma é “katana”, que denota o mesmo conceito, mas não necessariamente a espada do samurai que conhecemos. Para isso, cunhou-se o termo nihon-to (日本刀) para identificar a arma com maior precisão.

É de conhecimento que armas de metal (bronze e ferro) já eram usadas no arquipélago japonês no período Yayoi (cerca de 300 a.C até 300 d.C.), época com forte influência chinesa e coreana no país.

chokuto_ken_secV

Chokuto (acima) e ken. Século V.

No período Kofun (século III até XII), espadas retas de gume único chamadas chokuto (直刀) e duplo – ken – (劍) foram encontradas relativamente preservadas nos túmulos dos nobres.

Como fator relevante para a evolução da espada, havia predominantemente duas formas gerais para seu corpo (para chokuto no caso): uma sessão triangular (hira-zukuri) e posteriormente uma de lateral mais larga (kiriha-zukuri):

formato_lamina

A espada japonesa de lâmina curva surgiu em meados do período Heian (794-1185), através da evolução dos processos de fabricação e têmpera, além de uma importante modificação do design: o shinogi, elemento que ampliou a maneira de lutar com a arma.

shinogi

Chamada de tachi (太刀), tinha por características principais o maior comprimento (geralmente entre 70 e 90 centímetros de lâmina), gume único e evidenciada curvatura; era carregada através de adornos específicos na lateral esquerda do corpo, mantida com a lâmina voltada para baixo.

Tachi Hyogo Gusari (século XIII)

Tachi Hyogo Gusari (século XIII).

O período Kamakura (1185-1333) é a origem do primeiro xogunato, quando Minamoto no Yoritomo derrotou o clã Taira. Em um governo militar, era de se esperar que houvesse notável desenvolvimento das técnicas de produção da arma, além do aumento do número de escolas de forja e estilos diversificados.

hamon

Durante o período Nanbokucho (1333-1392) não houve mudanças significativas na estrutura ou meios de produção da espada japonesa. No entanto, é interessante mencionar a criação de uma espada muito longa chamada odachi (大太刀), literalmente “grande tachi”, cujo comprimento ultrapassava 125 centímetros, e poderia ser carregada nas costas. No entanto, a moda não durou muito e as espadas retornaram ao seu tamanho médio.

Odachi de 194 cm! 136 só de lâmina. Século XIV.

A espada japonesa como conhecemos hoje foi criada em meados do período Muromachi (1392-1573), chamada uchigatana (algo como katana “média” ou “padrão”). Houve mudança significativa no seu porte: agora, instalada na cintura em uma faixa abdominal de tecido com a lâmina voltada para cima, possuía curvatura menos evidente, menor comprimento (em torno de 70 centímetros) e o corpo relativamente mais largo. Ao final do período se torna recorrente o uso do daisho, a espada longa e curta juntas, que viriam se tornar o símbolo da casta samurai.

Uchigatana. Daisen Kanemoto. Século XVI.

Uchigatana. Daisen Kanemoto. Século XVI.

O período Momoyama (1573-1603) é caracterizado pela substituição da tachi pela uchigatana, agora chamada apenas de katana. Por isso, era comum que proprietários de espadas tachi as encurtassem para se adequar ao novo padrão, pois era dito que eram mais fáceis de manusear a pé ou portando outras armas. É também neste período que são observados os termos koto (古刀), “espada antiga” para designar a produção dos períodos anteriores e shinto (新刀) “nova espada”, se referindo as desta época.

Em 1603 Tokugawa Ieyasu toma o poder e unifica o país, iniciando o período Edo. Medidas como o fechamento das relações internacionais e limitação de contato com os estrangeiros fazem com que uma cultura estritamente japonesa floresça no arquipélago. Tornou-se costumeiro que lordes presenteassem com espadas antigas ou de forjadores famosos. Com a paz, dificilmente havia oportunidades para testar as habilidades em lutas reais, e o samurai focou no desenvolvimento de treinamentos que influenciaram o Kendo e Iaido modernos.

Daisho do período Edo (século XVIII).

Daisho do período Edo (século XVIII).

O período Meiji (1868-1912) decreta o fim da era do samurai e proíbe o porte das espadas publicamente, além da modernização do exército japonês. Estes fatos quase colocaram em risco de extinção tanto as artes da espada quando da forja, que só foram preservados a partir da eficácia de tropas treinadas na arte da espada nos últimos conflitos da restauração e de decretos imperiais visando a proteção do patrimônio cultural japonês – as espadas agora forjadas eram as gendai-to (現代刀), “espadas atuais” na época.

A rápida militarização do Japão e sua expansão imperialista trouxeram a necessidade de espadas para os oficiais, principalmente para critérios cerimoniais e simbólicos. Espadas chamadas gun-to (軍刀), “espadas militares”, eram produzidas industrialmente em massa para suprir tal demanda a partir de 1935, mas diz-se que sua qualidade era questionável quando comparadas com as forjadas por profissionais.

Espada de oficial da marinha imperial japonesa (gun-to) .

Espada de oficial da marinha imperial japonesa (gun-to) .

Após a guerra, os forjadores se encontraram novamente em risco de extinção, visto que toda cultura marcial do país havia sido proibida pelas forças de ocupação e a mera posse da espada era ilegal.

Espadas apreendidas.

Espadas confiscadas (cerca de 1945-6).

Somente em 1953 é que foi possível retornar ao ofício de forja, devido a tratados especiais que visavam proteger propriedades culturais japonesas. Nos anos seguintes, associações de forjadores, colecionadores e apreciadores foram fundadas, permitindo a sobrevivência da espada japonesa até os dias de hoje, onde conta com os mesmos processos artesanais de feitura por tradição, dizendo-se que as espadas atuais possuem qualidade até maior que as dos grandes forjadores da história.

Todas as informações históricas foram extraídas do livro Art of the Samurai: Japanese Arms and Armor (1156-1868), editado por Morihiro Ogawa. Também é recomendável a leitura de Peregrinos do Sol (2010) de Luiz Kobayashi para maiores informações sobre a espada e as escolas de luta.

Linha do tempo da espada japonesa.

Linha do tempo da espada japonesa. Clique para ampliar.

Não deixe de ler também a versão oficial da Federação Japonesa de Kendo sobre a história da espada e sua arte.

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N.P.P.

O livro base não comenta os motivos da mudança do formato da lâmina, originalmente reta por influência do continente. Em diversos textos já li que as principais justificativas eram o uso da espada em cavalaria, onde uma lâmina mais longa e resistente era necessária (aprimorando também os métodos de forja para isso) e a mecânica do corte, otimizada pelo formato curvo através do movimento de empurrar ou puxar a lâmina durante o golpe. Comenta-se que os emishi (ou ainu, indígenas do arquipélago japonês) tiveram grande influência neste aspecto, pois suas espadas eram curvas na época que as do povo de Yamato ainda eram retas.

ainu

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Postado em 13 de Janeiro de 2016.

6 comentários sobre “Breve Histórico da Espada Japonesa

  1. Parabéns pela excelente matéria. Sei que a imagem do Samurai era um tanto quanto de “mercenário” e isso era contrário aos interesses da época, onde se buscava laços internacionais de comércio e os Samurais eram um empecilho ao defenderem os interesses locais de Senhores Feudais. Mas é irritante ver tanta proibição e caça aos Samurais. Muito se perdeu, pouco se preservou dessa fase ímpar e apaixonante. É uma pena. Não tinha visto uma matéria que tivesse reunido tanta informação sobre a evolução como essa. Parabéns, gostei muito!

    • Olá Alexandre,

      Não sou historiador então não posso comentar os fatos, mas imagino que a imagem do samurai é muito romantizada pela ficção, distorcendo bastante do que seria sua real presença. Junte isso à formulação do “bushido” do Japão Imperial e nos distanciamos mais ainda das origens.

      Mas sei que existe grande documentação da cultura em geral, em especial das espadas, no qual baseei esta matéria. Recomendo a leitura dos livros propostos para um maior entendimento do assunto!

      Obrigado pela visita!

    • Olá Inácio,

      Agradeço o elogio, mas não posso dizer que é uma aula, mas um conjunto de fragmentos mal posicionados. Se servem como ponto de partida para uma pesquisa mais aprimorada, já cumpriu sua proposta muito mais do que esperava! Não deixe de conferir a bibliografia sugerida!

      Obrigado pela visita! :)

  2. muito interessante a matéria precisamos de pessoas assim super interessadas e com vontade de pesquisa para nos mostrar a realidade sobre o assunto o quual, interessa e instiga inúmeras pessoas ainda neste século

    • Olá Julio,

      Obrigado pelo elogio mas estou longe de ser um pesquisador sério e criterioso :) Apenas resumo alguns materiais que encontro e que julgo confiáveis dentro do pouco que conheço… pode ser que um dia descubro que esse material não tem validade! Só precisamos de flexibilidade mental e assumir que as coisas podem ser revistas e reinterpretadas, certo?

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