Kendo Kata: conceitos #02

Esta matéria é uma continuação direta de Ippon-me: mais do que parece, publicada em 05/07/2010, sendo interessante se familiarizar com os detalhes já explicados lá.

O valor dos três primeiros Kata em Kendo se dá pelas diversas analogias e lições relativamente primárias que oferecem em termos de aprendizado, que vão além do imediatamente técnico, caracterizando-se como um convite para reflexão de conceitos básicos e essenciais do ideal de Budo que surgiu no final do século 19.

Em Nihon-me, ambos adversários assumiram chuudan-no-kamae, a postura da água, após o término da primeira sequência de movimentos. Logo em seguida, avançam três longos passos em direção um do outro, assumindo o issoku-ito-no-maai, que pode ser explicado de uma forma simplista como raio ou distância de ação onde com um passo de avanço golpeando atinge-se o adversário e recuando um passo evita-se seu ataque. As pontas das espadas estarão cruzadas, diferença gigantesca em relação à postura superiora jodan, pois agora é possível perceber “metricamente” o posicionamento do adversário.

A distância adequada ao cruzar as pontas das espadas.

Uma das qualidades técnicas que tornam o chuudan uma postura extremamente eficiente em combate é essa percepção de espaço, onde a disputa pelo avanço do território do inimigo é sentida na lâmina da espada, permitindo reações bastante dinâmicas em caso de ataque ou contra-ataque.

Quando as pontas das espadas se cruzam ao avançarem, o uchidachi percebe a oportunidade de ataque e com um passo, eleva a espada acima da cabeça e desce um golpe verticalmente cortante em direção ao antebraço direito do shidachi, emitindo o kiai “YA!” de forma ameaçadora e concentrada.

O shidachi ao intuir a intenção do atacante, se prepara para evitar o corte de seu antebraço e ao perceber a descida do golpe, abaixa a ponta de sua espada e recua na diagonal esquerda um pequeno passo deslizante (suri-ashi, o trabalho de pés no Kendo), evitando completamente o corte que passa no vazio deixado e abrindo uma grande brecha na guarda do uchidachi.

Em seguida, o shidachi levanta a espada acima da cabeça e a desce verticalmente em direção ao antebraço direito do adversário, visando cortá-lo, emitindo fortemente o kiai “TO!”, desferindo o golpe no mesmo local que o shidachi pretendia atacar. Evidentemente que, por se tratar de uma simulação de treinamento, a espada para a poucos centímetros do local, próximo ao pulso. Veja no vídeo abaixo:

Nesta sequência de movimentos percebe-se que a atitude combativa do uchidachi se manteve relativamente neutra, pois é característica do chuudan possuir a conotação ofensiva ao mesmo tempo que defensiva. Porém, ao avançar temeroso despertou no shidachi o sentido de alerta e que ele próprio deveria estar preparado para uma eventualidade, mas sem se declarar como agressor, apenas se mantendo na expectativa da ação do uchidachi.

É a exata percepção de estar em um momento delicado, onde todos desconfiam de todos e aguardam o movimento alheio para tomar uma atitude, que invariavelmente é direcionada pela expectativa ofensiva de uma das partes. Ao se manifestar, o outro lado também se revela preparado para uma ação fatalista.

O sentimento de “pé atrás” com algo cria uma atmosfera entorpecida de intenções e expectativas que nublam as possibilidades de solução pacífica. É exatamente como uma guerra fria, onde não se sabe qual lado tomaria a iniciativa, onde todos apontam armas e argumentos contra todos.

Guerra Fria: armas apontadas e tensão constante.

E novamente como em ippon-me, aquele que persiste na agressão encontra as conseqüências de suas ações, com um grande diferencial: desta vez, o golpe não é imediatamente letal, pois a perda de um braço, apesar da hemorragia, permite chance de sobrevivência.

Outra interpretação interessante seria a observação de que os kata também representam fases do aprendizado e maturidade espiritual do espadachim. No primeiro, sua perícia é elegante e exibicionista ao utilizar uma técnica complexa para eliminar energicamente e sem hesitação o adversário. Ações e atitudes típicas daqueles que confiam na sua habilidade e possuem uma perspectiva mais radical em relação ao combate, imediatista e absoluta.

Exatamente como somos em nossa juventude:  arrogantes, confiantes e reacionários.

No segundo, o refinamento da técnica permite uma esquiva básica e destemida, além do fato de poupar a vida de seu adversário, infligindo uma punição à altura para alguém que visava sua vida. Seria o sinal de que coração e técnica do espadachim estão entrando em harmonia no caminho da espada, demonstrando tanto força e habilidade quanto compaixão, sem deixar de castigar penosamente aquele que se desviou da estrada da virtude.

Por fim, uchidachi e shidachi retornam ao chuudan-no-kamae, abaixam suas espadas em sinal de neutralidade e recuam cinco passos até o local inicial do kata.

Termina em #Kendo Kata: conceitos #03

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Um comentário sobre “Kendo Kata: conceitos #02

  1. Muito bom! Adoro estas visões críticas sobre os katas, que são uma das minhas coisas favoritas no Kendo!

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