Kata: um aspecto da força
Por definição, evitando traduções ao pé da letra, o Kata ( 形 ) é um exercício típico das artes marciais orientais – em especial as japonesas.
Em algumas artes, ele é um treinamento solo, onde o praticante executa determinados movimentos de ataque e defesa contra um ou mais adversários imaginários. Em outras, é comum a presença de um parceiro de treino. E é aqui que fica interessante a discussão.
Sendo o kata um termo japonês, é usado portanto para artes japonesas como Karate, Judo, Kendo, Aikido. Em outras artes como o Taekwondo (coreano) é chamado de Poomse, Hyong ou Tul. No Kung-fu (chinês), onde existem centenas de estilos, é comum o uso do termo Kati ou Taolu. Porém no ocidente, todos esses termos são traduzidos de um modo bastante simplório como “formas”.
No Kendo, os kata são exercícios primordiais para o desenvolvimento do praticante. Tanto que é considerado um dos “três pilares” fundamentais que compõe a prática, juntamente com Kihon e Shiai.
O Kendo Kata é realizado em dupla: um atacante, chamado de uchidachi, que desempenha o papel do professor, e aquele que contra-ataca, chamado shidachi, no papel de aluno.
Neste ponto, é interessante ressaltar a profundidade do relacionamento entre os praticantes. O kata não deve ser encarado como um mero exercício físico ou técnico. Ele transcende a esfera da prática física: passa a representar a cortesia e benevolência do mestre, que gentilmente oferece sua perícia e o próprio corpo durante um ataque, para que o aluno teste, exercite e demonstre o valor de seu aprendizado, com o contra-ataque. Ressalto que, esse tipo de observação é pertinente somente para pessoas que possuem um nível de entendimento mais “amplo”, por assim dizer, no seu desenvolvimento na arte, ou em sua cultura pessoal. Ou seja: não haverá esta percepção mais desenvolvida caso o praticante seja inexperiente ou desconhecer certos fundamentos de reigi (礼儀 ) da cultura japonesa.
O Kendo Kata é composto por 10 sequências de ataque e contra-ataque, sendo que em 7 delas são usadas espadas longas (também chamada de Tachi) e em 3 é usada a espada curta (também chamada de Kodachi) contra espada longa. Não entrarei em detalhes sobre as técnicas. Elas podem ser visualizadas em sites de vídeo como youtube.com, usando as palavras-chaves “kendo kata”. Devo mencionar que existe alto grau cerimonial antes, durante e após a prática, típica da cultura japonesa, com exigentes formalidades.
Bom, mas essencialmente, o que torna o kata tão especial, frente a treinamentos modernos em que potencializam a força, velocidade, resistência e muitos outras capacidades de um atleta?
Esta é uma questão multidisciplinar. E as respostas certamente não agradariam a todos os praticantes de artes marciais, em especial aqueles voltados para competições. Inicialmente, trata-se de um fator cultural. A criação e desenvolvimento do kata em artes “tradicionais” é demorado (questão de anos) e repleto de referências técnicas e filosóficas que comumente passam despercebidas aos olhos menos atentos. Deste modo, praticar o kata de forma absolutamente fiel ao modo que é ensinado é compartilhar de uma herança cultural, deixada por mestres que eram expoentes em suas artes.
Outro ponto a ser considerado é o técnico. O kata, a exemplo do kihon, exige a execução de movimentos de uma forma bastante teorizada e pouco prática para o combate real. As técnicas e movimentações são realizadas de modo mais amplo, fisiologicamente falando, ou mais longas do que aqueles que seriam usados numa luta de verdade.
Embora a visem prever as situações de luta mais comuns e o desenvolvimento de técnicas que permitam sobrepujar um agressor nestas situações, os críticos do kata acreditam que o treinamento condicionado limita as possibilidades de reação (e a “criatividade marcial”) a poucas opções pré-determinadas.
Essa é uma crítica difícil de ser rebatida e existe razão nestes argumentos. Porém, a prática do kata não deve ser vista somente pelo prisma marcial. Existem outras aplicações que determinam seu uso – e isto está profundamente enraizado na cultural oriental. Como já disse em outro artigo, é típico dos japoneses em particular, buscar o domínio pleno de um processo para que atinjam um objetivo. É curioso que, para perseguir um objetivo, eles são extremamente metódicos.
Observe este exemplo: no futebol, temos 10 jogadores de linha que driblam e passam a bola até chegar no atacante, que chuta para o gol, e assim marca-se o ponto. Sob a ótica japonesa, o trabalho deve ser exaustivamente analisado, para se compreender o que faz a bola entrar no gol, como ela chegou no atacante, como foram feitos os dribles e passes que originaram o gol. Assim sendo, cria-se exercícios específicos que visam a melhoria das habilidades de drible, passe, visão de jogo e chute. Pois, compreendendo o processo e tornando-o altamente “polido”, o gol é uma conseqüência natural do método bem executado. Eis um exemplo de aplicação física do kata.
Colocando dessa forma, o kata também é um tipo de incubadora de técnicas, que nada mais são que métodos para se atingir um agressor. Uso o termo incubadora, pois através do treinamento extensivo, novas formas de ataque podem ser visualizadas, provenientes de uma original. Especulo que muitos estilos de koryu kenjutsu surgiram após alunos formados e licenciados vislumbrarem novas possibilidades de uso da espada. Nas artes que não usam armas, certamente o mesmo raciocínio é válido.
O ponto final sobre a prática estaria ligado à “filosofia”. Sabemos que muitos estilos de espada são representações de idéias mentalizadas por seus criadores. Assim sendo, o modo, a linguagem de brandir a espada está intimamente ligado a forma de pensar do criador. E isso se estende a todos os “rituais” e formalidades de uso da espada: forma de sacar, forma como o zanshin é feito, modo de tirar o sangue da lâmina, como embainhar, posturas e golpes preferidos. E não somente na postura “física” do espadachim: estaria presente também em suas estratégias e forma de lutar em geral. E o kata é a representação “coreografada” da linha de pensamento do estilo.
Até agora, só comentei do aspecto “solo” do kata. Quando ele é praticado em dupla, existem outros pormenores, como o exemplo mestre e discípulo, que consta na esfera da cordialidade. Alguns fatores físicos devem ser considerados, especificamente no Kendo Kata, como o timing de ação.
Para realizar uma seqüência, o uchidachi (professor) iniciará determinado movimento. Até então, o shidachi (aluno) deverá permanecer absolutamente (e psicologicamente) neutro e imóvel. Somente quando o uchidachi realizar de fato um ataque, é que existirá a situação de perigo, e só então a reação deverá ocorrer. Isto é bastante óbvio, mas se for considerar uma ampla maioria de praticantes de artes marciais, aqueles que tem esta percepção deve ser minoritária.
Então, o estudo da linguagem corporal do adversário é decisivo para o aprendizado marcial. Em alguns casos, seria esta a representação da expressão “sentir o ki” (energia) do agressor, onde nada mais que o conjunto de ações de uma pessoa foi imediatamente interpretado, a tempo de criar uma reação defensiva oportuna. Certamente, existem mais detalhes sobre o entendimento do ki, mas este exemplo foi meramente ilustrativo.
Formalizando, o kata é um reflexo, uma conseqüência do modo de pensar oriental. É fruto da análise de um momento e uma resposta criativa à situações do dia-a-dia. A atividade marcial, em alguns casos, pode ser interpretada como ferramenta para o desenvolvimento motor e fisiológico humano. Em outros, como manutenção de um modo de pensar mais cuidadoso e criterioso, o que acaba influenciando positivamente muitos aspectos do cotidiano. Bem vindo ao Budo.




Julho 7, 2008 às 8:43 am |
“(…) o kata (…) é usado portanto para artes japonesas como Karate, Judo, Kendo, Aikido.”
E não só nas artes marciais; no teatro Noh, por exemplo, os actores também recorrem ao uso de kata…
Texto fixe e que termina com uma grande verdade. Kata é, de facto, a porta de entrada do Budo.
Keep it up.
Julho 7, 2008 às 8:44 am |
Houve ali um problemazito com os parenteses… mas juro que não fui eu.