Jodan no Kamae
…..Este artigo tem por objetivo ilustrar um pouco de minhas vivências e observações pessoais no que diz respeito ao treinamento e associações deste kamae.
Jodan no Kamae visto no Kata e no Shiai
…..Essa postura tem se tornado popular internacionalmente não somente através do apelo estético diferenciado do chuudan-no-kamae, mas também por praticantes ilustres como Masashi Chiba Sensei (8º dan Hanshi), Kenji Shodai (famoso lutador da polícia de Kanagawa e vencedor do 56º All Japan Kendo Championship) e Koichi Seike (semifinalista por equipes do 13º WKC).

Masashi Chiba e Kenji Shodai
…..Cada postura (kamae) das artes da espada japonesa possui um significado agregado pela linha de pensamento do estilo que a contém e um leque de técnicas que envolvem seu uso. O (hidari) Jodan-no-kamae, postura em que se ergue a espada e ambos os braços acima da cabeça, avançando um passo com o pé esquerdo, é conhecida como a “postura do fogo”, não sendo difícil a compreensão para nós ocidentais, de que se trata obviamente de um kamae ofensivo para o combate. Tal qual um arco já estendido, a postura visa somente o ataque, possuindo uma gama relativamente reduzida de waza (técnicas), em função de seu conceito e mecânica. Essa associação imediata com o fogo também relaciona o jodan como kokorogamae ou “postura do coração”. Dos cinco kamae do Kendo, é a mais fácil de se entender a relação postural do kamae com o estado mental/espiritual do praticante. Tenho uma teoria pessoal onde a linguagem corporal de cada postura é a conseqüência natural de uma forma de pensar ou sentir, para em seguida agir. No caso, o jodan é o fogo, energia que inflama o praticante e o direciona para o ataque, no sentido de destruir, esmagar, eliminar o inimigo sem piedade ou hesitação. Não basta somente “querer ser ofensivo”, é necessário que a ofensividade seja expressa em todos os sentidos: no ki, no kiai e na atitude. Somente assimilando este conceito, será possível praticar o jodan, com pelo menos, o espírito correto.

Katate-Men
…..Um ponto fundamental que gostaria de focar é a postura mental/espiritual. Certamente, tudo depende de como o conceito da postura deve atuar sobre as ações daquele que a utiliza. Entendendo que o jodan-no-kamae é uma postura ofensiva e intimamente relacionada ao fogo, o lutador que a adota não deve recuar. Não no sentido estratégico, mas no sentido mais literal possível. Acredito que ao lutador em jodan não é permitido dar um passo sequer para trás. Se o fizer, não estará mais em kokorogamae. Assim sendo, mesmo que consiga pontuar ou vencer uma luta, o kamae se torna vazio e é tempo desperdiçado. Torna-se “joudan” (brincadeira). Se não me engano, isso é atribuído ao deus indu Fudomiyo (ou Acalanata) que é conhecido como “o imóvel” ou “o inabalável”, uma analogia mitológica ao estado mental concentrado e determinado que o lutador em jodan deve possuir. Fudomiyo segura em uma mão a espada Taya, que além de dominar demônios, serve para eliminar todo resquício de dúvidas na alma, o que também se torna uma analogia direta, pois em jodan é comum atacar com a espada somente com uma mão, e sem hesitar jamais.

Fudo – 不動 – sempre representado envolto em chamas
…..Abrir concessões à conveniência das situações não é uma atitude correta no entendimento das artes marciais. O verdadeiro guerreiro, lutador ou praticante sério atua dentro da esfera das normas de sua arte, buscando aperfeiçoamento segundo a lógica de seu estilo. Atuar fora dessa esfera é ceder ao que é mais fácil e conveniente. Assim sendo, isso o tornaria inferior perante os demais, tendo a honra manchada e sendo conhecido por tão ter “pulso firme” ou “não agüentar o tranco”, por assim dizer. E uma pessoa que não tem palavra de cumprir o que se propôs ou não segue as diretrizes que deveria seguir não passa de um hipócrita, certo?
…..Mas retornemos ao ponto técnico. Existem alguns waza que consideram o recuo do corpo como elemento estratégico. Acredito que não tenho competência para comentar ou julgar algo no sentido que mencionei no parágrafo anterior. O exemplo mais prático é o Ippon-me do Kendo Kata. Com ambos os praticantes assumindo a postura jodan-no-kamae; um deles ataca e o outro se desloca momentaneamente para trás, esquivando-se do corte por uma questão de centímetros, avançando novamente para o ataque frontal (técnica conhecida por men-nuki-men). Neste caso, o recuo não entra em conflito com o conceito do kokorogamae de sempre avançar. Porém, é comum observar nas lutas que o seme do oponente em chuudan-no-kamae muitas vezes “quebra” o kamae do lutador em jodan ou o faz recuar, amedrontando-o. A energia (ki) do lutador em jodan deveria ser superiora ao oponente e figurativamente falando, esmagar a energia do adversário, mesmo que este avance destemidamente. Aquele que recua não é um verdadeiro kokorogamae.

O ippon que definiu o campeonato
…..Outro ponto técnico importante para análise seria o maai (algo como raio de ação). Para o lutador em jodan, o maai se torna maior, em função da forma que empunha a espada. Considerando-se também que os katate-uchi (ataques utilizando apenas um braço) são as técnicas primárias, isso se torna verdadeiro. E o erro mais comum de qualquer iniciante no jodan é se aproximar demais do oponente para facilitar seu ataque. Na verdade, isso só favorece a ele, pois permite que ele também possa trabalhar melhor sua impulsão. Ao dominar o adversário do maai correto, o lutador em jodan controla a situação. Mas para isso, é necessário treinar o braço para descer de forma fulminante o golpe katate-men ou katate-kote, especialmente no debana-waza (técnicas ofensivas de antecipação). Ainda espiritualmente falando, o lutador em jodan deve possuir o espírito de ai-uchi, onde ambos lutadores se golpeiam no mesmo momento, de forma fatal. O sentido disso seria que a força e agressividade seriam fatores diferenciais para que sua espada atinja primeiro o adversário, mesmo que este já tenha iniciado um movimento ofensivo, “matando-o” primeiro, o que diminuiria o grau de “letalidade” de seu golpe. Além do que, para aquele que luta com kokorogamae, nenhuma oportunidade pode ser desperdiçada.

Katate-kote
…..O treinamento específico para aplicação dos golpes em jodan deve ser observado com atenção. Existe a necessidade expressa de fortalecer como um todo, o braço esquerdo. E justamente isso pode vir a ser um problema. Pessoas desinformadas ou não orientadas por um Sensei tendem a exagerar nos treinamentos de fortalecimento do braço esquerdo, o que é bastante perigoso. Levantar pesos ou treinar com equipamentos inadequados e sem instrução certa podem criar lesões, principalmente no pulso, que é muito exigido para a prática de jodan.
…..E por que treinar jodan? Essa é uma pergunta que muitos Senseis fazem aos seus alunos quando estes despertam interesse. E a resposta ao pedido de treino pode ser um pouco desanimadora, já que os mestres geralmente não são incentivadores das práticas tidas como pouco ortodoxas. Sem dúvida, esse conservadorismo é característica típica da cultura japonesa. Por outro lado, o Sensei espera que o aluno tenha amplo domínio do que considera básico no Kendo: a maestria do chuudan-no-kamae. E esse é o cenário que me deparei ao pesquisar um pouco o assunto. A recomendação geral é que se existe o interesse, deve começar a estudar a partir do 2º dan, pois os praticantes já têm amplo conhecimento nas bases do Kendo, mas principalmente por estarem familiarizados com o golpe tsuki, praticamente ausente nos treinamentos de iniciantes. Lutar em jodan sem levar tsuki é mera brincadeira, é ser “café-com-leite”.

Olha o que te espera…
…..Outro caso interessante é que, dado o conceito de agressividade do jodan, é comum que o lutador peça licença ao adversário antes de assumir a postura. Os orientais são particularmente sensíveis a certas atitudes, que podem ser interpretadas como rudes ou grosseiras, e o Kendo busca polir as atitudes do ser humano ao máximo em suas definições. É realmente paradoxal.
…..Falando competitivamente, iniciar-se no jodan-no-kamae é quase um retorno às origens. A busca para se adaptar às novas variáveis causa certo retrocesso nas habilidades de luta do praticante. Afinal, são novas regras em jogo e seria natural o praticante ficar confuso e pouco confortável durante um tempo. Dessa forma, é comum “apanhar” um pouco no início da prática. E prepare-se para ter a garganta alvejada. Em jodan, ambos os kote estão expostos, ambos os lados do do, mas principalmente o tsuki se tornará o alvo primário dos oponentes que lutam em chuudan. Mas, obviamente, nem tudo será desvantagem, pois o lutador em jodan se tornará um especialista em men – com uma ou duas mãos (katate e morote). O mínimo descuido do adversário será fatal, pois cabe, na minha visão, obrigatoriamente ao lutador em jodan a iniciativa do primeiro ataque. Basta existir – ou induzir – a brecha. Infelizmente, isso torna o ataque previsível e, sabendo disso, muitos adversários em chuudan preferem contar com o contra-ataque, pois sabem que o kokorogamae não permitirá o seu avanço ou a tentativa ofensiva.

Força e presença
…..Treinar o jodan é um grande desafio, pois os aspectos envolvidos requerem esforço e compromisso do praticante. O tipo de treino que cansará muito mais os músculos do braço, poderá machucar o pulso esquerdo pelo excesso de repetições e tensão, formigamento, calos, câimbras, além de ter a garganta muito alvejada pelos colegas. Definitivamente, não é um caminho fácil. Porém, considero outras bases e posturas de luta como parte integrante do universo da espada japonesa e são complementos de um todo. Se existe um motivo para uma pessoa se interessar pelo jodan-no-kamae, é este: conhecimento.
Outubro 19, 2009 às 5:14 pm |
Estou iniciando meu treinamento no Kendo, e ler este texto fo muito instrutivo, neste momento em que busco informações sobre o Caminho. Há um Shodan que usa Judan-no-Kamae no Dojo onde eu treino, e fico fascinado em ver seu estilo. Graças a este artigo pretendo, no futuro, estudar este Kamae pelo conhecimento que ele pode me gerar principalmente, visto que acredito não possuir um espirito compativel com tal postura, mas percebendo a importancia de seu estudo.
Outubro 30, 2009 às 11:13 am |
Olá Tom.
O jodan é um caminho muito difícil, tanto no sentido físico como no sentido mental. Não que tenha “algo de especial” em relação ao Kendo de uma forma geral mas justamente por isso é recomendado que se inicie os treinamentos a partir de certa graduação. Muitos mestres são céticos quanto ao ensino do jodan para aspirantes, shodan ou nidan.
Mas perseverança é fundamental na prática do Kendo e ter objetivos de curto, médio e longo prazo faz parte do nosso aprendizado. Fico muito contente em ter contribuído pelo menos um pouquinho com seu caminho. Obrigado pelo comentário no meu blog. Bons treinos!